O foco da disputa política em torno da PEC que extingue a jornada 6×1 se deslocou definitivamente para o Senado, colocando o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), no centro de um complexo xadrez político que envolve forte pressão popular, interesses do setor produtivo e uma relação historicamente estremecida com o Palácio do Planalto.
Alcolumbre já sinalizou a interlocutores e lideranças partidárias próximas que não pretende atuar como um obstáculo institucional para a proposta quando ela chegar à Casa, um cálculo estritamente pragmático para evitar o imenso desgaste político de barrar uma matéria que hoje goza de enorme simpatia e apelo nas redes sociais e nas ruas. Essa postura de abertura foi endossada publicamente pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que fez questão de sinalizar a jornalistas sua total confiança na sensibilidade e no compromisso de Alcolumbre para dar o devido andamento ao texto.
Na Câmara, o clima é de aceleração: a intenção de Motta é levar a matéria ao plenário de forma célere, impulsionada por um parecer construído após intensas negociações com o governo federal, que resultou no desenho de uma regra de transição de 14 meses para a redução gradual da jornada de trabalho das atuais 44 horas para 40 horas semanais.
*A Disputa*
No entanto, essa aparente sintonia e fluidez na tramitação da PEC do fim da escala 6×1 contrasta drasticamente com o mal-estar persistente que dita as relações bilaterais entre Alcolumbre e o governo federal.
O Palácio do Planalto e a presidência do Senado ainda vivem sob a sombra de desconfianças mútuas que se intensificaram após a forte e bem-sucedida articulação liderada por Alcolumbre nos bastidores para esvaziar e, em última análise, derrubar o nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, que despontava como um dos favoritos do presidente da República para concorrer à vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF).
Esse episódio deixou sequelas profundas na articulação política governista e se reflete diretamente no ritmo do Senado, onde pautas de altíssimo interesse do Executivo, como a PEC da Segurança Pública, seguem completamente estagnadas e sem perspectiva de avanço rápido, funcionando como um termômetro claro da insatisfação de Alcolumbre e como uma poderosa moeda de troca nas negociações de bastidores.
*Futuro*
Diante desse cenário de tensões acumuladas, a grande incógnita que passa a rondar é se a chegada da PEC 6×1 ao Senado abrirá uma nova frente de crise e um cabo de guerra aberto com o Planalto, ou se Alcolumbre cederá integralmente ao apelo das ruas.

