O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), convocou uma reunião de líderes para esta terça-feira (16), às 14h, com o objetivo de destravar a pauta da Casa e discutir os próximos passos da proposta que prevê o fim da escala 6×1 no Brasil.
Segundo publicação feita por Motta nas redes sociais, o deputado Leo Prates (Republicanos-BA) deverá apresentar esclarecimentos sobre pontos do parecer relacionado ao projeto que regulamenta a nova jornada de trabalho. A expectativa é que a matéria avance para votação ainda nesta semana.
Convoquei Reunião de Líderes para amanhã (16), às 14h. Na ocasião, o deputado @leopratesba vai esclarecer pontos do seu parecer sobre o PL que acaba com a escala 6×1, apesar de já termos aprovado a PEC sobre a redução da jornada de trabalho. Com a apreciação da matéria,…
— Hugo Motta (@HugoMottaPB) June 15, 2026
O tema voltou ao centro das discussões do Congresso após a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição que reduziu a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas sem redução salarial.
A medida também estabelece dois dias de descanso remunerado por semana e altera uma das principais regras da legislação trabalhista brasileira.
Mudança altera rotina de milhões de trabalhadores
Como mostrou O Brasilianista, a proposta recebeu 472 votos favoráveis no primeiro turno e 461 no segundo turno, números que demonstraram um raro consenso entre parlamentares de diferentes correntes políticas.
O texto estabelece uma implementação gradual. As duas primeiras horas de redução da jornada deverão ser retiradas em até dois meses após a promulgação da PEC. As duas horas restantes serão reduzidas ao longo dos 12 meses seguintes.
A escala 6×1 deixará de existir oficialmente 60 dias após a promulgação da emenda constitucional.
A proposta aprovada é resultado de negociações que reduziram o alcance das versões originais apresentadas por parlamentares como Erika Hilton (PSOL-SP) e Reginaldo Lopes (PT-MG), que defendiam uma jornada máxima de 36 horas semanais.
Reportagem do O Brasilianista informou que a votação foi marcada por discursos inflamados, disputas políticas e tentativas de apropriação dos dividendos eleitorais da proposta.
Senado resiste à pressão para votação rápida
Apesar da vitória na Câmara, o caminho da proposta ainda está longe do fim.
Conforme revelou O Brasilianista, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), já sinalizou que pretende analisar o tema com mais cautela.
“Não podemos ser uma Casa carimbadora de propostas aprovadas na Câmara”, declarou o senador ao comentar a tramitação da PEC.
Na avaliação de Alcolumbre, a proposta exige um debate mais aprofundado antes de ser submetida ao plenário.
“Seria muito razoável se o Senado pudesse melhorar um texto com essa importância, se os senadores pudessem debater um assunto dessa envergadura com calma, sem açodamento, sem pressa”, acrescentou.
O presidente da Casa pretende ouvir representantes dos trabalhadores, empresários e especialistas antes de definir um cronograma para votação.
Oposição apresenta proposta alternativa
Enquanto a PEC aprovada pelos deputados aguarda análise dos senadores, uma proposta concorrente começou a ganhar espaço nos bastidores de Brasília.
De acordo com O Brasilianista, parlamentares da oposição protocolaram a PEC 12/2026, que cria um modelo baseado em acordos individuais entre empregados e empregadores.
A proposta foi elaborada sob liderança do senador Rogério Marinho (PL-RN) e conta com apoio de integrantes do PL, incluindo Flávio Bolsonaro.
O texto prevê remuneração proporcional às horas trabalhadas e permite diferentes modelos de jornada, sem impor um formato único para todos os setores da economia.
Nos bastidores, líderes partidários admitem que a discussão sobre jornada de trabalho deve dominar parte relevante das negociações legislativas do segundo semestre.
Especialistas veem impactos diferentes entre os setores
Embora a mudança seja amplamente apoiada pela população, especialistas alertam que seus efeitos não serão iguais para todas as atividades econômicas.
Em entrevista ao O Brasilianista, o cientista político e diretor executivo do Livres, Magno Karl, afirmou que o debate envolve uma complexidade maior do que normalmente aparece na disputa política.
“É uma situação que, uma vez que a gente ultrapassa a superfície, ela é muito mais complexa do que simplesmente o desejo do trabalhador de ter uma jornada mais curta e a cautela, os temores dos empregadores de possíveis perdas”, observou.
Para ele, parte dos impactos só poderá ser medida após a implementação prática das novas regras.
A consultora econômica e sócia da Gibraltar Consulting, Zeina Latif, também avaliou ao O Brasilianista que diferentes categorias profissionais exigem soluções específicas.
“Você pega bombeiro, médico, tem ocupações que elas têm jornadas muito diferentes e que são decisões técnicas”, explicou.
Segundo a economista, uma legislação excessivamente rígida pode criar dificuldades para setores que funcionam em regime contínuo.
Pejotização e automação entram no radar
O advogado trabalhista Alberto de Carvalho afirmou ao O Brasilianista que algumas empresas podem avaliar o aumento de contratos via Pessoa Jurídica (PJ) para acomodar custos decorrentes da redução da jornada.
“Setores como comércio, bares, restaurantes, postos de combustíveis, hotelaria e serviços em geral podem ser os mais sensíveis ao debate, porque dependem de operação contínua e mão de obra presencial”, explicou.
Apesar disso, ele alertou que a pejotização não pode ser tratada como substituição automática do emprego formal.
“A contratação por PJ exige efetiva autonomia do contratado, o que normalmente não se afina com relações marcadas por subordinação direta, controle rígido de jornada e inserção estrutural na atividade empresarial”, destacou.
O debate também envolve possíveis efeitos sobre o emprego.
Segundo O Brasilianista, o economista Filipe Eduardo Martins Guedes acredita que algumas empresas podem recorrer à tecnologia para compensar custos adicionais.
“Empresas podem optar por acelerar a automatização de alguns processos ou de fato proporcionar uma redução de quadro para compensar”, alertou.
O especialista ponderou, porém, que não existe base técnica para afirmar que haverá uma onda generalizada de demissões.
Indústria reage e aviação pede exceções
Conforme mostrou O Brasilianista, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) lançou uma campanha nacional defendendo a PEC do Trabalho Flexível, proposta alternativa que permite diferentes modelos de jornada.
A entidade sustenta que trabalhadores possuem necessidades distintas e que uma única regra pode não atender adequadamente todos os setores da economia.
Já o setor aéreo teme dificuldades operacionais. Segundo O Brasilianista, o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, defendeu a criação de exceções para categorias específicas.
“A gente precisa trabalhar nas excepcionalidades porque, se não, a gente vai inviabilizar algumas áreas de trabalho”, afirmou.
A preocupação é maior entre pilotos, comissários de bordo e mecânicos de voo, que frequentemente cumprem jornadas incompatíveis com os limites previstos para outras profissões.

