O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tentou transformar sua passagem pelos Estados Unidos em demonstração de força política internacional, mas a imagem divulgada ao lado do presidente Donald Trump acabou provocando novas críticas nas redes sociais e reacendendo comparações com o episódio em que Eduardo Bolsonaro afirmou ter “fritado hambúrguer” nos EUA ao defender sua indicação para a embaixada brasileira em Washington.
Editorial publicado pelo Estadão nesta quarta-feira (28) classificou a postura do senador como “subserviente” e afirmou que a fotografia divulgada após o encontro com Trump produziu mais constrangimento político do que fortalecimento eleitoral.
O principal objetivo da viagem era produzir um símbolo político capaz de reforçar a candidatura presidencial de Flávio dentro da direita bolsonarista.
O encontro ocorreu em meio à pressão causada pelos áudios e mensagens divulgados pela Polícia Federal envolvendo pedidos de recursos para o financiamento do filme “Dark Horse”, produção inspirada na trajetória política de Jair Bolsonaro.
Viagem virou munição nas redes sociais
A repercussão da imagem de Flávio Bolsonaro ao lado de Trump rapidamente gerou comparações com uma das declarações mais conhecidas do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Em 2019, ao defender sua possível indicação para a embaixada brasileira nos Estados Unidos, Eduardo afirmou que tinha experiência internacional porque havia “fritado hambúrguer” no estado do Maine.
Eduardo alegou possuir “vivência pelo mundo” e afirmou ter trabalhado em lanchonetes durante intercâmbio nos Estados Unidos. A fala virou meme político e voltou a circular nas redes após a divulgação da imagem de Flávio na Casa Branca.
Na ocasião, Eduardo também afirmou que sua eventual indicação para o posto diplomático não seria nepotismo e disse contar com apoio do então chanceler Ernesto Araújo.
O episódio gerou críticas dentro do Itamaraty e provocou questionamentos no Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo manifestações do ministro Marco Aurélio Mello.
Relação com Trump virou ativo político da família
O encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump foi articulado por Eduardo Bolsonaro, que atualmente vive no Texas e mantém proximidade com setores da direita norte-americana.
O grupo bolsonarista utiliza a relação com Trump como instrumento eleitoral e como forma de manter influência política mesmo após a condenação de Jair Bolsonaro.
A tentativa de aproximação com o presidente norte-americano também ocorre após desgastes diplomáticos recentes envolvendo tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos ao Brasil durante o governo Trump.
Integrantes da família Bolsonaro atuaram para pressionar autoridades norte-americanas em favor do ex-presidente brasileiro.
O encontro não apareceu oficialmente nos canais da Casa Branca nem nas redes sociais de Donald Trump, o que alimentou questionamentos sobre a dimensão real da reunião divulgada por Flávio Bolsonaro.
O Brasilianista mostrou que uma das imagens divulgadas sobre o encontro entre Flávio Bolsonaro, Donald Trump e Eduardo Bolsonaro era falsa e havia sido criada por inteligência artificial.
A foto começou a circular nas redes sociais antes mesmo da reunião oficial acontecer e chamou atenção pela aparência hiper-realista, levando parte dos usuários a acreditar que o registro era verdadeiro.
A própria assessoria de Flávio confirmou que a imagem não correspondia ao encontro real e apontou diferenças visuais, como a gravata usada pelo senador.
Crise do Banco Master segue no centro da campanha
A viagem internacional ocorreu enquanto aliados de Flávio Bolsonaro tentam conter os impactos políticos da relação entre o senador e Daniel Vorcaro.
As investigações da Polícia Federal apontam pedidos de financiamento feitos ao banqueiro para custear o filme “Dark Horse”, produção que trata Jair Bolsonaro como personagem central da disputa política brasileira.
Os relatórios da PF também citam repasses financeiros, viagens internacionais, imóveis e encontros envolvendo diferentes autoridades políticas e o ex-dono do Banco Master. O caso já atingiu nomes como Ciro Nogueira, Cláudio Castro e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa.
Em meio ao desgaste, a imagem de Flávio ao lado de Trump passou a ser utilizada por aliados como demonstração de prestígio internacional.
Nas redes sociais, porém, a repercussão acabou marcada por montagens, memes e referências à fala de Eduardo Bolsonaro sobre ter “fritado hambúrguer” nos Estados Unidos.
Brasil acima de tudo ou Trump acima de todos?
Durante o governo de Jair Bolsonaro, a relação com Donald Trump foi marcada por uma série de episódios que levantaram críticas sobre subserviência diplomática aos Estados Unidos.
Em 2019, Bolsonaro decidiu retirar unilateralmente a exigência de visto para turistas americanos entrarem no Brasil sem garantir reciprocidade imediata aos brasileiros.
No mesmo período, o governo brasileiro apoiou posições defendidas por Trump em organismos internacionais, incluindo ataques à Organização Mundial da Saúde (OMS) durante a pandemia e discursos alinhados à política externa americana contra a China.
Bolsonaro também chegou a afirmar que admirava Trump e repetia frequentemente o slogan “Make America Great Again” em agendas públicas.
A aproximação foi ampliada pelos filhos do ex-presidente. Eduardo Bolsonaro articulou encontros com aliados do trumpismo e manteve interlocução direta com integrantes da direita americana durante o período em que passou nos Estados Unidos.
O Estadão afirmou que o senador apareceu em “pose de mordomo da Casa Branca” e classificou sua postura como símbolo de “subserviência” ao presidente norte-americano.

