A economia da Rússia registrou sua primeira contração em três anos, mesmo em um momento de valorização do petróleo provocado pela guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.
Como mostrou a Bloomberg, o Produto Interno Bruto (PIB) russo recuou no último trimestre, ampliando os temores sobre uma possível recessão e levantando questionamentos sobre a capacidade do Kremlin de sustentar simultaneamente o esforço de guerra e o crescimento econômico.
O cenário chama atenção porque o petróleo historicamente funcionou como um dos principais motores da economia russa. Ainda assim, nem a alta recente da commodity nem o alívio temporário em algumas restrições ao petróleo russo foram suficientes para impedir o enfraquecimento da atividade econômica do país.
A Rússia de hoje depende menos do setor petrolífero do que dependia nas décadas anteriores. O petróleo e o gás representam cerca de 15% do PIB, enquanto a maior parte da economia está concentrada no setor privado não ligado à energia, justamente o segmento que vem sofrendo maior pressão.
Juros elevados pressionam atividade econômica
Parte das dificuldades atuais decorre da estratégia econômica construída pelo próprio presidente Vladimir Putin ao longo das últimas décadas.
Desde que chegou ao poder, o líder russo adotou políticas voltadas para estabilidade monetária e controle fiscal, buscando evitar crises semelhantes às enfrentadas pelo país após o colapso da União Soviética.
Essa estratégia ganhou força após a invasão da Ucrânia em 2022. Para conter a inflação, o Banco da Rússia aumentou os juros a níveis historicamente elevados.
Embora a taxa básica tenha recuado recentemente para 14,5%, ela continua entre as mais altas do mundo em termos reais, dificultando o acesso ao crédito por empresas e consumidores.
O próprio Ministério da Economia da Rússia reduziu sua projeção de crescimento para 2026 de 1,3% para apenas 0,4%. O movimento sinaliza preocupação crescente dentro do governo com o ritmo da atividade econômica.
A combinação entre juros altos e menor estímulo à economia civil tem reduzido investimentos privados, especialmente em setores que não possuem ligação direta com a indústria de defesa.
Guerra alterou prioridades do orçamento
Conforme explicou O Brasilianista ao analisar os impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia, o conflito passou a pressionar não apenas o campo militar, mas também as finanças públicas russas. A necessidade de sustentar operações militares prolongadas elevou significativamente os gastos do governo.
Aproximadamente um terço de todas as despesas federais russas está atualmente direcionado para atividades militares. As compras governamentais relacionadas à defesa cresceram 41% desde o início do conflito.
A mudança de prioridades orçamentárias foi reconhecida inclusive por integrantes do próprio governo russo. O vice-primeiro-ministro Alexander Novak afirmou que a reorganização dos gastos públicos contribuiu para ampliar as dificuldades enfrentadas por setores da economia civil.
Especialistas internacionais também observam que a guerra deixou de ser apenas uma disputa territorial e passou a envolver uma disputa econômica prolongada, na qual infraestrutura, exportações e capacidade produtiva assumem papel estratégico.
Falta de trabalhadores amplia dificuldades
Como divulgou O Brasilianista, outro desafio enfrentado pela Rússia é a escassez de mão de obra. O país precisaria incorporar cerca de 1,5 milhão de trabalhadores para restabelecer o equilíbrio do mercado de trabalho.
Parte desse déficit está relacionada diretamente ao conflito na Ucrânia. Centenas de milhares de russos foram incorporados às forças armadas, enquanto outro contingente expressivo deixou o país desde o início da guerra.
Destaca que aproximadamente 700 mil pessoas estão atualmente envolvidas no esforço militar. Além disso, estimativas acadêmicas apontam que cerca de 650 mil russos emigraram entre 2022 e 2023.
O resultado aparece nos indicadores de emprego. A taxa de desemprego atingiu níveis historicamente baixos, mas não por crescimento acelerado da atividade econômica. O fenômeno ocorre porque diversas empresas enfrentam dificuldade para contratar profissionais qualificados.
Petróleo continua estratégico para Moscou
Enquanto a economia doméstica enfrenta desafios, o mercado internacional de energia permanece fundamental para a Rússia. Como informou O Brasilianista, a guerra envolvendo Irã e Estados Unidos aumentou as preocupações globais sobre o abastecimento de petróleo e reforçou a importância de grandes exportadores da commodity.
Nesse contexto, a China passou a desempenhar papel central. Pequim acumulou estoques recordes de petróleo e ampliou sua capacidade de influenciar o equilíbrio entre oferta e demanda no mercado internacional.
A Rússia permanece como o segundo maior fornecedor de petróleo para os chineses, atrás apenas do conjunto de exportadores do Oriente Médio. Essa relação ajudou Moscou a compensar parte dos efeitos provocados pelas sanções ocidentais após a invasão da Ucrânia.
Apesar disso, o fortalecimento das exportações energéticas não tem sido suficiente para neutralizar os problemas internos. O peso reduzido do setor petrolífero dentro do PIB limita sua capacidade de impulsionar sozinho toda a economia russa.

