O aumento dos custos da aviação comercial tem levado companhias aéreas a revisar operações e reduzir frequências em diversas rotas pelo país.
Embora o número de passageiros continue crescendo, especialistas avaliam que o setor enfrenta uma mudança estrutural que pode afetar principalmente cidades médias e regiões mais afastadas dos grandes centros econômicos.
Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostram que o Brasil transportou 129,6 milhões de passageiros em voos domésticos e internacionais em 2025, resultado 9,2% superior ao recorde anterior registrado em 2019.
O mercado doméstico também ultrapassou pela primeira vez a marca de 100 milhões de passageiros em um único ano.
Apesar do crescimento da demanda, o cenário financeiro das empresas segue pressionado por fatores como combustível, dólar elevado, leasing de aeronaves, manutenção e infraestrutura aeroportuária.
Para Alexandre Tourinho Zonis, sócio do escritório Schmidt, Lourenço Kingston, Advogados Associados e especialista em Direito Administrativo, a tendência é uma reorganização das operações.
“O cenário mais plausível não é de colapso generalizado da aviação comercial brasileira, mas sim uma retração seletiva da oferta, marcada pela concentração das operações em rotas mais rentáveis e pela diminuição da conectividade em cidades médias, destinos regionais e mercados de menor densidade econômica”, analisa.
Menos voos em mercados regionais
Embora a procura por passagens continue elevada, o especialista explica que o principal problema está na viabilidade econômica de determinadas rotas.
O desempenho recente do setor confirma que os brasileiros continuam utilizando o transporte aéreo em larga escala. Ainda assim, isso não garante a manutenção da cobertura territorial existente hoje.
“Mesmo em um contexto de demanda elevada, as empresas tendem a priorizar mercados de maior rentabilidade e a reduzir exposição em rotas menos eficientes economicamente”, contextualiza.
“A aviação pode, portanto, continuar expandindo seu volume agregado de passageiros e, ao mesmo tempo, perder abrangência territorial”, observa o especialista.
Custos elevados pressionam as companhias
O aumento do querosene de aviação tem sido apontado como um dos principais fatores por trás da redução de frequências anunciada por algumas empresas nos últimos meses.
Além do combustível, boa parte das despesas do setor está vinculada ao dólar, o que amplia os impactos de oscilações cambiais sobre os balanços das companhias.
“A aviação comercial brasileira opera em um ambiente particularmente complexo porque combina livre iniciativa e forte exposição concorrencial em mercado concentrado com uma estrutura de custos fortemente dependente de fatores externos e de políticas públicas fragmentadas”, explica.
O especialista destaca que atividades como manutenção e contratos são altamente sensíveis ao cenário internacional.
“As companhias convivem com forte exposição cambial e custos elevados de combustível, leasing de aeronaves, manutenção, seguros e infraestrutura aeroportuária”, detalha.
Outro fator que contribui para o aumento dos custos é a tributação do combustível aeronáutico.
“Há também um componente federativo relevante. A alíquota do ICMS incidente sobre o querosene de aviação varia entre os estados, gerando assimetrias competitivas entre rotas e distorções no planejamento operacional das companhias”, aponta.
Conectividade influencia desenvolvimento econômico
A redução da malha aérea produz efeitos que vão além do transporte de passageiros. Em diversas regiões do país, os voos representam um elemento importante para o funcionamento da economia local.
Na avaliação de Zonis, o impacto tende a ser mais intenso justamente nas localidades que já enfrentam dificuldades logísticas.
“Quando uma rota deixa de existir, não se perde apenas uma opção de transporte: reduzem-se oportunidades de negócios, turismo, circulação de profissionais e acesso da população a serviços concentrados nos grandes centros urbanos”, ressalta.
O especialista observa que os efeitos também atingem setores estratégicos que dependem de deslocamentos rápidos.
A menor oferta de voos pode dificultar o acesso a serviços especializados como saúde, educação e administração pública, especialmente em regiões mais distantes dos grandes polos urbanos.
“A retração da malha tende, portanto, a elevar custos logísticos, dificultar a integração econômica e ampliar desigualdades regionais já existentes”, avalia.
Debate envolve política pública de longo prazo
A discussão sobre a redução dos voos também passa pelo papel do Estado na preservação da conectividade aérea. Em países como os Estados Unidos, programas permanentes subsidiam rotas consideradas essenciais.
“Os Estados Unidos mantêm há décadas o programa Essential Air Service (EAS), criado para preservar a conectividade de cidades menores e regiões remotas após a desregulamentação do setor aéreo”, explica.
Para o especialista, a ausência de uma estratégia permanente faz com que muitas medidas sejam adotadas apenas em momentos de crise.
“No Brasil, inexistem mecanismos permanentes equivalentes: as intervenções tendem a ser pontuais e reativas a crises, sem o caráter estrutural de uma política contínua de conectividade regional”, observa.
“Por isso, a discussão não envolve apenas a decisão empresarial de manter ou encerrar uma rota específica. O debate regulatório consiste em definir qual nível de conectividade o país considera estratégico para promover integração nacional, desenvolvimento regional e redução das desigualdades territoriais”, conclui.

