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Geopolítica

Os paralelos entre as eleições do Peru e do Brasil

O pleito peruano pode ensinar muito aos políticos brasileiros

Os paralelos entre as eleições do Peru e do Brasil

A eleição presidencial no Peru está acirrada. Na última atualização do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) às 19h08 (de Brasília) desta segunda-feira (08) tinha 94,78% das urnas apuradas, com Roberto Sánchez na liderança frente a Keiko Fujimori no número de votos do segundo turno.

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Sánchez está com 50,086% dos votos, enquanto Fujimori tem 49,914% dos eleitores. Como a diferença ainda é muito pequena, a apuração das urnas segue.

No primeiro turno, a filha do ex-presidente condenado Alberto Fujimori, foi a primeira colocada, com 17,2% dos votos válidos. Por sua vez, Sánchez conseguiu 12% dos votos na primeira votação.

Em relação ao Brasil, o cenário político que se desenrolar dessa eleição moldará diretamente a intensidade da aproximação ou afastamento entre os dois países. Vale lembrar que o presidente brasileiro também pode mudar em 2026. Esse impacto é relevante porque o Executivo é o principal responsável pela diplomacia e relações exteriores.

“Dependendo de quem controla este espaço de poder, não é que vai representar afastamento, ou uma aproximação definitiva entre os dois países, mas talvez haja uma vontade política maior de governo de esquerda aproximar-se de outro governo de esquerda ou governo de direita aproximar-se mais de outro governo de direita. Isto porque as tentativas de institucionalização de processo integracionista mais pautado por questões políticas, como foi, por exemplo, o intento da Unasur [União de Nações Sul-Americanas], acabaram não conseguindo alcançar os resultados esperados e acabaram sendo desmantelados nos últimos tempos. E por isso acaba recaindo sobre os executivos nacionais este papel preponderante na definição da política exterior e de quais países cada governo, de momento se aproximaram mais ou acabaram tendo certo afastamento”, explica o Prof. Dr. Junior Ivan Bourscheid, do Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política (ILAESP) da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).

A relação Brasil-Peru

A relação histórica entre o Brasil e o Peru está vinculada pela própria fronteira entre os dois países. Ou seja, historicamente, sempre houve relações relativamente próximas entre ambos os países.

Essa fronteira faz parte da região amazônica e isso tem implicações relevantes do ponto de vista de recursos naturais e de soberania para os países sul-americanos, nesse caso para o Brasil. E isso já está vinculado também com uma certa competitividade entre os dois países.

Com relação à exploração de recursos naturais, especialmente minerais, a economia peruana tem certa dependência da extração desses recursos, o que pode gerar certa competição entre os países, mas há outras diversas as relações econômicas e comerciais entre ambos.

“O Peru não é dos parceiros centrais da economia brasileira, seja para exportações ou para importações, mas tem sim sua relevância. E do ponto de vista de infraestrutura, também existem projetos que tentam de alguma forma integrar esses dois espaços, especialmente porque quando falamos da relação mais próxima de Brasil e Peru, posicionamos a questão da região amazônica e todos os seus gargalos de infraestrutura que historicamente observamos “, revela o professor.

Outro ponto relevante nessas relações é a questão das redes de narcotráfico que se expandiram pela Amazônia. A colaboração entre os países se torna essencial para o controle de fronteiras, soberania sobre o território nacional e para a própria relação com questões de segurança interna.

Do ponto de vista político, ele afirma que há uma grande instabilidade política no Peru, especialmente nos últimos dez anos, desde 2016, com a saída de quatro dos nove últimos presidentes da nação. Esse cenário dificulta a manutenção estável das relações entre os dois países.

No caso do Brasil, atualmente com governo de centro-esquerda, tende a ter uma relação mais próxima, com grupo político similar do ponto de vista peruano. Nesse sentido, uma vitória de Sánchez seria mais interessante nesse momento do ponto de vista da manutenção de governo do PT por aqui.

Já no caso de uma vitória da oposição, a direita no Brasil, isso tenderia a uma aproximação maior com possível governo de Keiko Fujimori.

“Podemos observar que as aproximações ou afastamentos entre os países latino-americanos recentemente se dão muito mais por afinidades entre os próprios governos e, nesse sentido, o signo político-ideológico de quem comande o Executivo Nacional, que é o responsável pelas relações diplomáticas em ambos os países. Dependendo do signo, isso leva a uma maior aproximação ou maior afastamento entre os governos”, afirma.

De olho na Colômbia e nos EUA

O resultado do pleito também pode afetar as relações com outros atores importantes politicamente no nível internacional. Bourscheid afirma que a questão da Colômbia também é relevante, especialmente considerando que o país passa por eleições na próxima semana.

Como a Colômbia também faz fronteira com o Peru e com o Brasil, dependendo do grupo político que esteja no poder nesse país, será um elemento extra para minar ou fomentar as relações políticas entre Brasil e Peru.

Além disso, o professor relembra que os Estados Unidos possuem o governo de Donald Trump, mais conservador, até o ano de 2029. Sua gestão também afeta as relações com os países latino-americanos.

“Nesse sentido, governos mais à direita poderão ingressar nestas articulações políticas que o governo Trump vem fazendo, como por exemplo o escudo das Américas, a iniciativa do governo dos Estados Unidos que busca vincular outros governos de matriz política ideológica mais à direita e com interferências na própria soberania de política externa desses países e até de algumas questões internas nesse sentido, especialmente a questão da relação com a criminalidade, com as organizações criminosas vinculadas especialmente com o narcotráfico”, menciona o especialista.

Nenhum presidente peruano conseguiu concluir seu mandato desde 2016

Keiko Fujimori pertence a grupo político mais vinculado à direita, filha e herdeira política de Alberto Fujimori, que foi presidente autoritário peruano dos anos 1990. Por outro lado, Roberto Sánchez, é vinculado com a esquerda e grupos que reiteram questões do campo.

O real impacto para o Brasil vai ser observado após as eleições brasileiras. Quem comandar o Palácio do Planalto vai indicar qual será o rumo das relações do país com o Peru.

No entanto, o problema maior não é quem ganhar o pleito peruano agora. O novo presidente deverá se sustentar no poder por mais tempo do que seus antecessores. Em dez anos, foram nove chefes do Executivo em Lima, sendo que quatro foram completamente destituídos.

Isso ocorre desde a eleição de Pedro Paulo Kuczynski como presidente, considerado um outsider por Bourscheid, sem base política institucionalizada. Na ocasião, em que também disputou contra Keiko Fujimori, ela inicialmente não aceitou os resultados, atuando para tentar obstruir as iniciativas do Executivo dentro do Congresso. A partir dessas ações e posteriores casos de corrupção que foram surgindo, a cena política peruana dos últimos dez anos é marcada absolutamente pela instabilidade. O último presidente que conseguiu se manter no mandato completo foi Alan Garcia no seu segundo governo.

Em paralelo com o Brasil, desde a redemocratização, apenas dois presidentes não concluíram seus mandatos: Fernando Collor e Dilma Rousseff.

Um elemento comum das eleições do Peru é a frequente contestação de Fujimori do resultado final. Ao mesmo tempo, e cada vez mais, o pleito no país vizinho do Brasil fica mais competitivo. Esse cenário não está distante do que o Brasil enfrenta hoje.

“A fragmentação eleitoral, uma alta fragmentação dos votos que independente de quem seja o presidente peruano no próximo período, vai ter essa dificuldade de construir uma coligação dentro do Legislativo que permita dar minimamente uma estabilidade para que possa governar”, disse o especialista.

A situação é similar no Brasil. A tendência de descentralização de votos no Legislativo, uma pluralidade maior de partidos presentes representados tanto na Câmara dos Deputados como no Senado sempre gera desafio para quem esteja no Executivo. Para conseguir governar de forma estável, mantendo-se no poder, a boa relação com as Casas Legislativas é essencial, especialmente porque essa fragmentação tem sido utilizada como ferramenta de oposição e, em última instância, de deposição de governos.

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