A decisão da Justiça Federal que suspendeu o leilão que contratou R$ 515 bilhões em energia de reserva, para garantir a segurança do sistema energético nacional, é apenas a ponta do iceberg de uma disputa que opõe os empresários das energias renováveis e aqueles que atuam com matrizes energéticas consideradas tradicionais, como hidrelétricas e térmicas.
Enquanto o setor de energia renovável quer mais espaço, os empreendimentos mais ‘tradicionais’, principalmente os ligados a termelétricas, querem a certeza de que receberão um valor justo por acionamentos emergenciais — que são mais frequentes do que o ideal, devido à conhecida precariedade do sistema elétrico brasileiro.
No meio da disputa estão os consumidores cativos e aqueles que compram energia no mercado livre por necessitarem de muita energia para produzir, como acontece no setor de celulose e na mineração. Os leilões de energia de reserva são custeados por esses dois grupos, enquanto o acionamento emergencial é pago apenas pelo povo na conta de luz.
Os produtores de energia renovável alegam que o uso de baterias pode acabar com a necessidade de acionar termelétricas. Esse argumento esconde a vontade desses empresários em ampliar seus mercados. Atualmente, eles oferecem a maior parte da energia durante o dia, período em que as usinas fotovoltaicas funcionam. Após às 18h, sobram as eólicas, que não têm capacidade de atender a demanda sozinhas.
Outro argumento contado pela metade por empresários das energias renováveis é a questão ambiental, pois usinas termelétricas são a matriz energética mais poluente de todas as usadas no Brasil, por queimarem gás. Eles só não detalham o custo ambiental de produzir baterias e descartá-las após de suas vidas úteis.
A decisão que suspendeu o megaleilão, divulgada nesta segunda-feira (08), foi tomada pela Justiça Federal do Ceará, estado que abriga um dos maiores grupos de energia renovável do país: a Casa dos Ventos Energias Renováveis, criada em 2007 pelo engenheiro Mário Araripe.

