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Geopolítica

Como tensões entre EUA, México e Canadá podem afetar a Copa do Mundo

Conflitos diplomáticos envolvendo imigração, segurança e circulação de torcedores já provocam mudanças operacionais

Como tensões entre EUA, México e Canadá podem afetar a Copa do Mundo

A Copa do Mundo de 2026 começa nesta quinta-feira (11) cercada por desafios que vão além do futebol.

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Pela primeira vez realizada simultaneamente em três países, a competição acontece em meio a um período de desgaste diplomático entre Estados Unidos, México e Canadá, provocado por disputas comerciais, políticas migratórias mais rígidas e divergências sobre segurança nas fronteiras.

O tema ganhou novos contornos após o governo americano impor restrições à seleção e aos torcedores do Irã. A equipe iraniana precisou transferir sua base de treinamento para Tijuana, no México, e recebeu autorização para entrar nos Estados Unidos apenas nos dias das partidas. Os jogadores não poderão permanecer em território americano entre os compromissos.

Além disso, a Federação de Futebol do Irã afirmou que perdeu o direito de distribuir a cota de ingressos destinada aos seus torcedores, medida que atingiu pessoas que já haviam organizado viagens para acompanhar a seleção durante a competição.

Para Rodrigo Bueno Prestes, advogado e pesquisador especializado em Direito Internacional Econômico, os episódios demonstram como questões geopolíticas podem interferir diretamente na organização de um evento global.

“Do ponto de vista do comércio internacional, qualquer aumento de tensão entre países que compartilham uma operação tão grande tende a gerar impactos em custos e planejamento”, explica.

Relação entre vizinhos atravessa momento delicado

A realização da Copa coincide com um período de forte desgaste entre os governos da América do Norte. Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, os Estados Unidos retomaram tarifas comerciais contra produtos canadenses e mexicanos, endureceram políticas migratórias e ampliaram medidas de controle nas fronteiras.

O Canadá respondeu às medidas americanas com ações próprias e passou a buscar alternativas para reduzir sua dependência econômica dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, autoridades mexicanas enfrentam pressões relacionadas à imigração e ao combate ao tráfico de drogas.

As divergências também ocorrem em meio à revisão do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), principal tratado comercial da região.

“O grande legado do Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (NAFTA) e, posteriormente, do USMCA foi a criação de uma integração econômica muito forte entre os três países”, ressalta.

Essa conexão, segundo ele, vai muito além das relações diplomáticas e está presente em cadeias produtivas.

“Na prática, isso significa que uma peça pode ser produzida no México, receber componentes dos Estados Unidos e ser finalizada no Canadá antes de chegar ao consumidor final”, detalha.

Logística da Copa depende de fronteiras eficientes

A dimensão da Copa de 2026 transforma a circulação de pessoas e mercadorias em um dos principais desafios do torneio. Ao longo de pouco mais de um mês, milhões de torcedores, profissionais, equipamentos e fornecedores precisarão cruzar fronteiras entre os três países.

“A previsibilidade é um dos fatores mais importantes para manter custos sob controle, e eventos desse porte dependem justamente dessa estabilidade para funcionar com eficiência”, observa.

Ele destaca que mudanças em tarifas, exigências alfandegárias ou procedimentos migratórios podem gerar impactos em toda a cadeia de organização da competição.

“Quando existem divergências comerciais, mudanças tarifárias ou aumento da burocracia nas fronteiras, toda a cadeia logística fica mais cara”, acrescenta.

O tema ganha relevância em um momento em que o governo americano acelera a ampliação do muro na fronteira com o México. Nesta semana, autoridades dos Estados Unidos afirmaram que a estrutura deverá ser concluída até o fim de 2027, com reforço de sistemas eletrônicos de monitoramento e vigilância.

Imigração e segurança entram no centro do debate

Além das questões comerciais, a circulação de turistas se tornou uma preocupação adicional para organizadores e governos.

A situação envolvendo o Irã evidenciou como decisões relacionadas à segurança nacional podem atingir diretamente participantes do torneio.

Autoridades americanas também negaram vistos a integrantes da federação iraniana e estabeleceram condições especiais para a permanência da delegação durante a competição.

“Afetam diretamente porque influenciam a circulação de pessoas e mercadorias, que são justamente dois dos pilares de um evento global como a Copa do Mundo”, afirma.

Segundo ele, hotéis, companhias aéreas, operadores turísticos e fornecedores dependem da livre movimentação para aproveitar plenamente as oportunidades geradas pelo torneio.

“Quanto mais claras forem as regras e mais eficiente for a circulação entre os países, maiores tendem a ser os benefícios econômicos gerados pela Copa para toda a região”, destaca.

Oportunidade econômica em meio às divergências

Apesar dos conflitos diplomáticos recentes, especialistas avaliam que a Copa pode funcionar como um elemento de aproximação econômica entre os três países.

O torneio deve movimentar bilhões de dólares em investimentos, turismo, infraestrutura, transporte, tecnologia e serviços, criando incentivos para que governos e empresas mantenham canais de cooperação abertos durante o evento.

“O comércio internacional funciona muito baseado em interesses comuns”, observa.

Para ele, a busca por receitas, investimentos e geração de empregos tende a estimular soluções práticas mesmo em períodos de tensão política.

“Quando existe potencial de geração de receita, empregos e investimentos, a tendência é que os setores produtivos encontrem formas de manter a cooperação”, analisa.

O especialista ressalta que a Copa representa muito mais do que uma competição esportiva para os países envolvidos.

“Quando analisamos um evento da dimensão da Copa do Mundo, não estamos falando apenas de futebol. Estamos falando de logística internacional, circulação de mercadorias, turismo, investimentos e geração de negócios. É uma oportunidade econômica gigantesca para os países envolvidos”, conclui.

Integração econômica enfrenta desafios políticos

Para Rafaella Krasinski, advogada especialista em Direito Empresarial e mestranda em Economia, o desafio vai além da realização dos jogos.

A especialista ressalta que a competição exigirá um esforço inédito de coordenação entre governos que enfrentam divergências em diferentes áreas.

“A realização da Copa do Mundo de 2026 representa um desafio sem precedentes, já que será a primeira edição com 48 seleções e a primeira organizada simultaneamente por três países. Em condições normais, esse modelo já exige elevado grau de coordenação institucional. Quando inserimos um cenário de tensões diplomáticas e comerciais entre Estados Unidos, México e Canadá, o nível de complexidade aumenta significativamente”, explica.

A especialista destaca que o endurecimento de políticas migratórias e eventuais divergências regulatórias podem gerar impactos diretos na operação do evento.

“Milhões de turistas, delegações, patrocinadores, jornalistas e fornecedores precisarão circular entre os três países durante o torneio. Qualquer endurecimento de controles fronteiriços ou divergência regulatória pode aumentar custos e reduzir a eficiência operacional do evento”, observa.

Mesmo diante desse cenário, Krasinski avalia que os interesses econômicos envolvidos funcionam como fator de equilíbrio.

“Os ganhos potenciais com turismo, consumo, investimentos em infraestrutura, geração de empregos temporários e exposição internacional tendem a superar os custos políticos de eventuais divergências momentâneas”, afirma.

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