Como mostrou O Brasilianista, as tarifas adicionais de 25% impostas pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras entraram em vigor nesta quarta-feira (22) após semanas de negociações sem acordo entre os dois países.
A medida atinge diversos segmentos industriais, utiliza argumentos relacionados à investigação comercial aberta pelo governo americano, incluindo questionamentos ao Pix e levou o governo brasileiro a preparar ações para reduzir os impactos sobre aproximadamente 2,4 mil empresas que exportam para o mercado norte-americano.
Tarifa ao Brasil amplia sequência de decisões
A cobrança de 25% sobre produtos brasileiros não surgiu de forma isolada. Nos últimos meses, o governo do presidente Donald Trump passou a utilizar diferentes instrumentos da legislação comercial americana para pressionar parceiros considerados estratégicos ou envolvidos em disputas comerciais com Washington.
Em diferentes casos, as medidas foram justificadas por razões distintas, como alegações sobre concorrência desleal, proteção da indústria americana, trabalho forçado, tributação de empresas de tecnologia, gastos militares ou políticas de preços de medicamentos. Em comum, elas tiveram como característica a adoção de iniciativas unilaterais por parte da Casa Branca.
A seguir, veja nove episódios que ajudam a entender como essa estratégia foi aplicada em diferentes regiões do mundo.
1.China voltou a ser alvo da guerra comercial
Outro exemplo da política adotada por Trump envolve a relação com a China. O país asiático voltou a enfrentar medidas tarifárias e permaneceu no centro da disputa comercial iniciada ainda durante o primeiro mandato do presidente americano.
Além das novas tarifas anunciadas em 2026, autoridades americanas indicaram que pretendem restabelecer parte das alíquotas negociadas durante a trégua comercial firmada entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, mantendo a estratégia de utilizar tarifas como instrumento de negociação.
A disputa entre as duas maiores economias do mundo já havia provocado sucessivas elevações tarifárias desde 2025, chegando a percentuais superiores a 100% em determinados momentos.
O conflito também afetou cadeias globais de produção, alterou rotas de exportação de empresas chinesas e ampliou o receio de impactos sobre o crescimento econômico mundial, uma vez que Estados Unidos e China concentram parcela significativa da atividade econômica internacional.
2.União Europeia contestou justificativa americana
A decisão de incluir países da União Europeia na nova rodada de tarifas também provocou reação imediata do bloco europeu. As autoridades americanas alegaram falhas no combate ao trabalho forçado, argumento rejeitado pelos governos europeus.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, classificou a medida como uma “surpresa negativa” e afirmou que o bloco pediria esclarecimentos formais a Washington.
Ela sustentou que a legislação trabalhista europeia oferece garantias que não justificariam as acusações apresentadas pelos Estados Unidos e lembrou que a União Europeia havia cumprido os compromissos previstos no acordo comercial firmado anteriormente com o governo americano.
Apesar das críticas, a maior parte dos países atingidos evitou anunciar medidas imediatas de retaliação e informou que pretende manter abertas as negociações diplomáticas.
3.Investigação contra a Alemanha por causa do preço de medicamentos
Além das tarifas tradicionais sobre produtos importados, o governo Trump também abriu novas frentes de pressão comercial. Uma delas teve como alvo a Alemanha, após Washington anunciar uma investigação para apurar a política alemã de preços de medicamentos inovadores.
A avaliação do governo americano é que os valores praticados no mercado alemão obrigariam os consumidores dos Estados Unidos a arcar com uma parcela desproporcional dos custos globais de pesquisa e desenvolvimento da indústria farmacêutica.
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que, caso a investigação confirme as suspeitas, Washington poderá adotar medidas comerciais adicionais, incluindo tarifas punitivas.
A abertura do procedimento ocorreu depois de meses de negociações sem acordo entre os dois governos e ampliou o alcance da estratégia americana para além do comércio tradicional, envolvendo também políticas públicas adotadas por outros países.
4.França recusou retirar imposto sobre gigantes da tecnologia
Outro episódio ocorreu na relação entre Estados Unidos e França. O presidente Emmanuel Macron decidiu manter o imposto francês de 3% sobre a receita obtida por grandes empresas de tecnologia, mesmo após Donald Trump ameaçar aplicar tarifas de até 100% sobre vinhos franceses caso o tributo fosse revogado.
Macron afirmou que não mudaria a legislação apenas para evitar sanções comerciais e declarou que tarifas entre países do G7 não beneficiam nenhuma das economias envolvidas.
A cobrança francesa, criada em 2019, continua incidindo sobre empresas globais de tecnologia com elevado faturamento, enquanto produtores franceses de vinhos e bebidas alertaram para os riscos que uma nova escalada tarifária poderia provocar sobre um dos principais setores exportadores do país.
5.Espanha voltou a ser ameaçada por causa da Otan
A política comercial também passou a ser utilizada em discussões que extrapolam temas econômicos. Durante uma reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Donald Trump voltou a ameaçar interromper as relações comerciais com a Espanha por considerar insuficiente a participação do país nos gastos militares da aliança.
Trump afirmou que havia orientado integrantes do governo americano a estudar o encerramento das relações comerciais com os espanhóis, classificando Madri como um parceiro insatisfatório dentro da Otan.
Em resposta, o governo espanhol afirmou que mantinha tranquilidade diante das declarações e destacou que as relações econômicas entre os dois países continuam sendo importantes para ambos os lados.
A União Europeia também reiterou que defenderá seus Estados-membros caso novas medidas comerciais sejam adotadas pelos Estados Unidos.
6.Canadá enfrentou novas tarifas e retomou negociações
O Canadá também passou a integrar a lista de países atingidos por medidas unilaterais adotadas pelo governo Donald Trump. A Casa Branca anunciou uma tarifa de 50% sobre uma série de produtos canadenses, justificando a decisão com alegações de tratamento desigual a setores como automóveis, laticínios e bebidas alcoólicas.
Entre os itens afetados estão bens de consumo e produtos industriais, enquanto segmentos como energia, minerais críticos e pescado ficaram fora da nova cobrança.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou que o governo continuará negociando com Washington para tentar reduzir as barreiras comerciais antes da entrada em vigor das tarifas.
As novas medidas se somam a outras já existentes sobre aço, alumínio, cobre, madeira e autopeças, ampliando um impasse que também envolve o futuro do acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México (USMCA).
O governo canadense classificou a decisão como mais um passo de uma série de ações comerciais unilaterais adotadas pelos Estados Unidos nos últimos meses.
7.México evitou escalada
Ao contrário de outros parceiros comerciais, o México adotou uma estratégia de cautela diante da nova rodada de tarifas anunciada pelos Estados Unidos.
O governo mexicano informou que as mudanças promovidas por Washington não alteravam, na prática, a carga tarifária efetiva aplicada aos produtos do país, razão pela qual optou por manter as negociações diplomáticas em vez de anunciar medidas de retaliação.
A postura buscou preservar o relacionamento econômico entre os dois países em um momento de incertezas para o comércio internacional.
Autoridades mexicanas afirmaram que a nova política tarifária não representava uma mudança relevante para as exportações do país, diferentemente do que ocorreu com outros parceiros comerciais atingidos pela decisão americana.
A avaliação foi de que o diálogo com Washington continuaria sendo o principal caminho para administrar eventuais divergências, enquanto o governo dos Estados Unidos mantinha sua estratégia de revisar acordos e utilizar tarifas como instrumento de negociação comercial.

