O acordo de paz anunciado entre Estados Unidos e Irã neste domingo (14) foi recebido pelos mercados internacionais como um dos acontecimentos econômicos mais relevantes do ano.
A expectativa de reabertura do Estreito de Ormuz, rota por onde passa aproximadamente um quinto do petróleo consumido no planeta, provocou queda superior a 4% nos preços do petróleo e impulsionou bolsas de valores em diversos países.
Reportagem do O Brasilianista mostrou que o entendimento prevê o encerramento das hostilidades, a retomada gradual da navegação na região e uma nova rodada de negociações que deverá durar cerca de 60 dias para discutir temas sensíveis, como sanções econômicas, liberação de ativos iranianos congelados e o futuro do programa nuclear de Teerã.
Embora o anúncio tenha reduzido a pressão imediata sobre os mercados, especialistas avaliam que os efeitos econômicos dependerão da implementação efetiva do acordo e da capacidade das potências envolvidas de manter a estabilidade em uma das regiões mais estratégicas para a economia mundial.
Petróleo e combustíveis são os primeiros a reagir
O principal reflexo econômico apareceu imediatamente no mercado de energia. O petróleo Brent, referência internacional, registrou forte recuo diante da expectativa de normalização do fluxo comercial no Golfo Pérsico.
Para Beny Fard, especialista em investimentos e negócios internacionais e CEO da B8 Partners, a reação dos investidores demonstra o peso que o conflito vinha exercendo sobre os preços globais.
“Um acordo desse porte reduziria o prêmio de risco geopolítico, normalizaria parte do comércio de energia no Golfo e melhoraria o apetite por risco global, sobretudo se o Estreito de Ormuz for reaberto de forma efetiva”, destaca.
A queda do petróleo tende a produzir efeitos em cadeia. Combustíveis mais baratos reduzem custos logísticos, aliviam despesas industriais e diminuem pressões inflacionárias em diversos países.
“O impacto mais imediato tende a vir pelo petróleo: o barril do Brent caiu para cerca de US$ 82 por barril, mínima de três meses, após a notícia do acordo; combustíveis e inflação global podem aliviar, mas a recomposição total da oferta pode levar meses”, pondera Fard.
Os efeitos também podem alcançar economias emergentes, que sofreram com o aumento dos custos energéticos desde o início da guerra em fevereiro.
“A China e a Europa ganham com energia mais barata e menor risco logístico, já o Brasil pode se beneficiar via queda da inflação importada e melhora do apetite por risco”, acrescenta o especialista.
Fertilizantes e agronegócio também entram na conta
O impacto econômico do acordo vai muito além dos postos de combustíveis. O mercado acompanha com atenção os reflexos sobre o gás natural e os fertilizantes, considerados insumos fundamentais para a produção agrícola global.
O economista, advogado tributarista e consultor jurídico Caio Bartine explica que as tensões envolvendo Oriente Médio, Rússia e rotas marítimas afetam diretamente os custos do agronegócio.
“No gás natural, o efeito também é importante, especialmente porque ele é insumo energético e matéria-prima relevante para fertilizantes nitrogenados. Se o gás sobe, a produção de ureia e amônia fica mais cara”, esclarece.
O Brasil aparece entre os países mais expostos a esse movimento devido à forte dependência de fertilizantes importados.
“Quando há tensão envolvendo Rússia, Oriente Médio, China, Venezuela ou rotas marítimas, o produtor brasileiro fica exposto a três pressões simultâneas: preço internacional, dólar e logística”, ressalta Bartine.
O especialista observa que o consumidor normalmente não percebe esses impactos de forma imediata, mas os efeitos acabam chegando à economia real.
“Primeiro aumenta o custo do produtor, depois o custo do frete, depois o preço dos alimentos e, em seguida, a inflação percebida pelo consumidor”, contextualiza.
Presença militar continuará influenciando o comércio global
Apesar do acordo, a normalização da região não deve ocorrer imediatamente. A expectativa é que parte da frota naval norte-americana permaneça no entorno do Golfo Pérsico durante o período inicial de implementação do pacto.
A presença militar é vista por especialistas como um mecanismo de garantia para evitar novos bloqueios no Estreito de Ormuz durante as negociações dos próximos dois meses.
Bartine avalia que a manutenção dessas embarcações possui vantagens e riscos para a economia mundial.
“A presença militar reduz a probabilidade de bloqueios, ataques a navios, ações de milícias, pirataria estatal ou interrupções bruscas em rotas de petróleo e gás”, observa.
Ao mesmo tempo, a permanência prolongada das forças navais demonstra que a região ainda não voltou à normalidade.
“Enquanto houver navios de guerra, escoltas, zonas de exclusão, restrições operacionais ou risco de incidente, o mercado marítimo tende a operar com cautela”, alerta.
Se o período de 60 dias for concluído sem novos confrontos, a expectativa é que parte da estrutura militar seja gradualmente reduzida e redirecionada para outras áreas de interesse estratégico dos Estados Unidos, incluindo operações voltadas ao continente americano.
Venezuela amplia preocupação entre investidores
Além do Oriente Médio, o mercado acompanha com atenção o aumento das tensões políticas envolvendo a Venezuela. Declarações recentes do governo venezuelano direcionadas a países da América Latina passaram a ser monitoradas por investidores internacionais.
Para Bartine, a preocupação não está apenas no discurso, mas na possibilidade de deterioração do ambiente institucional da região.
“Em um ambiente geopolítico sensível, o discurso passa a ser interpretado como sinal de risco institucional, risco diplomático e risco de segurança regional”, analisa.
Segundo o especialista, momentos de instabilidade tendem a elevar a cautela dos investidores em relação à América Latina.
“Quando uma liderança regional adota um discurso de confronto, especialmente envolvendo Estados Unidos, países vizinhos e setores estratégicos como petróleo, mineração, energia e fronteiras, o mercado tende a exigir prêmio maior para investir”, afirma.
“Isso pode significar dólar mais pressionado, maior custo de capital, postergação de investimentos e mais cautela em projetos de infraestrutura, energia e mineração”, acrescenta.
Próximos 60 dias serão decisivos
Embora o anúncio tenha reduzido parte das tensões que pressionavam a economia mundial, especialistas avaliam que o acordo ainda representa apenas uma etapa inicial de um processo mais amplo.
Fard observa que o mercado continuará monitorando possíveis obstáculos à implementação do entendimento.
“Os maiores riscos são descumprimento do cessar-fogo, divergências sobre enriquecimento de urânio, oposição interna iraniana, ação militar de Israel ou Hezbollah e demora na reabertura plena de Ormuz”, destaca.
A definição sobre o programa nuclear iraniano, a retirada gradual das sanções econômicas e a normalização definitiva da navegação comercial continuam entre os principais desafios das negociações.
“Se fracassar, o mundo pode voltar a ver petróleo mais caro, inflação pressionada, dólar forte e maior aversão a risco”, projeta o especialista.

