Divulgado no último domingo (14), o acordo de cessar fogo entre Estados Unidos e Irã será assinado nesta sexta-feira (19), na Suíça. Conforme as informações divulgadas do tratado, a proposta sugere diálogos abertos para negociações pelos próximos 60 dias, o encerramento da hostilidade e a abertura do Estreito de Ormuz.
O mercado financeiro reverberou a notícia com o anúncio da queda dos preços de petróleo, superior à 4%. Segundo apuração de O Brasilianista, a redução no preço do combustível deve proporcionar um movimento em cadeia, reduzindo custos logísticos e aliviando despesas industriais.
Desta maneira, os olhos do mundo estão sobre as tensões entre os países, para entender se o tratado será cumprido. Segundo o coordenador da pós graduação de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) e membro do Observatório da Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB), Giorgio Romano Schutte, as negociações devem se sustentar.
“O cessar fogo é imprevisível, mas os dois países não possuem interesse nenhum em retornar ao conflito armado”, comenta.
De acordo com o especialista, para os EUA, não há vantagens em retomar a situação anterior estando as eleições de meio termo (midterms) tão próximas, que ocorrem em novembro. Para Romano, a imagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é extremamente impopular, tanto entre o povo americano quanto às elites econômicas. Sendo assim, a recuperação econômica com o fim da guerra antes das eleições seriam extremamente favoráveis.
Para o Irã, o especialista destaca a resiliência e sobrevivência do país no conflito, no entanto, afirma que liderança do país entende que não há possibilidade de retomar os ataques, dado a situação econômica do país.
“A população está sofrendo muito economicamente, embora tenha-se criado um clima no país de apoiar a bandeira da resistência”, afirma “Apesar de não haver sinalização imediata de ruptura política interna, o custo econômico é gigantesco ao Irã”.
Terminar a guerra de cabeça erguida
Conforme o coordenador, os dois países querem finalizar a guerra de cabeça erguida, e mostrando que saiu vitorioso do conflito. No entanto, para ele, a situação é mais fácil para o Irã, visto que nem EUA nem Israel conseguiram o que queriam com o estado. Além disso, o coordenador destaca a capacidade iraniana de controlar o Estreito de Ormuz.
“O Irã deu uma enorme demonstração, acho que nem eles devem ter imaginado o que eles tinham desenvolvido ao longo dos anos essa capacidade de controlar o trânsito no Estreito de Ormuz, sem nenhuma possibilidade dos países do Golfo, dos Estados Unidos, do Ocidente no geral, de reagir”, explicita.
De acordo com apuração de O Brasilianista, o acordo pode demonstrar o fortalecimento iraniano como potência regional. Isso, pois, o tratado preservaria os interesses da nação e, ainda, mantém sua influência regional.
Pontos desestabilizadores
Para o especialista, há duas grandes questões no acordo que serão mais delicadas, e mais difíceis, porém não impossíveis, de serem solucionadas: a questão de Israel e do urânio enriquecido do Irã. Segundo o professor, a pacificação do conflito no Líbano é um dos fatores importantes para o cessar fogo, mas Israel e, em particular, Netanyahu, é um fator desestabilizador.
Conforme explica o coordenador, Israel não está contente com o acordo, no entanto, o país não possui relevância ou força no cenário internacional sem o apoio dos EUA. Deste modo, os seus interesses dependem do governo americano para terem força.
“Para os Estados Unidos interessa Israel lá para proteger os interesses do Ocidente e interessa o lobby sionista nos Estados Unidos, também para as eleições. Então, esse é um fator realmente imprevisível”, aborda.
A segunda questão levantada pelo professor é a porcentagem do urânio enriquecido presente no Irã. Para fins pacíficos, energéticos ou medicinais, o país pode possuir urânio enriquecido em até 5%. No caso do Irã, há 20% do material enriquecido. No entanto, segundo o especialista, para a produção de bombas atômicas ou utilização como armas, é necessário ter 90% de enriquecimento do metal.
“Os Estados Unidos exigem, vão exigir, isso já estava na mesa em todas as negociações, que essa quantidade de urânio enriquecido a 20%, seja removida do Irã”, afirma. “O Irã, em determinado momento, que saiu nas notícias, tinha acordado de entregar esse urânio enriquecido para a Rússia. E os Estados Unidos querem que seja em campo para eles”.

