A nona fase da Operação Compliance Zero colocou o senador Jaques Wagner (PT-BA) e integrantes de seu círculo familiar e político no centro de uma nova ofensiva da Polícia Federal.
Deflagrada nesta quinta-feira (18), a ação cumpre mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e tem como foco a apuração de contratos que somam ao menos R$ 11 milhões destinados à BN Financeira, empresa ligada à família do parlamentar.
As suspeitas envolvem corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
Quem está na mira da investigação
A operação não se restringe ao senador. A Polícia Federal identificou um conjunto de pessoas físicas e jurídicas que, segundo os investigadores, teriam participado de movimentações financeiras e operações consideradas relevantes para a apuração.
Entre os alvos está Augusto Ferreira Lima, ex-executivo ligado ao Banco Master e apontado como um dos principais interlocutores do grupo investigado. Ele aparece na investigação como elo entre estruturas empresariais e pessoas próximas ao senador.
Também tiveram buscas autorizadas Eduardo Sodré Martins, enteado de Jaques Wagner e atual secretário estadual, e Guilherme Henrique Sodré Martins, apontado pela investigação como articulador político junto ao gabinete do senador.
Segundo a decisão judicial, mensagens interceptadas indicariam cobranças relacionadas a pagamentos e documentos financeiros vinculados à BN Financeira.
Outro grupo de investigados é formado por operadores e executivos ligados a empresas mencionadas na investigação. Entre eles estão Valério Marega Júnior, David Lopes Monteiro, Luiz Antonio Lombardi e Andréa Lima Novaes.
A PF apura a participação de cada um deles em movimentações patrimoniais, transferências financeiras e estruturas empresariais relacionadas ao caso.
Como a PF chegou ao núcleo familiar
O Brasilianista detalhou que a Polícia Federal identificou mecanismos de circulação de recursos que teriam sido utilizados para ocultar repasses destinados ao entorno do senador.
Segundo a publicação, um dos principais focos da investigação envolve a BN Financeira Ltda. Mensagens e áudios obtidos pelos investigadores apontariam cobranças feitas por Eduardo Sodré Martins a Augusto Lima relacionadas a repasses financeiros pendentes e dificuldades de caixa enfrentadas pela empresa.
As apurações também identificaram uma transferência de R$ 3,5 milhões realizada pela empresa PKL One Participações S.A. para a BN Financeira.
De acordo com a investigação, a companhia está vinculada ao núcleo empresarial de Augusto Lima e teria desempenhado papel relevante na movimentação dos recursos analisados pela Polícia Federal.
Ainda conforme os documentos citados na investigação, planilhas apreendidas durante as diligências registrariam outros pagamentos superiores a R$ 2,3 milhões destinados ao mesmo grupo empresarial ligado ao entorno familiar do parlamentar.
Suspeitas envolvendo atuação política
Outro eixo investigado diz respeito à suposta atuação de Jaques Wagner em temas legislativos de interesse do Banco Master.
A Polícia Federal analisa a participação do senador em discussões relacionadas à ampliação da margem do crédito consignado para trabalhadores, aposentados e pensionistas. A medida resultou posteriormente na Lei nº 14.431/2022.
Os investigadores trabalham com a hipótese de que mudanças nas regras do crédito consignado teriam beneficiado modelos de negócio ligados ao Banco Master.
A suspeita é de que essa ampliação tenha contribuído para operações financeiras consideradas estratégicas para a instituição.
A mesma linha de investigação alcança o programa CredCesta, serviço de crédito consignado oferecido a servidores públicos da Bahia.
A PF apura se a relação entre o banco e estruturas políticas estaduais favoreceu a expansão das operações comerciais vinculadas ao produto.
Operação já se tornou uma das maiores do setor financeiro
A atual fase é mais um desdobramento da Operação Compliance Zero, investigação iniciada após alertas relacionados às atividades do Banco Master.
O Brasilianista mostrou, a operação começou em 2025 após questionamentos surgidos durante negociações envolvendo o Banco de Brasília (BRB).
Desde então, a investigação passou por diversas etapas, ampliando o escopo das apurações para crimes como gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, corrupção, manipulação de mercado e obstrução de investigações.
A primeira fase teve como foco uma suposta fraude estimada em R$ 12 bilhões envolvendo títulos de crédito. Nas etapas seguintes, a Polícia Federal avançou sobre suspeitas de movimentações financeiras irregulares, ocultação patrimonial, vazamento de informações sigilosas e possíveis pagamentos indevidos a agentes públicos.
Ao longo das fases da operação, foram executados mandados de busca, prisões preventivas, bloqueios bilionários de bens e medidas cautelares em diferentes estados do país.
A nona etapa amplia o alcance das investigações ao aprofundar a análise de relações empresariais e financeiras ligadas ao entorno de Jaques Wagner e de Augusto Ferreira Lima.
O Brasilianista entrou em contato com a defesa dos citados na reportagem, mas não recebeu manifestações até o momento. O espaço segue aberto.

