Os novos ataques russos contra Kiev e outras regiões da Ucrânia reacenderam um debate que acompanha conflitos armados há séculos, destruir monumentos históricos, igrejas e patrimônios culturais pode trazer vantagens militares reais ou o impacto é apenas simbólico?
A discussão voltou à tona após um mosteiro milenar, considerado um dos principais símbolos da herança espiritual e cultural ucraniana, sofrer graves danos durante bombardeios russos nesta semana.
Os ataques ocorreram enquanto o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, mantinha conversas com líderes do G7 e com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Além das vítimas registradas nos bombardeios, os danos ao patrimônio histórico ampliaram as preocupações sobre os efeitos culturais da guerra, que já ultrapassa quatro anos.
Para Wilher de Freitas Guimarães, professor de História do Colégio Arnaldo, os ataques a monumentos históricos podem ter objetivos que vão além do campo militar e atingem diretamente a identidade das populações envolvidas no conflito.
Patrimônio pode se tornar alvo estratégico
Em determinadas circunstâncias, monumentos históricos podem assumir importância estratégica dentro de uma guerra. Segundo o professor, a destruição desses locais pode ser considerada militarmente relevante quando há operações inimigas instaladas na área.
A legislação internacional prevê algumas exceções para situações em que patrimônios culturais estejam sendo utilizados para fins militares. Ainda assim, a perda desses espaços produz consequências que ultrapassam o campo de batalha.
Ao analisar esse tipo de ataque, Guimarães observa que a destruição de locais históricos afeta elementos centrais da memória coletiva.
“Temos que levar em conta os possíveis efeitos políticos, psicológicos e simbólicos que os ataques militares dessa natureza podem trazer à identidade da Nação atingida”, contextualiza.
O professor explica que monumentos, igrejas, museus e arquivos representam referências que ajudam a construir a percepção histórica de um povo. Quando esses símbolos são destruídos, parte dessa conexão é atingida.
“Afinal, é como você destruir aquilo que eu preservo da minha memória e da minha identidade e, em cima disso, construir uma narrativa que não é mais minha”, analisa.
Efeito psicológico nem sempre favorece o agressor
Embora ataques contra patrimônios históricos possam ser interpretados como demonstrações de força, os resultados políticos nem sempre seguem o planejamento do agressor.
Segundo Guimarães, existe a possibilidade de ocorrer um efeito contrário ao esperado. Em vez de enfraquecer a população atingida, a destruição pode aumentar o sentimento de pertencimento e estimular a resistência.
Ao longo da história, diferentes conflitos registraram situações em que a perda de símbolos nacionais serviu para mobilizar a sociedade em torno de um objetivo comum.
“Dependendo do contexto e de situações específicas de guerra, ataques dessa natureza podem surtir um efeito bumerangue”, pondera.
Para o historiador, quando a população percebe que elementos centrais de sua cultura estão ameaçados, a defesa do território pode ganhar um significado ainda mais profundo.
“A defesa contra o inimigo pode transformar-se em um chamado à união e à ação coletiva”, ressalta.
Bósnia e Ucrânia compartilham marcas semelhantes
A destruição de patrimônio histórico não é novidade nos conflitos europeus. A Guerra da Bósnia, travada entre 1992 e 1995, tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de ataques contra símbolos culturais e religiosos.
Registros históricos mostram que o conflito deixou mais de 100 mil mortos e ficou marcado por campanhas de limpeza étnica, além da destruição de mesquitas, bibliotecas e arquivos históricos.
O professor destaca que os efeitos observados na antiga Iugoslávia apresentam semelhanças com os que atualmente atingem a Ucrânia.
“No caso da Bósnia, mesquitas, bibliotecas e arquivos históricos foram destruídos durante o conflito. Do mesmo modo, na guerra Rússia-Ucrânia, catedrais históricas, museus, arquivos, centros culturais e memoriais foram alvo de ataques”, detalha.
Apesar das semelhanças, Guimarães observa diferenças importantes entre os dois cenários. Enquanto a Guerra da Bósnia esteve ligada a disputas étnicas internas após a fragmentação da Iugoslávia, o conflito entre Rússia e Ucrânia possui dimensão geopolítica mais ampla.
O historiador destaca, porém, que a reconstrução dos patrimônios destruídos na Bósnia acabou fortalecendo símbolos nacionais que permanecem relevantes décadas após o fim da guerra.
Impacto econômico vai além da reconstrução
Os prejuízos provocados pela destruição de patrimônios históricos também alcançam a economia dos países atingidos.
Além dos custos diretos para reconstrução de edifícios, monumentos e centros culturais, diversos setores dependentes dessas estruturas sofrem impactos imediatos.
Segundo Guimarães, o turismo costuma ser um dos primeiros segmentos afetados quando locais históricos são destruídos ou se tornam inacessíveis por causa dos combates.
“Um dos setores que é diretamente atingido é o turismo. E, consequentemente, toda a cadeia produtiva que envolve hospedagens, empregos e renda”, explica.
A situação se torna ainda mais complexa porque, durante períodos de guerra, os governos costumam direcionar recursos para despesas militares e emergenciais.
Após o encerramento dos conflitos, o desafio passa a ser reconstruir cidades inteiras e recuperar atividades econômicas interrompidas pelos confrontos.
“Muitos monumentos que foram destruídos deixam de atrair turistas e o país atingido tem que fazer empréstimos internacionais”, observa.
Igrejas e mosteiros possuem peso simbólico especial
Entre os patrimônios mais sensíveis em conflitos armados estão os edifícios religiosos. Na Ucrânia, diversas igrejas ortodoxas, mosteiros e locais considerados sagrados já foram atingidos desde o início da guerra.
Para Guimarães, esses espaços carregam significados que vão além da arquitetura ou da relevância histórica.
“Para a população atingida pela guerra, as igrejas e os mosteiros não são apenas monumentos culturais, mas marcos de identidade nacional e também parte da identidade religiosa coletiva”, explica.
O professor destaca que pesquisas realizadas por instituições ucranianas apontam que ataques contra locais religiosos contribuíram para ampliar o apoio popular à resistência em algumas regiões do país.
“A indignação emocional é forte quando igrejas são atingidas”, afirma.
No caso da guerra entre Rússia e Ucrânia, a dimensão simbólica dos ataques ganha contornos particulares porque os dois países compartilham raízes históricas e religiosas ligadas ao cristianismo ortodoxo.
De Alexandre, o Grande, a guerras modernas
A destruição de patrimônios históricos nem sempre foi uma estratégia adotada por grandes conquistadores da história. Um dos exemplos mais citados pelos historiadores é o de Alexandre, o Grande, rei da Macedônia, que construiu um império que se estendia da Grécia ao Egito, à Pérsia e a partes da Índia no século IV a.C.
Embora tenha conduzido campanhas militares em diferentes continentes, Alexandre costumava incorporar elementos culturais dos povos conquistados à sua administração.
Em diversas cidades, manteve estruturas locais em funcionamento e buscou integrar populações distintas ao seu império.
Relatos históricos indicam que o líder macedônio tinha planos de expandir suas conquistas em direção ao Ocidente e possivelmente alcançar a Península Itálica, onde Roma ainda era uma república em ascensão.
A morte aos 33 anos, em 323 a.C., interrompeu esses projetos e encerrou uma das maiores campanhas militares da Antiguidade.
Para Wilher de Freitas Guimarães, a preservação de símbolos culturais pode ter papel estratégico tão importante quanto sua destruição.
“Patrimônio Histórico está ligado à identidade de um povo, à sua história e à sua memória nacional”, observa o professor.
Segundo ele, controlar territórios sem eliminar completamente suas referências culturais foi uma característica presente em diferentes impérios da Antiguidade.
A destruição de Adolf Hitler
Se Alexandre ficou conhecido por incorporar culturas conquistadas, o regime nazista utilizou caminho oposto durante a Segunda Guerra Mundial.
Sob o comando de Adolf Hitler, a perseguição a obras de arte, monumentos e patrimônios culturais tornou-se parte da política de expansão do Terceiro Reich.
O processo começou ainda na década de 1930, com a queima de livros considerados incompatíveis com a ideologia nazista. Posteriormente, obras classificadas como “arte degenerada” passaram a ser retiradas de museus, exibidas de forma depreciativa e, em muitos casos, destruídas.
Durante a ocupação de países europeus, integrantes do alto escalão nazista também promoveram a pilhagem sistemática de coleções históricas.
Museus, galerias e coleções particulares tiveram milhares de peças confiscadas, muitas delas nunca recuperadas após o fim da guerra.

