Como O Brasilianista mostrou, o anúncio da renúncia de Keir Starmer abriu caminho para a escolha de um novo líder do Partido Trabalhista e, consequentemente, de um novo primeiro-ministro no Reino Unido.
Starmer permanecerá no cargo até que a legenda conclua o processo interno de sucessão, previsto para ser encerrado até setembro. A saída do premiê ocorre após pressões dentro do próprio partido e pode levar o país ao sétimo primeiro-ministro em uma década.
A troca de comando levanta uma dúvida comum para quem acompanha a política britânica de fora, afinal, o que faz um primeiro-ministro e por que ele pode ser substituído sem que haja uma nova eleição nacional?
Diferença entre rei e primeiro-ministro
O Reino Unido adota o sistema de monarquia parlamentarista. Nesse modelo, existe uma separação entre a chefia de Estado e a chefia de Governo.
O rei Charles III ocupa a posição de chefe de Estado e exerce funções principalmente simbólicas e institucionais.
Entre suas atribuições estão sancionar formalmente leis aprovadas pelo Parlamento, abrir e encerrar sessões legislativas e representar a identidade nacional britânica.
O monarca não conduz a administração cotidiana do país nem exerce controle direto sobre as decisões políticas do governo. O poder executivo é exercido pelo primeiro-ministro e por sua equipe ministerial.
O próprio governo britânico define o primeiro-ministro como a principal autoridade política do país. Cabe ao ocupante do cargo liderar o Executivo, coordenar o funcionamento da administração pública, indicar ministros, supervisionar as políticas governamentais e responder politicamente pelas decisões adotadas pelo gabinete.
Como um primeiro-ministro chega ao cargo
Diferentemente do que ocorre no Brasil, os britânicos não votam diretamente para escolher quem será o primeiro-ministro.
O Reino Unido é dividido em 650 distritos eleitorais. Em cada um deles, os eleitores escolhem um representante para a Câmara dos Comuns, equivalente à Câmara dos Deputados brasileira.
Após a eleição, o partido que conquistar a maioria dos assentos no Parlamento ganha o direito de formar o governo. O líder dessa legenda recebe autorização formal do rei para assumir como primeiro-ministro.
O eleitor vota em um deputado do seu distrito e o resultado nacional define qual partido terá condições de governar.
Esse sistema também permite mudanças de liderança sem a necessidade de uma nova eleição geral. Caso o partido governista substitua seu líder por renúncia, morte ou disputa interna, o sucessor pode assumir diretamente o comando do governo desde que mantenha o apoio da maioria parlamentar.
Por que não haverá eleição imediata
A saída de Starmer não dissolve automaticamente o Parlamento nem obriga a convocação de uma nova votação nacional.
O próprio premiê pediu ao Comitê Executivo Nacional do Partido Trabalhista que organize o cronograma para a escolha do sucessor.
As indicações de candidatos devem ocorrer entre 9 e 16 de julho, com a conclusão do processo prevista para antes do retorno do Parlamento após o recesso de verão.
Andy Burnham, ex-prefeito de Manchester e recém-eleito deputado por Makerfield, aparece como o principal nome para assumir a liderança do partido. Pouco após a renúncia, ele confirmou que participará da disputa interna.
Existe inclusive a possibilidade de Burnham assumir o cargo ainda em julho caso não enfrente adversários na corrida interna trabalhista.
Instabilidade política após o Brexit
A troca frequente de primeiros-ministros se tornou uma característica da política britânica nos últimos anos.
O Brexit, aprovado em referendo realizado em 2016, retirou o Reino Unido da União Europeia e inaugurou um período de forte instabilidade política. Desde então, o país passou por sucessivas mudanças de liderança em Downing Street.
Starmer deixará o cargo após pouco mais de dois anos no poder. Antes dele, Liz Truss permaneceu apenas 50 dias no cargo, enquanto Rishi Sunak governou por menos de dois anos.
Parte do desgaste enfrentado por Starmer esteve relacionada às dificuldades para impulsionar o crescimento econômico, reduzir o custo de vida e responder às pressões em torno da imigração, tema que ganhou espaço no debate político britânico nos últimos anos.

