Com 99,85% das urnas apuradas, Keiko Fujimori abriu uma vantagem matematicamente irreversível de 43.386 votos sobre Roberto Sánchez e deve ser confirmada como nova presidente do Peru.
O resultado encerra uma disputa marcada pela polarização política e recoloca o país no grupo de governos alinhados à direita na América do Sul, alterando a distribuição ideológica do continente em um momento de mudanças políticas em diferentes países da região.
Como a América do Sul está dividida atualmente
Como explicou O Brasilianista, a eleição peruana ganhou relevância regional porque ocorre em um continente dividido entre projetos políticos distintos.
Enquanto parte dos países passou a ser governada por lideranças conservadoras ou liberais, governos ligados à esquerda e à centro-esquerda permanecem em nações estratégicas, criando um equilíbrio político sem predominância absoluta de um único campo ideológico.
O Peru chegou à disputa presidencial após anos de instabilidade institucional. Nos últimos anos, o país acumulou sucessivas trocas de presidentes, crises entre Congresso e Executivo e episódios que culminaram na destituição de diferentes mandatários.
A eleição entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez passou a ser observada por governos vizinhos porque definiria se o país seguiria uma agenda mais conservadora ou retornaria ao grupo de governos progressistas.
A vitória de Fujimori ocorre após uma das eleições mais apertadas da história recente peruana.
Com 9,2 milhões de votos, a candidata do Fuerza Popular ultrapassou Sánchez por uma margem superior ao total de votos ainda pendentes de contabilização.
O candidato de esquerda questiona o resultado, fala em fraude e promete pedir recontagem, mas a imprensa peruana já trata a eleição como definida.
Avanço conservador ganhou força nos últimos anos
A direita e a centro-direita ampliaram espaço em parte relevante da América do Sul nos últimos anos. O caso mais conhecido é o da Argentina, onde Javier Milei se consolidou como uma das principais lideranças conservadoras do continente com um programa baseado em redução do Estado, cortes de gastos públicos e reformas econômicas liberais.
Mudanças também ocorreram em outros países da região. A Bolívia passou a ser governada por Rodrigo Paz após o encerramento de um longo ciclo ligado ao Movimento ao Socialismo (MAS).
No Chile, José Antonio Kast assumiu protagonismo político após o período liderado por Gabriel Boric. Já o Equador segue sob a liderança de Daniel Noboa, que mantém uma agenda voltada para segurança pública e combate ao narcotráfico.
A Colômbia também passou por uma mudança política relevante em 2026. O advogado e empresário Abelardo de la Espriella venceu a eleição presidencial e encerrou o ciclo iniciado por Gustavo Petro, primeiro presidente de esquerda da história recente do país.
Com a mudança de governo, a Colômbia deixa o grupo de países comandados pela esquerda e passa a integrar o bloco de governos alinhados à direita na América do Sul.
Durante a campanha, De la Espriella defendeu uma agenda de endurecimento na segurança pública, aproximação com os Estados Unidos e redução do tamanho do Estado.
O novo presidente também prometeu ampliar o combate a grupos armados e ao narcotráfico, tema que ocupou posição central no debate eleitoral colombiano.
Bloco progressista perde espaço, mas segue relevante
O crescimento da direita não eliminou a presença de governos de esquerda e centro-esquerda na América do Sul.
O Brasil continua sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que permanece como uma das principais referências políticas do campo progressista na região e mantém protagonismo em articulações diplomáticas continentais.
O Uruguai, por sua vez, segue governado por Yamandú Orsi, representante da Frente Ampla e sucessor de uma tradição política que combina programas sociais e políticas de bem-estar.
A mesma configuração também aparece em países menores. Guiana e Suriname permanecem governados por lideranças associadas ao campo progressista, enquanto a Venezuela continua vinculada ao chavismo em meio a críticas internacionais e disputas sobre a legitimidade de seu sistema político.
O peso estratégico do Peru na região
A eleição peruana não mobilizou atenção apenas por questões ideológicas. O país ocupa posição estratégica no Oceano Pacífico e mantém relações econômicas relevantes com Brasil, Estados Unidos e China, fatores que ampliam o impacto regional de qualquer mudança de governo em Lima.
O Peru também chega a essa transição após um dos períodos mais turbulentos de sua história política recente. O país teve oito presidentes em apenas oito anos.
Nesse período ocorreram destituições, denúncias de corrupção, renúncias e disputas institucionais que provocaram sucessivas trocas no comando do Executivo.
A própria sucessão presidencial reflete essa instabilidade. Antes da eleição atual, José María Balcázar Zelada ocupava interinamente a presidência após a saída de José Jeri, que havia substituído Dina Boluarte.
Boluarte, por sua vez, assumiu após a queda de Pedro Castillo, preso depois de tentar dissolver o Congresso e instaurar um estado de exceção.
Sem hegemonia política no continente
A configuração atual lembra o cenário observado em outras regiões do mundo, onde diferentes correntes ideológicas dividem espaço sem que uma delas consiga estabelecer domínio absoluto.
O Brasilianista observou que, diferentemente de períodos anteriores da história sul-americana, o continente hoje apresenta distribuição mais equilibrada entre governos conservadores e progressistas.

A vitória de Keiko Fujimori fortalece numericamente o bloco conservador, mas não elimina a presença de governos de esquerda e centro-esquerda na região.
Brasil, Uruguai, Guiana, Suriname e Venezuela continuam integrando esse campo político, mantendo a divisão ideológica do continente.
Apesar de ser frequentemente identificado como uma das principais lideranças da esquerda sul-americana, o presidente Lula tem rejeitado essa classificação em diferentes momentos de sua trajetória política.
Em junho de 2026, durante conversa no âmbito da reunião do G7, Lula voltou a afirmar que nunca foi de esquerda e defendeu posições mais próximas de um centro político.
A declaração repetiu um discurso adotado desde os anos 1970, quando o então líder sindical procurava se distanciar de rótulos ligados ao comunismo.
Ao longo da carreira, Lula também buscou ampliar alianças para além do eleitorado tradicional do PT, movimento que incluiu iniciativas como a Carta ao Povo Brasileiro, em 2002, e a formação de uma frente ampla na eleição de 2022.
Ainda assim, tanto aliados quanto adversários continuam situando seu governo no campo da centro-esquerda dentro do cenário político regional.

