A segunda deflagração da Operação Disclosure se deu nesta quinta-feira (25), com foco em aprofundar a investigação sobre as supostas fraudes contábeis da Americanas. Nove mandados de busca e apreensão foram emitidos, incluindo Beto Sicupira e Paulo Alberto Lemann, ligados ao grupo controlador da companhia.
A empresa, que estava em recuperação judicial até o início de 2026, foi alvo de diversas ações de seus credores, em tentativas de conectar a 3G Capital (fundada por Beto Sicupira, Jorge Lemann e Marcel Telles) à derrocada da Americanas. Em reportagem do Estadão, os argumentos utilizados pelos investidores lesados são variados, porém, em sua maioria, afirmam a vantagem dos grandes investidores em detrimento aos menores no processo, incluindo de fornecedores.
A intenção de buscar a responsabilização dos acionistas de referência, ou seja, que possuem participação societária significativa, mas sem controle majoritário, impacta nos termos aceitos no plano de recuperação judicial da companhia. Isso, pois, caso haja provas de que o controlador, seja por fraude ou má gestão, deu causa à insolvência, a dívida deveria ser paga de forma integral. A outra opção seria por parcelamento com as taxas de juros do mercado.
No entanto, o plano de recuperação judicial da Americanas previu descontos nos valores a serem recebidos. Desta maneira, os credores que escolhessem recebimento em parcela única até 2043, teriam de 70% a 80% de abatimento da quantia. Isso ocorre, pois, quando a fraude é cometida por executivos, o controlador também seria uma vítima e prejudicado na operação.
Com esse cenário, os controladores do grupo, neste caso os fundadores da 3G Capital, se beneficiaram com a fraude do balanço, evitando o pagamento da maior parte dos credores.
Patrimônio das famílias alvo da operação
Tanto a família Lemann quanto a Sicupira estão no ranking da Forbes de 2026 entre as 10 famílias mais ricas do país. Jorge Paulo Lemann possui patrimônio estimado em US$ 19,8 bilhões, aparecendo na terceira colocação. Seu filho, Paulo Alberto Lemann, investigado na Operação Disclosure, fundou duas gestoras de investimento. A primeira, em Pollux Capital, em 2005 e a segunda, Vectics Partners, em 2017.
A família Sicupira ocupa a oitava colocação, com fortuna avaliada em US$ 6,9 bilhões. A maior parte do seu patrimônio advém das ações da AB InBev, uma das controladoras da Ambev, detendo 3%.
Ações da Americanas caem após deflagração
A operação impactou diretamente as ações da Americanas na bolsa de valores, que recuaram nesta quinta-feira (25). Em meio à repercussão da deflagração, os papéis da companhia caíram 5,37%, cotados a R$ 4,05. Na contramão, o Ibovespa registrou alta de 0,87% e dados de prévia de baixa da inflação.
A Operação Disclosure investiga fraudes contábeis de aproximadamente R$ 54 bilhões, atingindo executivos do Itaú, Bradesco e Santander. Além da busca e apreensão, a justiça determinou o sequestro de bens e valores dos alvos no limite do valor da fraude, segundo apurou O Brasilianista.
Americanas comenta que “é a maior interessada no esclarecimento dos fatos”, e Lemann, Telles e Sicupira se dizem supresos com ação da PF
Em nota ao Estadão, a LTS, family office de Lemann, Telles e Sicupira, afirma que aação da PF os surpreendeu, mas que reitera seu compromisso de colaborar plenamente com as autoridades.
Leia, na íntegra, o posicionamento da LTS:
“Os acionistas de referência da Americanas foram surpreendidos pela operação deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta quinta-feira, 25 (Disclousure). As investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal ao longo dos últimos anos, inclusive com base em acordos de colaboração premiada, indicam que o Conselho de Administração e os acionistas de referência foram continuamente enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria da Companhia. Os acionistas de referência entendem que a operação integra o curso regular das apurações em andamento e reiteram seu compromisso de colaborar plenamente com as autoridades competentes para o esclarecimento dos fatos, como vêm fazendo desde 11 de janeiro de 2023, quando tiveram conhecimento das fraudes contábeis. Até o momento, as defesas não tiveram acesso à íntegra da decisão judicial que fundamentou a medida, razão pela qual aguardam mais informações para eventual manifestação complementar.”
A Americanas afirmou que não foi alvo da operação, e que é a “maior interessada no esclarecimento dos fatos”.
Leia, na íntegra, o posicionamento da Americanas:
“A Americanas informa que não foi alvo de mandados de busca nesta manhã e que a Operação Disclosure realizada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal se refere à fraude revelada em 2023. A Companhia seguirá colaborando com as investigações e é a maior interessada no esclarecimento dos fatos.”

