Publicidade
Entrevistas

El Niño afetará inflação e PIB se impactar o Brasil

Para o doutor em economia Roberto Luis Troster, o evento pode ser sentido com mais força na região Matopiba

El Niño afetará inflação e PIB se impactar o Brasil

O El Niño, fênomeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, provoca reações climáticas adversas em toda a América Latina e, consequentemente, na economia brasileira.

Publicidade

Segundo apurou O Brasilianista, a probabilidade de o evento se estabelecer no Brasil entre junho e julho é de 62%, aumentando para 80% em agosto. Para compreender melhor os riscos que este evento trás para o cenário econômico brasileiro, O Brasilianista conversou com o professor Roberto Luis Troster, doutor em economia pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

Como a transformação climática ocorrida com o El Niño pode impactar a economia brasileira?

Roberto Luis Troster – Bom, o El Niño pode impactar. Quer dizer, não é ainda onde o impacto normalmente é localizado. Há alguns anos já teve um impacto grande no clima, afetou a Argentina e não afetou o Brasil.

Então, você pode ter eventos extremos, mas, de maneira geral, o que é previsível, se acontecer, é primeiro impactar a inflação. Você tem uma quebra de safra por conta do clima, e isso acaba pressionando a inflação, e acaba, indiretamente, pressionando a taxa de juros.

Segundo, afeta o PIB. Você produz menos, você exporta menos, você cresce menos. E, terceiro, na matriz energética. Parte da produção aqui no Brasil é usada para produzir energia. Você produz menos, consegue gerar menos e isso acaba impactando o preço da energia. Mais uma vez ressaltando, pode ser. Pode ser que afete outros países e não afete o Brasil.

Quais são os maiores impactos sentidos com o fenômeno climático na produção nacional?

Roberto Luis Troster – O Matopiba, que são os quatro estados, Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, possivelmente sentirá mais o impacto, caso o efeito seja grande. É a região que mais está crescendo no Brasil, então o efeito pode ser forte.

No sul, você tem risco de inundações. Você teve faz dois anos, você pode ter de novo. Os gaúchos já estão se preparando para isso. Também tem um outro impacto, se houver muitas inundações no sul, podem haver impactos na infraestrutura, como o aeroporto de Porto Alegre, que ficou parado por quase um ano. Então você pode ter esse tipo de impacto.

Como os produtores e outros setores econômicos estão se protegendo para evitar maiores danos causados pelo El Niño?

Roberto Luis Troster – O racional seria uma proteção financeira. Não sei a que custo está o seguro, mas isso seria o razoável de se preparar.

Em segundo, é preparar o campo para ter um evento extremo. Dependendo da cultura, você precisa ter alguns cuidados especiais. Hoje você tem tecnologia de precisão, então talvez dê para prever melhor o que vai acontecer. Mas também você pode se proteger de preços de produtos nos mercados futuros, tanto de energia como da safra.

Como você avalia a atuação governamental para conter os danos causados pelo fenômeno climático?

Roberto Luis Troster – O governo, geralmente, quase sempre, para não falar sempre, possui muito mais uma ação mais reativa do que proativa. Pelo menos está no radar esse ano, o assunto está sendo debatido. Se vai acontecer alguma coisa, se o governo vai, de fato, fazer alguma coisa, a gente tem que esperar e ver.

E como seria a resposta ideal?

Roberto Luis Troster – Uma coisa básica na condução da economia nacional é resiliência, é poder absorver choques. Para absorver o choque climático (não só o El Niño), há uma série de coisas que você pode fazer, para melhorar a questão do clima no Brasil.

Desde políticas locais, cada um cuidar um pouquinho mais, economizar água, economizar luz, até no caso de política pública. Hoje a dívida pública está muito alta, então você tem pouca margem para gastos. Isso também é uma outra preocupação que você deveria ter.

E começar a pensar que o Brasil não pode ficar dependendo de El Niño ou do que acontece no Estreito de Ormuz para crescer. O que o Brasil não tem de melhor do que a Índia, que está crescendo quase quatro vezes mais, ou três vezes mais do que o Brasil, ou a China, que está crescendo mais do que o dobro do Brasil?

Nós precisamos focar em resiliência um pouco mais, tanto para o El Niño, como para outros possíveis choques de oferta que a gente possa vir a ter.

Mantenha-se informado pelas redes sociais de O Brasilianista