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Entrevistas

Brasil precisa estreitar relações bilaterais com Taiwan antes de receber investimentos

Benito Liao, embaixador taiwanês em solo brasileiro, afirma que aliança comercial entre países depende de uma postura mais aberta e alinhada a valores compartilhados pelas duas nações

Brasil precisa estreitar relações bilaterais com Taiwan antes de receber investimentos

O desenvolvimento da inteligência artificial e a consolidação de novas cadeias globais de suprimento para essas tecnologias permitem que Brasil e Taiwan possam convergir, pois as nações têm virtudes complementares. A ilha asiática tem a tecnologia e o conhecimento necessário sobre chips e semicondutores, enquanto a nação da América do Sul tem energia e solo abundantes para a implantação de data centers.

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Porém, a melhoria da relação comercial estratégica entre os dois países exige maior aproximação institucional, facilitando a ida de brasileiros para Taiwan e vice-versa. Mas, no curto prazo, esse cenário é dificultado pela relação bilateral entre os dois países. Enquanto a ilha asiática tem como principal aliado os EUA, que tem extorquido o Brasil com tarifas, o país da América do Sul tem laços cada vez mais concretos com a China, que ameaça os taiwaneses há anos com uma invasão em larga escala por entender que o território lhes pertence.

Para detalhar as perspectivas econômicas, os desafios geopolíticos e o potencial de cooperação entre Brasil e Taiwan, O Brasilianista entrevistou Benito Liao, embaixador de Taiwan em solo brasileiro. Segundo Liao, o Brasil pode se tornar um importante aliado comercial de Taiwan se adotar uma postura mais alinhada aos valores que as duas nações compartilham.

“Em 2024, o Brasil recebeu 6,7 milhões de turistas de todo o mundo. Eles gastaram 7,3 bilhões de dólares. Em comparação, somente em 2025, só os turistas de Taiwan que visitaram o Japão somaram 6,7 milhões de pessoas; número equivalente ao volume total que o Brasil recebe em um ano de todo o mundo. Isso mostra que Taiwan tem potencial turístico para trazer muitas vantagens ao Brasil”, afirmou o embaixador.

Liao é diplomata e representante oficial de Taiwan no Brasil desde novembro de 2023, chefiando o Escritório Econômico e Cultural de Taipei em Brasília, órgão que funciona como embaixada, devido à ausência de relações diplomáticas formais (Crédito: Divulgação)

Leia a entrevista:

Como o Brasil pode entrar de vez na corrida da inteligência artificial?

O Brasil tem uma base industrial muito bem estruturada. Mas, para desenvolver inteligência artificial, são necessários alguns fatores importantes, como eletricidade, água e dispositivos de armazenamento de memória. Sobre esse último fator, há empresas taiwanesas funcionando e investindo no Brasil.

A Adata produz dispositivos de armazenamento para uso civil. Outra empresa é a Delta, que produz dispositivos para economizar o uso de eletricidade, algo muito importante para grandes indústrias. Esses exemplos mostram que Brasil e Taiwan podem colaborar com benefícios mútuos.

Como é a relação de Taiwan com outros países da América do Sul?

Um grande parceiro de Taiwan na América do Sul é o Paraguai, inclusive no campo diplomático. Isso permitiu a instalação de um parque tecnológico inteligente próximo a Ciudad del Este. Também contamos com a tendência de empresas brasileiras migrando para o Paraguai em busca de menores custos de energia, de água, de mão de obra e de impostos.

Esse cenário permite que empresas brasileiras possam aproveitar esse ecossistema de recursos. Teremos muito espaço no futuro.

Como o Brasil pode contribuir com a TSMC? A empresa planeja investir no Brasil?

A TSMC está investindo em alguns países com ideias e valores semelhantes aos de Taiwan. Mas, neste momento, não vejo essa possibilidade no Brasil.

Ainda falta uma institucionalização entre os governos do Brasil e de Taiwan para este tipo de investimento. Se não houver boa vontade entre os dois governos, não haverá investimento da TSMC em solo brasileiro.

Mas acho que podemos fazer algumas pequenas coisas. O Brasil precisa facilitar o intercâmbio de pessoas com Taiwan — primeiro turistas, depois comerciantes e depois funcionários do governo. Uma maneira muito boa de Brasil e Taiwan colaborarem seria eliminar a exigência de visto para entrada de taiwaneses.

Em 2024, o Brasil recebeu 6,7 milhões de turistas de todo o mundo. Eles gastaram 7,3 bilhões de dólares. Em comparação, somente em 2025, só os turistas de Taiwan que visitaram o Japão somaram 6,7 milhões de pessoas; número equivalente ao volume total que o Brasil recebe em um ano de todo o mundo.

Isso mostra que Taiwan tem potencial turístico para trazer muitas vantagens ao Brasil. Imagine se só uma parte desses turistas que viajaram ao Japão visitasse o Brasil. Isso favoreceria o consumo, por exemplo.

O Brasil, por sua posição global e também por conta dos Brics, poderia ajudar a dissolver as tensões diplomáticas entre China e Taiwan?

Não, pois a China integra os Brics. Mas Taiwan e Brasil compartilham os mesmos valores, e o conflito entre os dois lados do Estreito de Taiwan deveria ser resolvido de maneira pacífica.

Vamos ver se podemos alcançar este objetivo, porque o regime da China continental não quer abandonar o uso da força para reunificar Taiwan. Para nós, isso sempre é uma ameaça. Esperamos que todos, inclusive o governo brasileiro, possam prestar mais atenção à situação.

Estamos enfrentando um conflito entre o bloco de regimes autoritários e o bloco democrático. E os países que compartilham os mesmos valores deveriam se unir.

Em algum momento o governo chinês tentou buscar uma solução diplomática com o governo de Taiwan?

Não, porque a China só pensa que Taiwan é uma parte de seu território. A porta de comunicação com o governo se fechou durante estes anos. É muito difícil o diálogo entre China e Taiwan.

Mas Taiwan ainda acredita que há uma solução diplomática. Esperamos que todo o Mundo, inclusive o governo brasileiro, possa prestar mais atenção à situação da região Ásia-Pacífico, sobretudo ao Estreito de Taiwan, haja mais possibilidades de conter uma possível invasão pela China.

Taiwan conta com alguns países aliados, sobretudo os EUA e o Japão. Estes países estão prestando cada vez mais atenção e formando uma cadeia de defesa.

Mas é preciso evitar qualquer tipo de conflito militar, porque, uma vez iniciada a guerra, haverá bloqueio e os chips e semicondutores avançados não poderão sair de Taiwan. Esse cenário trará consigo um efeito catastrófico para o mundo.

As tensões diplomáticas entre China e Taiwan também têm relação com a disputa global pela melhor inteligência artificial, principalmente entre empresas de EUA, China e Europa? Há relação entre as duas coisas?

Os países tecnológicos estão formando uma cadeia global de suprimentos democrática. O motivo dessa cadeia é limitar a participação de alguns países autoritários.

Por isso, os chips mais avançados têm alguns limites de exportação para a China. A cadeia do fornecimento de produtos de alta tecnologia está agora dividida em dois grupos.

Esse também é um tema delicado para o Brasil lidar. Se o Brasil tiver mais cooperação com a China, talvez os chips mais avançados não possam ser vendidos para cá, e então haverá problemas.

Mas isso está totalmente relacionado com a geopolítica global; precisa de gente que tenha muita visão para gerenciar melhor a situação.

Taiwan está preparado para lutar contra uma das maiores potências militares do século XXI?

O governo e o povo taiwanês sabem do risco de depender totalmente da ajuda de países aliados para a defesa. Não podemos contar apenas com isso. Temos que ter nossa própria capacidade de defesa. Estamos aprendendo com a guerra entre Rússia e Ucrânia e estamos desenvolvendo nossa indústria de defesa para melhorar nossa capacidade de resposta.

Meu filho, por exemplo, terminou este ano o serviço militar, que é obrigatório. Nós não podemos aceitar um regime autoritário, como a China comunista.

Taiwan é um país independente, onde há democracia, total liberdade de expressão e de religião. Não podemos viver sob um
regime autoritário, onde não podemos nos expressar e nem ir à igreja com liberdade. Não podemos aceitar esse tipo de
vida, por isso precisamos nos defender, primeiro com nossa própria capacidade de defesa e depois contando com o apoio dos aliados.