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Entrevistas

Apoio de Trump perdeu força entre eleitores brasileiros?

Pesquisa Datafolha aponta que 65% do país diz ser indiferente ao apoio do presidente americano a um candidato à Presidência

Trump demite comissão eleitoral dos EUA mesmo sem nunca ter provado fraude na votação

O apoio público de líderes estrangeiros ainda tem peso na política brasileira ou perdeu influência sobre o eleitor?

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A pergunta ganhou força após pesquisa do Datafolha indicar que 65% dos brasileiros afirmam ser indiferentes a um eventual apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a um candidato à Presidência da República.

O levantamento ouviu 2.004 eleitores entre os dias 17 e 18 de junho. Outros 17% disseram que o apoio aumentaria a chance de votar no candidato indicado, enquanto 15% afirmaram que diminuiria essa possibilidade. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

Na avaliação do advogado e consultor jurídico Dr. Emerson Rosa, o resultado revela uma mudança no comportamento do eleitor brasileiro, que passou a priorizar problemas internos em vez de manifestações de líderes estrangeiros.

Em entrevista ao O Brasilianista, o especialista analisou a influência de Donald Trump, o peso da economia na decisão do voto, o papel das redes sociais e o que a pesquisa revela sobre o momento político brasileiro.

Leia a entrevista completa concedida pelo Dr. Emerson Rosa:

Dr. Emerson Rosa é advogado com atuação nas áreas de Direito Civil, Direito do Trabalho, Direito de Família e Direito do Consumidor. Especialista em Direito Processual Civil, possui ampla experiência na condução de demandas judiciais e consultivas com enfoque técnico e estratégico. Também é relator da 4ª Turma do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-SP, onde atua em processos relacionados à ética profissional, prerrogativas da advocacia e defesa do exercício da profissão. (Crédito: Dr. Emerson Rosa)

1. Qual é o impacto real do apoio de uma liderança estrangeira a um candidato brasileiro?

Na minha avaliação, esse impacto tende a ser muito menor do que o que normalmente se imagina. É claro que um apoio vindo de uma figura internacional gera repercussão nas redes sociais e fortalece a narrativa construída por determinado grupo político.

Mas o comportamento do eleitor brasileiro mudou bastante nos últimos anos. Hoje, as escolhas tendem a ser pautadas por problemas concretos enfrentados pela população, como economia, saúde, educação e segurança.

Por isso, esse tipo de manifestação ajuda a reforçar um discurso político, mas dificilmente se transforma no fator determinante para definir o voto.

2. O resultado da pesquisa indica uma perda de influência de Donald Trump?

Eu prefiro interpretar esse cenário como uma mudança no perfil do eleitor brasileiro, e não exatamente como uma perda de influência de Donald Trump ou de qualquer outro líder internacional.

O brasileiro passou a desenvolver um senso crítico maior e procura analisar os problemas nacionais a partir da realidade vivida dentro do próprio país, sem depender tanto de opiniões ou comentários feitos por autoridades estrangeiras.

Essas manifestações continuam repercutindo, mas hoje exercem uma influência bem menor do que exerciam há alguns anos.

3. O eleitor brasileiro ainda importa tendências políticas dos Estados Unidos?

Os Estados Unidos continuam exercendo enorme influência cultural e econômica. Consumimos tecnologia, produtos, serviços e acompanhamos o debate político norte-americano com bastante frequência.

Entretanto, acompanhar a política americana não significa transportar automaticamente esse cenário para a realidade brasileira. São contextos completamente diferentes.

Percebo que o eleitor tem buscado soluções para os desafios do Brasil olhando para as experiências vividas aqui e não apenas reproduzindo posicionamentos externos.

4. Casos como Bolsonaro e Trump produziram resultados eleitorais concretos?

Existem diversos exemplos de aproximação entre líderes internacionais. O caso de Jair Bolsonaro e Donald Trump certamente é um dos mais conhecidos pelos brasileiros.

Mas é importante separar aproximação política de resultado eleitoral. O fato de dois líderes compartilharem posições semelhantes não significa, por si só, que isso produzirá melhores resultados econômicos ou garantirá uma vitória nas urnas.

Essa convergência costuma fortalecer uma narrativa política e reafirmar valores defendidos por determinado grupo, mas não determina o resultado de uma eleição.

5. Quando um candidato busca associação com uma liderança estrangeira, o principal objetivo é conquistar votos ou sinalizar valores?

Na minha avaliação, os dois objetivos existem. Porém, acredito que o principal seja reafirmar valores perante a própria base eleitoral.

Ao demonstrar proximidade com uma liderança internacional, o candidato procura mostrar que sua linha de pensamento também é defendida por alguém que possui projeção mundial.

Naturalmente isso pode produzir algum efeito eleitoral, mas funciona muito mais como um mecanismo de fortalecimento da identidade política do que como uma estratégia decisiva para conquistar votos.

6. As redes sociais ampliaram ou reduziram a influência internacional?

Eu diria que a influência não diminuiu. O que mudou foi a maneira como ela circula.

No passado, poucas pessoas concentravam grandes audiências. Hoje a informação é distribuída por influenciadores, podcasts, vídeos curtos, canais digitais e diferentes plataformas.

Esse ambiente tornou o debate muito mais pulverizado e fez com que um mesmo tema passasse a ser discutido sob diversas perspectivas.

7. O fenômeno Donald Trump ainda influencia a política brasileira?

Na minha percepção, sim, mas numa intensidade significativamente menor do que entre 2018 e 2022.

Naquele período, a aproximação entre lideranças brasileiras e americanas produziu muito mais repercussão política e eleitoral.

Hoje, manifestações de Trump ainda geram notícias e mobilizam determinados grupos, mas o eleitor tende a olhar muito mais para questões internas antes de decidir seu voto.

8. Por que tantos brasileiros acompanham a política americana, mas afirmam que ela não interfere na escolha eleitoral?

Não vejo qualquer contradição nisso. Os Estados Unidos continuam sendo uma das maiores potências econômicas do planeta, então é natural acompanhar o que acontece por lá.

Mas observar o cenário internacional não significa importar automaticamente soluções ou critérios para decidir uma eleição brasileira.

Costumo dizer que precisamos medir os nossos problemas com a nossa própria régua.

9. O que pesa mais para o eleitor: apoio internacional ou economia?

A economia pesa muito mais. Questões como inflação, emprego, custo de vida e perda do poder de compra influenciam diretamente o cotidiano das famílias brasileiras.

Por isso, ainda que manifestações internacionais tenham repercussão política, elas dificilmente conseguem superar os efeitos concretos da economia na decisão do eleitor.

10. Essa pesquisa revela um amadurecimento democrático?

Na minha avaliação, sim. Isso não significa que política internacional deixou de ser importante ou que acontecimentos externos não produzam reflexos no Brasil.

O que mudou foi a forma como o eleitor passou a analisar esses acontecimentos, priorizando soluções para problemas que fazem parte da realidade brasileira.

11. Se líderes estrangeiros perderam espaço, quem influencia a opinião pública atualmente?

Hoje existe uma influência muito mais descentralizada. Líderes religiosos, representantes de entidades, influenciadores digitais, produtores de conteúdo e diferentes meios de comunicação passaram a dividir esse espaço.

Isso faz com que a formação de opinião aconteça por diferentes canais e sob perspectivas variadas.

12. Ainda existe alguma liderança estrangeira capaz de influenciar uma eleição presidencial brasileira?

Na minha avaliação, dificilmente. Mesmo que decisões internacionais produzam efeitos econômicos e políticos para o Brasil, o eleitor passou a tomar suas decisões olhando principalmente para questões como saúde, educação, segurança e economia.

Esse comportamento demonstra um crescimento do senso crítico e da busca por soluções voltadas para a realidade nacional.

13. O que a pesquisa revela sobre o momento político brasileiro?

A pesquisa mostra um eleitor mais pragmático e racional. Ainda existem pessoas que formam opinião a partir de declarações de lideranças internacionais, mas a maioria passou a analisar seus problemas cotidianos antes de definir seu posicionamento político.

Esse processo demonstra um amadurecimento da democracia brasileira e uma tendência de decisões cada vez mais ligadas à experiência vivida pela própria população.

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