Enquanto brasileiros comemoravam a histórica classificação do Paraguai sobre a Alemanha na Copa do Mundo de 2026 e torciam ao lado dos vizinhos na fronteira entre os dois países, o clima de integração deu lugar ao embate diplomático na Cúpula do Mercosul.
Nesta terça-feira (30), em Assunção, o presidente paraguaio, Santiago Peña, criticou publicamente a forma como Brasil, Argentina e Uruguai defendem a divisão das cotas de exportação previstas no acordo de livre comércio entre o bloco e a União Europeia.
A divergência gira em torno da distribuição das cotas de produtos que poderão entrar no mercado europeu com tarifas reduzidas.
O Paraguai defende que cada integrante do Mercosul receba a mesma participação, enquanto Brasil, Argentina e Uruguai sustentam que os percentuais devem refletir o tamanho das economias e da capacidade produtiva de cada país.
Peña cobra “justiça” na divisão das cotas
Ao abrir a 68ª Cúpula do Mercosul, Santiago Peña afirmou que a implementação inicial do acordo com a União Europeia deixou um “gosto amargo” para o Paraguai. Segundo ele, o atual modelo amplia as desigualdades entre os membros do bloco.
“O campo não está nivelado para todos por igual. Não temos o mesmo mercado, nem as mesmas indústrias, nem a mesma logística”, afirmou o presidente paraguaio.
Peña voltou a defender que as cotas sejam distribuídas de forma igualitária entre os países e afirmou que a reivindicação não representa um impasse político, mas uma questão de justiça.
“Se o Mercosul quer ser confiável para fora, primeiro deve ser por dentro”, declarou.
Brasil rejeita proposta
O discurso do presidente paraguaio provocou incômodo na delegação brasileira. Integrantes do governo afirmaram reservadamente que a posição defendida por Lula também é compartilhada por Argentina e Uruguai.
A avaliação do Palácio do Planalto é que a divisão das cotas precisa considerar o peso econômico e o tamanho do parque industrial de cada integrante do Mercosul, e não uma repartição igualitária.
O Paraguai é um dos países que mais se beneficia da integração econômica com o Brasil, mas que costuma endurecer o discurso durante as negociações comerciais do bloco.
Futebol aproximou os países um dia antes
O embate diplomático ocorreu menos de 24 horas depois de brasileiros e paraguaios comemorarem juntos um dos principais resultados da Copa do Mundo de 2026.
Moradores de Ponta Porã (MS), cidade localizada na fronteira com o Paraguai, acompanharam os jogos das duas seleções usando camisetas que uniam as bandeiras dos dois países.

Após a vitória do Brasil sobre o Japão, muitos permaneceram reunidos para apoiar a seleção paraguaia contra a Alemanha.
A festa ganhou ainda mais força depois que o Paraguai eliminou os alemães nos pênaltis por 4 a 3, resultado que garantiu a classificação para as oitavas de final e manteve o Brasil como único pentacampeão mundial pelos próximos quatro anos.
Para muitos moradores da região, a fronteira praticamente desaparece durante grandes eventos esportivos, reforçando a convivência diária entre brasileiros e paraguaios.
Relação histórica combina integração e disputas entre Brasil e Paraguai
Brasil e Paraguai mantêm relações diplomáticas desde 1844, mas o relacionamento entre os dois países foi marcado por momentos de conflito e de aproximação ao longo de quase dois séculos.
O episódio mais traumático ocorreu entre 1864 e 1870, durante a Guerra do Paraguai, quando o país enfrentou a Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai, no maior conflito armado da história da América do Sul.
Nas décadas seguintes, a cooperação bilateral ganhou força e passou a se concentrar na integração econômica, energética e comercial.
A aproximação se consolidou com obras de infraestrutura que transformaram a relação entre os dois países, como a inauguração da Ponte da Amizade, em 1965, e da usina hidrelétrica de Itaipu, em 1984, hoje responsável por cerca de 10% da energia consumida no Brasil e mais de 80% da eletricidade utilizada no Paraguai.
Além disso, os dois países são membros fundadores do Mercosul e compartilham mais de 1,3 mil quilômetros de fronteira, além de manterem cooperação em áreas como comércio, segurança pública e combate ao crime organizado.
Negociação com a União Europeia continua
Apesar das críticas públicas, o acordo entre Mercosul e União Europeia ainda depende da definição sobre diversos pontos técnicos antes de sua implementação completa.
Além da disputa pelas cotas, negociadores brasileiros também tentam evitar que novas exigências sanitárias europeias afetem as exportações nacionais de carne.
As conversas seguem difíceis diante da decisão da União Europeia de restringir, a partir de setembro, a entrada de produtos provenientes de animais tratados com determinados antibióticos.
Enquanto isso, Lula evitou responder diretamente às críticas de Peña durante a cúpula. Em seu discurso, limitou-se a afirmar que acompanha com satisfação o crescimento econômico do Paraguai e defendeu o fortalecimento da integração regional, sem abordar a disputa sobre a divisão das cotas comerciais.

