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Fujimori ganhou no exterior o que perdeu no Peru — e o mapa que cerca o Brasil acaba de se fechar

Com a vitória dela, os seis maiores países da América do Sul, com uma única exceção, têm governos de direita

Fujimori ganhou no exterior o que perdeu no Peru — e o mapa que cerca o Brasil acaba de se fechar

Por Martin Morales

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49.641 votos. Essa é a diferença entre a vitória e a derrota no Peru, um país de 33 milhões de pessoas, depois de 22 dias de contagem. Keiko Fujimori chegou ao poder na quarta tentativa, após três derrotas anteriores por margens menores a 1%. Desta vez, a virada veio dos peruanos no exterior: 81.655 votos de vantagem fora do país que compensaram os 32.014 votos que ela perdeu dentro do território peruano. Fujimori ganhou uma eleição dentro do Peru que havia perdido. É uma vitória matematicamente improvável e politicamente definitiva.

Ela se torna a primeira mulher eleita por voto popular à presidência peruana, o que a distingue de Dina Boluarte, que assumiu por sucessão constitucional após o autogolpe fracassado de Pedro Castillo. Fujimori ganhou apenas 9 das 25 regiões do país. Vai assumir em 28 de julho, Dia da Independência, à frente de um governo 2026-2031 que começa com o país rachado ao meio.

Roberto Sánchez não reconheceu a derrota. Disse que “de maneira irregular, nos venceram” e anunciou uma coalizão de resistência. Não é novidade no Peru: o perdedor impugna, a polarização se aprofunda e o novo governo começa com a legitimidade comprometida. É o nono presidente em uma década. O roteiro se repete.

As felicitações que revelam o mapa

As mensagens que chegaram a Lima não são cortesia diplomática. São uma coalizão se anunciando publicamente.

Milei foi o primeiro e o mais explícito: “O povo peruano se une à Colômbia e enviou uma mensagem clara: a região quer voltar ao caminho da liberdade e da segurança.” De la Espriella se somou a partir de Bogotá. Rodrigo Paz, a partir de La Paz. A OEA foi convidada para a cerimônia de posse.

O mapa resultante é o seguinte: Argentina com Milei, Chile com Kast, Colômbia com De la Espriella, Equador com Noboa, Bolívia com Paz, Peru com Fujimori. A Venezuela sendo administrada sob tutela de Washington. Honduras alinhada. Com a vitória de Fujimori, os seis maiores países da América do Sul, com uma única exceção, têm governos de direita alinhados com Washington.

A exceção é o Brasil. Lula governa o país mais populoso e a maior economia da região em um isolamento geopolítico crescente, a quatro meses de uma eleição em que as pesquisas indicam empate técnico.

Mais do que esquerda e direita: o que muda na prática

Reduzir esse alinhamento a uma disputa ideológica é ficar na superfície. O que está em jogo é concreto: investimento, segurança, recursos estratégicos.

Na mineração, o Peru é o segundo maior produtor mundial de cobre. Sob Castillo e Boluarte, os conflitos com comunidades mineiras bloquearam bilhões em investimentos. Projetos como Tía María e Conga estão paralisados há anos. Fujimori prometeu “restaurar a ordem”, o que na prática significa destravá-los. Isso tem consequências diretas para o mercado global do cobre e para a disputa entre China e Estados Unidos pelos recursos estratégicos andinos.

Na segurança, Fujimori quer coordenação regional ao estilo Bukele: megapresídios, mão dura e cooperação estreita com Washington. Isso alinha o Peru com a agenda de De la Espriella na Colômbia e de Noboa no Equador, construindo um corredor andino de segurança que exclui o Brasil das conversas.

Quanto à China: o Peru abriga o maior porto chinês da América do Sul, em Chancay. Fujimori não é anti-China e vai precisar desse investimento. Mas o alinhamento com Washington gera tensões que seu governo terá de administrar desde o primeiro dia.

As três tensões que isso cria para o Brasil

O Brasil não aparece em nenhum discurso de Fujimori. Aparece em tudo que está acontecendo ao seu redor.

A primeira tensão é de segurança. Com Peru e Colômbia coordenando suas políticas com Washington, o tráfico de drogas e o crime organizado que hoje atravessa esses países vai encontrar novas rotas. A fronteira amazônica do Brasil é a alternativa mais óbvia.

A segunda é diplomática. Lula construiu sua política externa em torno de um eixo progressista regional: Petro na Colômbia, Boric no Chile, Arce na Bolívia. Todos foram derrotados ou substituídos. O interlocutor natural de Lula na região deixou de existir. Hoje não há com quem construir um bloco alternativo.

A terceira é eleitoral. As pesquisas no Brasil marcam empate técnico. Lula entra na campanha de outubro tendo que explicar por que o modelo que representa perdeu em todos os países vizinhos. Seus adversários não vão precisar de argumentos complexos: basta apontar para o mapa.

O que vem a seguir

Esse alinhamento regional é um dos mais sólidos que a América Latina já viu em décadas. Mas os líderes são eleitos para resolver problemas que persistem sem solução, e a história da região mostra que, quando não os resolvem, o pêndulo volta. Fujimori sabe disso melhor do que ninguém. Esperou 15 anos e quatro eleições para chegar ao poder. Agora precisa governar um país dividido, com nove presidentes em uma década, num continente que não perdoa as decepções.

O Brasil observa. Em outubro, será a sua vez.

Martin Morales é fundador da Arko International Public Affairs, consultoria estratégica sediada em Washington, D.C., especializada em análise de risco político e inteligência de investimentos entre os Estados Unidos e a América Latina. Assessora fundos de investimento e corporações com foco em Argentina, Brasil e mercados andinos.

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