A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta terça-feira (07) a sexta fase da Operação Unha e Carne para investigar uma rede de postos de combustíveis que movimentou R$ 7,6 bilhões em seis anos e teria sido utilizada em um esquema de lavagem de dinheiro com participação de agentes públicos no Rio de Janeiro.
Estão entre os alvos de buscas o ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado Márcio Canella (União Brasil) e o delegado Marcus Vinícius Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil.
A operação também alcança agentes da ativa da instituição e o ex-policial militar Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura, citado pela Comissão Parlamentar de Inquérito das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) em 2008.
Os agentes cumprem 19 mandados de busca e apreensão na capital fluminense e nos municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Resende.
A Justiça também determinou o bloqueio de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de empresas relacionadas aos investigados.
As apurações começaram a partir de um relatório de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
De acordo com a Polícia Federal, os envolvidos poderão responder por organização criminosa, contratação direta ilegal e lavagem de dinheiro, além de outros crimes eventualmente identificados durante as investigações.
Operação começou com suspeita de vazamento para o CV
A ofensiva desta terça-feira é resultado de uma investigação iniciada em dezembro de 2025.
Naquele momento, a Polícia Federal buscava identificar agentes públicos suspeitos de repassar informações sigilosas sobre operações contra o Comando Vermelho.
Como mostrou O Brasilianista, a primeira fase da Operação Unha e Carne apurou se dados reservados da Operação Zargun haviam sido entregues antecipadamente a integrantes da facção, permitindo a destruição ou ocultação de provas.
Durante as buscas, os policiais encontraram cerca de R$ 90 mil em dinheiro no veículo oficial utilizado pelo principal investigado e apreenderam três celulares para perícia.
O então presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, tornou-se um dos principais alvos da apuração.
Segundo os investigadores, ele teria recebido informações sigilosas e repassado os dados ao ex-deputado estadual Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, apontado pela investigação como articulador político do Comando Vermelho.
A primeira etapa abriu caminho para uma investigação que, nos meses seguintes, alcançaria integrantes dos poderes Legislativo e Judiciário, contratos públicos, empresários, operadores do jogo do bicho e suspeitos de ligação com grupos responsáveis pelo comércio ilegal de cigarros.
Desembargador foi preso na segunda etapa
A segunda fase da operação, ainda em dezembro de 2025, levou a investigação para dentro do Judiciário Federal. A Polícia Federal passou a apurar de onde teriam partido as informações sigilosas entregues aos investigados.
O desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), foi preso preventivamente. A suspeita era de que o magistrado teria repassado informações a Bacellar, que posteriormente as transmitiria a TH Joias.
Mensagens e registros de ligações passaram a ser analisados pelos investigadores para apurar a relação entre o desembargador e o então presidente da Alerj.
A Polícia Federal também buscava identificar a eventual existência de uma estrutura de troca de favores entre agentes públicos.
A investigação avançou sob as determinações da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como ADPF das Favelas.
Entre as medidas estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) está a atuação da Polícia Federal na investigação das relações entre agentes públicos e organizações criminosas no Rio.
Prisão de Bacellar ampliou investigação sobre proteção institucional
A terceira fase foi deflagrada em março de 2026 e resultou em uma nova prisão de Rodrigo Bacellar. O ex-presidente da Alerj foi detido em sua residência, em Teresópolis, na Região Serrana.
A ordem partiu do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, após a cassação do mandato de Bacellar pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a apresentação de denúncia pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
A denúncia também alcançou TH Joias, o desembargador Macário Júdice Neto e outros investigados. A Procuradoria-Geral da República passou a trabalhar com a suspeita de uma cadeia de proteção institucional ao crime organizado.
A Polícia Federal relacionou diretamente a nova etapa às determinações da ADPF das Favelas.
Contratos da Educação entraram na mira da PF
A quarta fase, realizada em maio de 2026, abriu outra frente de investigação. O deputado estadual Thiago Rangel (Avante) foi preso sob suspeita de envolvimento em fraudes na contratação de obras, serviços e materiais pela Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc).
As investigações apuraram o possível direcionamento de contratos realizados por escolas estaduais vinculadas à Diretoria Regional Noroeste da secretaria. Segundo a PF, a área estava sob influência política do parlamentar.
A investigação cumpriu sete mandados de prisão preventiva e 23 ordens de busca e apreensão. Os crimes investigados incluíam fraude em licitações, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Máfia do Cigarro levou investigação a políticos
A quinta fase da operação, deflagrada em 2 de julho, alcançou o pastor Márcio Poncio e ampliou as apurações para a atuação da chamada Máfia do Cigarro e de grupos ligados ao jogo do bicho.
Também foram expedidos mandados contra o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, e Rodrigo Bacellar, que já estavam presos.
Documentos apreendidos em investigações anteriores continham registros de supostos pagamentos, doações eleitorais e movimentações financeiras relacionadas à lavagem de dinheiro.
Pelo menos 20 políticos passaram a ser investigados por suspeita de receber recursos do grupo criminoso.
A dimensão econômica dessas organizações já havia sido identificada em outras apurações.
A Máfia do Cigarro controlava a comercialização ilegal do produto em pelo menos 45 dos 92 municípios fluminenses, enquanto estimativas apontavam prejuízo de mais de R$ 2 bilhões em sonegação de impostos no estado entre 2018 e 2023.
Rio acumula décadas de operações contra facções
A expansão da Operação Unha e Carne ocorre após décadas de ações estaduais e federais contra organizações criminosas no Rio de Janeiro.
Tropas das Forças Armadas, policiais federais e agentes estaduais participaram de diferentes ofensivas destinadas a recuperar territórios e combater facções e milícias.
De acordo com O Brasilianista, a participação da União ganhou força durante os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. As Forças Armadas permaneceram por mais de um ano no Complexo da Maré, em uma das maiores operações federais realizadas no estado.
Em 2018, o governo do então presidente Michel Temer decretou intervenção federal na segurança pública fluminense. O comando das polícias Civil e Militar passou ao general Walter Braga Netto após uma escalada da violência registrada durante o Carnaval.
Ao longo daquele período, o Observatório da Intervenção contabilizou 711 ações e 1.375 mortes decorrentes de intervenções policiais entre fevereiro e dezembro. O encerramento da medida devolveu integralmente a responsabilidade pela segurança ao governo estadual.

