A disputa presidencial de 2026 pode ser definida por um grupo específico de eleitores que ainda não demonstra alinhamento fixo com os principais polos políticos do país.
A avaliação é do mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luiz Renato Ribeiro Ferreira, que analisa o peso dos chamados eleitores independentes no cenário atual.
O debate ganhou força após a divulgação da pesquisa BTG Pactual/Nexus, que identificou a existência de um grupo relevante de brasileiros buscando alternativas fora da polarização entre PT e PL (18%). Para Ferreira, no entanto, a influência desses eleitores vai além da ideia tradicional de “terceira via”.
Segundo o especialista, o comportamento desse grupo tende a definir diretamente o resultado da eleição presidencial, principalmente em um eventual segundo turno marcado por margens apertadas.
Diferença pode ser mínima entre os candidatos
Para Luiz Renato Ribeiro Ferreira, o cenário eleitoral brasileiro aponta para uma disputa extremamente equilibrada entre os principais candidatos ao Palácio do Planalto.
Na avaliação do professor, a tendência é que a decisão final ocorra com diferença pequena entre vencedor e derrotado justamente pelo peso do eleitorado independente.
“Quem definirá o vencedor será justamente esse grupo de eleitores e, portanto, teremos uma diferença mínima entre o vencedor e o derrotado, coisa de entre 2% e 5%”, projeta.
O especialista explica que a polarização consolidada entre os dois principais campos políticos faz com que os votos já fidelizados tenham menor capacidade de alterar o resultado final da disputa.
Nesse ambiente, os eleitores que ainda transitam entre posições políticas diferentes passam a ocupar espaço central na definição do resultado eleitoral.
Voto tende a ser mais por rejeição do que por apoio
Ferreira avalia que o comportamento dos eleitores independentes em 2026 deve seguir uma lógica diferente daquela normalmente associada ao voto por identificação ideológica.
Segundo ele, em cenários polarizados, o eleitorado costuma agir mais pelo medo da vitória do adversário do que pelo entusiasmo com propostas políticas.
“Em um cenário polarizado, o eleitor independente raramente vota ‘a favor’ de um projeto; ele vota para impedir que o polo que ele mais teme assuma o poder”, analisa.
O cientista político considera que essa dinâmica altera inclusive a forma como campanhas eleitorais precisam ser construídas.
Candidatos passam a disputar não apenas apoio popular, mas também a redução dos índices de rejeição entre os eleitores menos alinhados politicamente.
“Quem vence em 2026 será o candidato que conseguir ser ‘menos inaceitável’ para esses 20%”, observa.
Rejeição ganha importância nas pesquisas
A análise do especialista também aponta para uma mudança na forma de interpretar levantamentos eleitorais ao longo da campanha presidencial.
Para Ferreira, o índice de rejeição tende a se tornar um indicador mais relevante do que a própria intenção de voto nos meses finais da disputa.
Isso ocorre porque, segundo ele, parte significativa do eleitorado toma sua decisão definitiva apenas nos últimos dias antes da votação.
“Se eu puder dar uma dica aos leitores na hora de ler os resultados das pesquisas eleitorais, eu diria para eles se importarem mais com o índice de rejeição do que com o índice de intenção de votos”, ressalta.
Na avaliação do professor, o crescimento da polarização política brasileira fortaleceu o chamado “voto negativo”, motivado principalmente pela tentativa de impedir a vitória do adversário.
Esse comportamento tende a ganhar ainda mais força durante o segundo turno, quando a disputa fica restrita a apenas dois candidatos.
Polarização reduz espaço para campanhas propositivas
Ferreira também considera que o atual ambiente político brasileiro dificulta campanhas baseadas exclusivamente em projetos de governo ou propostas técnicas.
Segundo ele, o debate eleitoral tende a ser absorvido pela rejeição aos polos políticos já consolidados nacionalmente.
Nesse contexto, candidatos passam a concentrar parte relevante da estratégia em reduzir resistência junto aos eleitores independentes.
O especialista afirma que isso ajuda a explicar por que campanhas negativas e temas ligados à rejeição costumam ganhar força perto da reta final das eleições.
“Nas últimas 48 horas, quando a decisão final bater à porta dos eleitores, eles tenderão a optar mais pelo voto do medo do que pelo voto das ideias ou projetos”, conclui.
Indecisos e desinformados
Pesquisa BTG/Nexus divulgada em 29 de junho mostrou que 44% dos indecisos pouco se informam sobre a campanha presidencial e outros 30% desse grupo não sabem nada sobre a disputa.
As principais pesquisas eleitorais têm mostrado que o total de indecisos na disputa presidencial varia entre 4% e 10% quando são estimulados a escolher um candidato.

