O chamado sonho americano, associado à possibilidade de conquistar uma casa, alcançar estabilidade financeira e melhorar de vida por meio do trabalho, tornou-se mais difícil de alcançar diante do avanço dos custos de moradia, educação e saúde.
Para Rafael Moredo, internacionalista e coordenador de políticas públicas do Livres, a distância entre a renda das famílias e o preço dos bens necessários à formação de patrimônio ajuda a explicar a perda de confiança nesse modelo de ascensão social.
O debate ganhou espaço diante das dificuldades enfrentadas principalmente pelas gerações mais jovens.
O Estadão mostrou que, em 2024, apenas 31% dos americanos afirmavam ter realizado o sonho americano, enquanto 30% consideravam esse objetivo fora de alcance.
Outros 41% avaliavam que o ideal já havia sido possível no passado, mas não poderia mais ser concretizado.
Moredo considera que a mudança não decorre apenas de uma percepção negativa sobre a economia. O especialista relaciona o problema à diferença entre a evolução dos salários e o aumento dos custos necessários para comprar uma residência, estudar e ter acesso aos serviços de saúde.
“Sim, e os números são bastante claros sobre isso. O ‘sonho americano’, na sua definição mais clássica de casa própria, estabilidade financeira, acesso à educação e mobilidade social, ficou estruturalmente mais caro em relação à renda ao longo das últimas décadas.”
Moradia exige parcela maior da renda familiar
A compra da casa própria permanece como um dos principais obstáculos para quem tenta construir patrimônio nos Estados Unidos.
Moredo cita a relação entre o preço dos imóveis e a renda mediana como um dos indicadores das mudanças ocorridas nas últimas décadas.
Em 1980, o valor de uma residência correspondia a 2,94 vezes a renda anual mediana. Em 2024, essa proporção havia alcançado 5,10 vezes, mesmo após ajustes relacionados ao aumento do tamanho médio das casas construídas no país.
“Em 2026, nenhum estado americano consegue oferecer o ‘sonho americano’ completo por menos de 130 mil dólares de renda anual, e a média nacional está perto de 166 mil dólares. Esse patamar é cada vez mais alcançável apenas por casais com dois salários altos, ou por famílias que compraram imóveis anos atrás a preços e juros muito menores. Para quem está começando hoje, o caminho é significativamente mais estreito”, detalha Moredo.
O encarecimento das residências foi acompanhado pelo aumento dos juros cobrados nos financiamentos.
Entre 2000 e 2024, a renda mediana cresceu cerca de 99,7%, enquanto o preço mediano dos imóveis avançou 150,1%. Nos anos mais recentes, as taxas das hipotecas de 30 anos passaram de 2,8% para 7,8%.
Para o internacionalista, parte da dificuldade de ampliar a oferta está relacionada às regras de zoneamento, aos processos de licenciamento e às restrições para a construção de novos imóveis.
Na avaliação do especialista, mudanças nessas regras poderiam aumentar a concorrência e facilitar a expansão da oferta habitacional.
Educação e saúde ampliam pressão sobre o orçamento
As despesas necessárias para cursar uma universidade também passaram a consumir uma parcela maior dos recursos familiares.
O especialista associa parte desse crescimento à expansão do crédito estudantil subsidiado pelo governo federal. Na avaliação dele, a maior disponibilidade de financiamento permitiu aumentos sucessivos das mensalidades sem uma redução proporcional na procura pelos cursos.
“É um caso clássico de como subsídio mal desenhado infla o preço do produto que pretende tornar acessível”, avalia Moredo.
Na saúde, as dificuldades envolvem a relação entre consumidores, hospitais, seguradoras e prestadores de serviços.
O internacionalista argumenta que a ausência de transparência sobre os preços e as barreiras à entrada de novos participantes reduzem a capacidade de concorrência.
Os custos com educação consomem atualmente 40% mais horas de trabalho do que em 1993, enquanto as despesas de saúde estão 70% mais altas em relação aos salários na mesma base de comparação.
Para Moredo, existe uma diferença entre a evolução dos preços dos produtos de consumo e dos serviços necessários para a formação de patrimônio e manutenção da estabilidade financeira.
“O paradoxo americano é exatamente esse: bens de consumo ficaram mais baratos — resultado direto da concorrência e do comércio global —, mas os bens que permitem construir patrimônio e ascender socialmente ficaram proporcionalmente muito mais caros.”
Crescimento amplia diferenças na formação de patrimônio
A economia americana continua crescendo, mas os ganhos não alcançam os diferentes grupos da população na mesma proporção.
Desde 1979, os salários do 1% mais rico cresceram 182%, enquanto a remuneração dos 99% restantes avançou 44%. No mesmo período, a produtividade do trabalho aumentou em ritmo 2,7 vezes superior ao crescimento dos rendimentos dos trabalhadores.
“O crescimento existe, mas sua distribuição é profundamente assimétrica. Economistas têm chamado isso de ‘economia em K’: enquanto a parte de cima da distribuição segue se valorizando, a de baixo estagna ou recua em termos reais”, contextualiza o especialista.
As diferenças também aparecem na distribuição do patrimônio. O 1% mais rico concentrava 22,8% da riqueza líquida americana em 1989 e passou a controlar 30,8% em 2024. Entre os 50% mais pobres, a participação recuou de 3,5% para 2,8%.
Em 2025, o grupo formado pelo 1% mais rico detinha quase metade do mercado de ações americano. Os 50% mais pobres possuíam apenas 1,1%.
Para Moredo, períodos de valorização de imóveis e ativos financeiros beneficiam principalmente as famílias que já conseguiram acumular patrimônio.
Endividamento atinge principalmente jovens e famílias de menor renda
No início de 2026, o endividamento total das famílias americanas chegou a US$ 18,8 trilhões.
Os problemas estão concentrados principalmente entre pessoas mais jovens e de menor renda. Empréstimos estudantis registravam taxas de inadimplência superiores a 10%, enquanto financiamentos de automóveis e dívidas de cartões de crédito também apresentavam aumento nos atrasos.
“Famílias endividadas consomem menos, investem menos e têm menor tolerância a choques externos. A desigualdade persistente corrói a mobilidade social real e alimenta o ressentimento político, criando terreno fértil para discursos que prometem soluções simples — protecionismo, controle de preços, expansão de gastos — para problemas que essas mesmas políticas em grande parte ajudaram a criar”, pondera Moredo.
A dívida estudantil alcança entre 42 milhões e 45 milhões de americanos. O saldo médio se aproxima de US$ 40 mil por devedor, situação que afeta decisões relacionadas à compra de imóveis, formação de famílias e consumo.
O impacto também pode alcançar o desempenho da economia. Pessoas que destinam uma parcela maior da renda ao pagamento de dívidas dispõem de menos recursos para consumir ou investir e ficam mais expostas a períodos de desemprego ou redução dos rendimentos.
Pressão sobre a classe média alcança decisões políticas
As dificuldades econômicas enfrentadas pela classe média também passaram a influenciar o posicionamento dos Estados Unidos sobre comércio internacional e política externa.
“Quando a classe média percebe que o crescimento não se traduz em melhora de vida concreta para ela, o apoio ao livre-comércio, ao multilateralismo e ao engajamento internacional tende a declinar. O protecionismo que se instalou em Washington — com diferentes matizes entre administrações, mas com uma continuidade preocupante — é, em grande medida, uma resposta política a essa frustração acumulada.”
O internacionalista avalia que o comércio exterior não é a principal origem das dificuldades enfrentadas pelas famílias. Para ele, os obstáculos estão relacionados à distribuição dos ganhos econômicos e às barreiras existentes nos setores de moradia, educação e saúde.
A mudança na percepção sobre o sonho americano ocorre quase um século depois da popularização da expressão. O conceito ganhou projeção na década de 1930 e passou a representar a possibilidade de ascensão social e prosperidade por meio do trabalho, antes de também ser utilizado como elemento da identidade econômica e política dos Estados Unidos.
“A potência que exporta ordem internacional precisa, antes, produzir ordem doméstica — e a saída para essa equação passa por mais mercado e mais concorrência nos setores que estrangulam a classe média, não por fechar as fronteiras para o mundo.”

