O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cancelou nesta quarta-feira (24) a cerimônia de assinatura de um projeto de lei bipartidário voltado à ampliação da oferta de moradias acessíveis, apesar de a proposta ter sido aprovada por ampla maioria na Câmara dos Representantes e no Senado.
O republicano afirmou que só sancionará a medida após a aprovação da Lei SAVE America, considerada uma das prioridades de seu governo.
A decisão abriu uma nova crise com o Congresso e reacendeu uma relação que, desde 2017, foi marcada por confrontos em praticamente todas as grandes áreas da agenda política americana.
2017: maioria republicana não evita derrota sobre o Obamacare
Quando assumiu o primeiro mandato, Trump governava com Câmara e Senado controlados pelos republicanos. Mesmo com maioria nas duas Casas, a primeira grande prioridade da Casa Branca fracassou.
Revogar o Affordable Care Act, conhecido como Obamacare (lei federal dos Estados Unidos que regula o sistema de saúde), era uma das principais promessas de campanha do republicano. O projeto, porém, encontrou resistência dentro do próprio Partido Republicano.
Senadores moderados criticavam os cortes previstos no Medicaid, enquanto conservadores afirmavam que a proposta mantinha elementos da reforma criada por Barack Obama.
Sem votos suficientes, a liderança republicana retirou o texto da pauta, impondo a primeira grande derrota legislativa do governo.
2018 e 2019: disputa pelo muro provoca o maior shutdown até então
Ainda com Câmara e Senado sob maioria republicana, Trump passou a pressionar o Congresso para liberar bilhões de dólares destinados à construção do muro na fronteira com o México.

O impasse atravessou a eleição legislativa de 2018. Em janeiro de 2019, os democratas assumiram o controle da Câmara, enquanto os republicanos mantiveram a maioria no Senado.
Sem acordo entre os dois partidos, o governo federal permaneceu parcialmente paralisado por 35 dias, no maior shutdown da história americana até aquele momento.
Depois de recuar nas negociações, Trump declarou emergência nacional para redirecionar recursos ao muro.
2019: Câmara democrata amplia investigações
Com a nova maioria democrata, a Câmara intensificou sua atuação fiscalizadora.
Parlamentares abriram investigações sobre decisões da Casa Branca, solicitaram documentos, convocaram integrantes do governo e ampliaram o escrutínio sobre a administração Trump.
Naquele momento, o Congresso encontrava-se dividido: Câmara democrata e Senado republicano.
Essa configuração marcou praticamente toda a segunda metade do primeiro mandato e ampliou os confrontos entre Executivo e Legislativo.
2019: primeiro impeachment expõe divisão entre as duas Casas
Também com Câmara democrata e Senado republicano, a relação institucional atingiu um novo patamar quando a Câmara aprovou o primeiro impeachment de Trump.
Os deputados acusaram o presidente de abuso de poder e obstrução do Congresso após denúncias envolvendo sua conversa com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.
O processo seguiu para o Senado, onde Trump foi absolvido graças à maioria republicana.
2018, 2019 e 2020: política externa gera sucessivos confrontos
Os embates não ficaram restritos à política doméstica. Em dezembro de 2018, parlamentares dos dois partidos criticaram a decisão de Trump de retirar tropas americanas da Síria, alegando que a medida enfraquecia aliados curdos e poderia favorecer o ressurgimento do Estado Islâmico.
Em 2019, já com Câmara democrata e Senado republicano, Congresso aprovou uma resolução determinando o encerramento do apoio militar americano à guerra no Iêmen.

Os parlamentares argumentaram que a continuidade das operações violava a War Powers Resolution, legislação que limita a permanência das Forças Armadas em conflitos sem autorização do Congresso. Trump vetou a proposta.
O confronto voltou a crescer em janeiro de 2020, após a operação que matou o general iraniano Qasem Soleimani.
Democratas e parte dos republicanos defenderam que qualquer ampliação do conflito contra o Irã deveria ser previamente autorizada pelo Congresso.
Em resposta, Câmara e Senado aprovaram medidas para limitar novos ataques com base na War Powers Resolution, mas Trump voltou a vetá-las, sustentando que elas restringiam os poderes constitucionais do presidente como comandante-em-chefe das Forças Armadas.
2020 e 2021: veto derrubado e segundo impeachment
No fim do primeiro mandato, ainda com Câmara democrata e Senado republicano, Trump vetou a Lei de Autorização de Defesa Nacional, principal legislação anual das Forças Armadas americanas.
Desta vez, Câmara e Senado reuniram maioria qualificada para derrubar o veto presidencial, uma das poucas ocasiões em que o Congresso conseguiu reverter formalmente uma decisão do presidente.
Dias depois, a invasão do Capitólio por apoiadores de Trump levou a Câmara a aprovar um segundo impeachment por incitação à insurreição.

O Senado absolveu novamente o republicano, embora sete senadores de seu próprio partido tenham votado pela condenação.
2025: maioria republicana retorna, mas conflitos continuam
Ao voltar à Casa Branca, Trump encontrou um cenário diferente do fim do primeiro mandato. Câmara e Senado voltaram a ser controlados pelos republicanos, mas isso não significou estabilidade política.
As negociações do orçamento federal provocaram novo impasse entre governo e oposição.
A falta de acordo levou ao shutdown de outubro e novembro de 2025, que durou 43 dias e superou o recorde registrado durante o primeiro mandato.
Mesmo com maioria nas duas Casas, a Casa Branca encontrou dificuldades para unificar sua própria bancada em temas fiscais.
2026: Congresso reage à operação militar na Venezuela
Em janeiro de 2026, após uma operação militar americana em Caracas que resultou na captura de Nicolás Maduro e em bombardeios conduzidos pelos Estados Unidos, o Congresso voltou a questionar os limites dos poderes do presidente para empregar as Forças Armadas sem autorização legislativa.

Embora Câmara e Senado estivessem sob maioria republicana, o Senado aprovou uma resolução determinando que novas ações militares contra a Venezuela dependessem de autorização do Congresso.
A proposta recebeu apoio de todos os democratas e também de cinco senadores republicanos.
O episódio mostrou que a resistência às operações militares extrapolava a oposição tradicional e alcançava integrantes da própria base do governo.
Assim como havia ocorrido nos debates sobre Síria, Iêmen e Irã, parlamentares recorreram à War Powers Resolution para defender que o presidente não poderia iniciar ou ampliar ações militares sem o aval do Congresso.
2026: guerra contra o Irã amplia rebelião republicana
A guerra contra o Irã aprofundou esse movimento. Mesmo com Câmara e Senado controlados pelos republicanos, parlamentares aprovaram novas resoluções exigindo que Trump encerrasse as operações militares ou buscasse autorização formal do Congresso para mantê-las.
Na Câmara, quatro republicanos votaram ao lado dos democratas para limitar os poderes de guerra do presidente.
No Senado, outro grupo de republicanos apoiou iniciativas semelhantes. Trump reagiu atacando publicamente seus correligionários e afirmando que eles deveriam “ter vergonha”.
Além das discussões sobre o uso da força militar, o Congresso passou a questionar os custos da guerra, a falta de informações fornecidas pela Casa Branca e os pedidos de novos recursos para o Pentágono.
A combinação entre política externa, gastos militares e poderes presidenciais transformou o conflito com o Irã em um dos maiores focos de atrito entre Trump e o Congresso em seu segundo mandato.

Democratas no primeiro mandato; aliados no segundo
A cronologia dos embates revela uma mudança importante. Entre 2019 e 2021, quando os democratas controlavam a Câmara e os republicanos o Senado, os principais confrontos envolveram investigações, impeachment, orçamento e imigração.
Já no segundo mandato, embora Câmara e Senado sejam controlados pelos republicanos, parte das maiores resistências passou a partir da própria base governista.

