Investir no Brasil continua sendo uma estratégia importante para empresas nacionais e estrangeiras, mas o custo para tirar projetos do papel faz com que muitos investidores ampliem o olhar para outros países da América Latina.
Enquanto o mercado brasileiro mantém vantagens como dimensão econômica, grande base de consumidores e diversidade produtiva, vizinhos como México, Chile, Colômbia, Peru e Paraguai passaram a disputar novos empreendimentos ao oferecer ambientes considerados mais simples em aspectos como tributação, licenciamento e integração comercial.
Apesar disso, cada um desses mercados também apresenta limitações que precisam ser avaliadas antes da tomada de decisão.
O Brasilianista mostrou que uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que sete em cada dez empresários industriais consideram o pagamento de tributos o principal entrave para fazer negócios no Brasil.
O levantamento ainda identificou dificuldades para contratar mão de obra qualificada, acessar crédito, lidar com a burocracia e enfrentar insegurança jurídica, fatores que compõem o chamado Custo Brasil e influenciam diretamente a competitividade das empresas.
Brasil continua competitivo
O Brasil permanece entre os maiores mercados consumidores do mundo e reúne setores estratégicos capazes de atrair investimentos em infraestrutura, energia, agronegócio, mineração e serviços.
No entanto, o tempo necessário para cumprir exigências regulatórias e a complexidade tributária acabam elevando o custo operacional de novos empreendimentos.
Para Antonio Tavares Paes, sócio fundador do Costa Tavares Paes Advogados e especialista em Direito Societário e contratos comerciais, o país não deixou de ser atrativo, mas passou a enfrentar concorrência mais intensa dentro da própria América Latina.
“O Brasil não está caro demais para investir em sentido absoluto, mas está mais caro e mais trabalhoso do que poderia ser, especialmente para o capital que busca implantação rápida, exportação e pouca fricção regulatória.”
O especialista observa que investidores internacionais passaram a avaliar com maior rigor o tempo necessário para colocar um projeto em operação.
Além dos custos tributários, entram nessa conta fatores como burocracia, infraestrutura, segurança jurídica e previsibilidade das regras econômicas.
Segundo Paes, esses elementos fazem com que alguns projetos migrem para países onde o ambiente regulatório permite uma execução mais rápida.
“Na comparação com México, Chile, Colômbia, Peru e Paraguai, o Brasil perde competitividade quando o investidor prioriza rapidez de licenciamento, simplicidade tributária, previsibilidade regulatória e inserção em cadeias globais.”
México lidera entre as alternativas para a indústria
Entre os países latino-americanos, o México consolidou uma posição estratégica para empresas voltadas à exportação. A proximidade geográfica com os Estados Unidos, a integração proporcionada pelo acordo comercial da América do Norte e o avanço do nearshoring ampliaram o interesse de fabricantes dos setores automotivo, eletrônico e industrial.
Essa combinação tornou o país uma das principais portas de entrada para empresas que desejam abastecer o mercado norte-americano com menores custos logísticos e prazos reduzidos.
“O México é hoje a alternativa mais evidente para manufatura exportadora, automotiva, eletrônica e operações voltadas à América do Norte, porque combina proximidade com os Estados Unidos, integração via acordo regional e ganhos concretos de nearshoring.”
Mesmo com esse cenário favorável, permanecem desafios relacionados ao crime organizado, à informalidade, aos gargalos de transporte e à forte dependência das oscilações da política comercial dos Estados Unidos.
Chile, Colômbia e Peru oferecem oportunidades
O Chile segue entre os destinos mais procurados para investimentos em mineração, cobre, lítio, energias renováveis e hidrogênio verde.
A estabilidade institucional e a previsibilidade regulatória costumam ser apontadas como diferenciais importantes para projetos de longo prazo.
Apesar dessas vantagens, processos de autorização demorados, limitações na infraestrutura de transmissão de energia e discussões regulatórias continuam atrasando parte dos investimentos planejados.
A Colômbia, por sua vez, passou a atrair empresas interessadas em infraestrutura, serviços e geração de energia renovável. O potencial de expansão desses setores chama atenção de investidores que buscam novos mercados na região.
Segundo o especialista, porém, questões relacionadas à segurança interna, à governança, ao ambiente regulatório e ao desenvolvimento logístico ainda reduzem parte dessa competitividade.
O Peru também permanece entre as economias relevantes para mineração e grandes projetos de infraestrutura. A manutenção de fundamentos macroeconômicos relativamente sólidos favorece novos investimentos, especialmente em recursos naturais.
Por outro lado, instabilidade política, conflitos sociais, insegurança e elevados índices de informalidade continuam afetando a confiança empresarial e aumentam a percepção de risco para operações de longo prazo.
Paraguai cresce pelo baixo custo operacional
Nos últimos anos, o Paraguai passou a despertar interesse principalmente de empresas ligadas ao agronegócio, à manufatura leve e a atividades que demandam grande consumo de energia.
O custo reduzido da eletricidade, a estabilidade macroeconômica e os incentivos oferecidos pelo país ajudaram a fortalecer sua imagem como alternativa para operações industriais.
Ainda assim, o mercado interno limitado, a condição de país sem saída para o mar e as limitações logísticas reduzem o potencial de expansão de diversos projetos, especialmente aqueles voltados ao consumo doméstico.
Brasil ainda reúne vantagens difíceis de reproduzir
Embora a concorrência regional tenha aumentado, Paes avalia que o Brasil continua ocupando um espaço estratégico na América Latina graças ao tamanho do mercado consumidor, à diversidade da economia, à oferta de energia limpa e à capacidade de desenvolver projetos de grande escala.
Na avaliação do especialista, o movimento observado atualmente não representa uma fuga generalizada de investimentos, mas uma distribuição mais seletiva do capital conforme o perfil de cada empreendimento.
“No fim, a tese mais honesta é esta: o Brasil continua grande demais para ser ignorado e competitivo demais para ser descartado, mas caro e complexo o bastante para perder projetos para vizinhos que, mesmo menores, conseguem oferecer execução mais simples e mais rápida.”
Para reduzir essa diferença competitiva, o especialista considera que o país precisará avançar na simplificação tributária, diminuir a burocracia, melhorar a infraestrutura, fortalecer a coordenação entre órgãos reguladores, ampliar a integração comercial e criar um ambiente de maior previsibilidade econômica.

