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Geopolítica

Geopolítica entra na campanha de 2026 e pode influenciar o voto

Tarifaço dos Estados Unidos passou a integrar o debate eleitoral

Geopolítica entra na campanha de 2026 e pode influenciar o voto

O avanço das tensões comerciais entre Estados Unidos e China, a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros e a crescente disputa por influência econômica transformaram a geopolítica em um dos temas da eleição presidencial de 2026.

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Assuntos antes restritos à diplomacia, como Brics, Mercosul, PIX e minerais estratégicos, passaram a ocupar espaço nos discursos de pré-candidatos e no debate público, refletindo mudanças no cenário internacional e seus efeitos sobre o Brasil.

Reportagem de O Brasilianista mostrou que o tarifaço de 25% anunciado pelos Estados Unidos tende a ampliar a disputa política em torno da política externa, com diferentes grupos tentando atribuir responsabilidades pelo desgaste nas relações entre Brasília e Washington.

Para Beny Fard, especialista em negócios internacionais e CEO da B8 Partners, esse movimento é consequência de uma transformação mais ampla nas relações internacionais.

Tarifaço aproxima política externa do debate eleitoral

Na avaliação de Beny Fard, a eleição de 2026 ocorre em um contexto diferente das disputas presidenciais anteriores porque fatores externos passaram a produzir impactos diretos sobre temas tradicionalmente ligados à política doméstica.

“Uma das razões mais aderentes é a convergência entre o tarifaço americano e a disputa presidencial. No novo xadrez global impulsionado majoritariamente pelas decisões do governo Trump, o risco geopolítico do Brasil é tido como médio com tendência de alta, sobretudo em função das tarifas comerciais e medidas de segurança pública, incluindo a designação unilateral do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos EUA, com possíveis sanções secundárias do Tesouro americano”, explica.

O especialista contextualiza que a disputa entre Estados Unidos e China ampliou o alcance da geopolítica para áreas que antes eram analisadas principalmente sob uma perspectiva econômica.

Cenário difere de eleições anteriores

Embora a presença de assuntos internacionais seja mais intensa, Fard considera que 2026 não representa a primeira eleição influenciada pelo cenário externo. Para ele, a diferença está no peso das consequências econômicas e comerciais para o debate político.

“De certa forma, nunca houve influência tão grande da geopolítica em uma eleição brasileira, sendo a última vez comparável em 1945, por causa do conflito global da Segunda Guerra. Cabe lembrar que 2018 também teve forte componente de alinhamento internacional ideológico, então a novidade de 2026 está mais na centralidade de pautas comerciais e tarifárias concretas do que na politização internacional em si”, observa.

A política externa tende a ocupar espaço maior na campanha porque decisões internacionais passaram a afetar empresas, empregos e preços, aproximando a diplomacia do cotidiano da população.

Disputas internacionais influenciam estratégias dos candidatos

A competição entre Estados Unidos, China e União Europeia também deve influenciar diretamente a forma como os principais grupos políticos apresentarão suas propostas durante a campanha.

Fard analisa que o BRICS passou a representar uma divisão ideológica entre pré-candidatos.

“No eixo dos Estados Unidos, a proximidade da direita brasileira com uma rede internacional de líderes conservadores, enquanto Lula aposta em fóruns multilaterais para defender a agenda dos BRICS, faz de cada decisão em Washington, Pequim ou Bruxelas um evento com repercussão quase imediata na narrativa de campanha aqui”, detalha.

Impacto no voto continua indireto

Apesar da maior presença desses temas no debate eleitoral, o especialista avalia que o comportamento do eleitor ainda permanece fortemente ligado a fatores internos.

“O peso no voto ainda é indireto. Nessa eleição mais internacionalizada, o eleitor continua decidindo principalmente com base em inflação, emprego, renda e segurança pública, mas esses temas passaram a sofrer influência crescente de acontecimentos internacionais, numa fronteira entre doméstico e internacional cada vez mais difusa”, ressalta.

Isso significa que crises comerciais, conflitos internacionais e mudanças na relação do Brasil com outras potências tendem a ser percebidos pelos eleitores principalmente quando provocam efeitos sobre preços, mercado de trabalho, investimentos e atividade econômica.

Narrativas eleitorais devem explorar acontecimentos externos

Além dos impactos econômicos, Fard alerta que fatos internacionais também poderão ser utilizados como instrumento de disputa política durante a campanha presidencial.

“Esse risco já é o núcleo do debate atual, sendo que o tarifaço é o eixo de uma queda de braço entre Lula e Flávio Bolsonaro, em que cada lado tenta atribuir ao outro a culpa pelas tarifas americanas. De forma pragmática, nem todas as decisões americanas que afetam o Brasil levam em conta o cenário eleitoral brasileiro, ou seja, fatos geopolíticos externos estão sendo enquadrados a posteriori em narrativas de campanha”, avalia.

O especialista acrescenta que tanto a adoção de discursos fortemente alinhados à geopolítica quanto a ausência de posicionamentos sobre política externa podem fazer parte da estratégia de diferentes candidatos ao longo da disputa presidencial, sem que isso represente, necessariamente, propostas detalhadas para a condução das relações internacionais do Brasil.

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