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Entrevistas

Tarifa dos EUA pode pressionar setor de etanol, mas especialistas veem capacidade de adaptação

A discussão ocorre em um momento de expansão do produto derivado do milho no Brasil

Tarifa dos EUA pode pressionar setor de etanol, mas especialistas veem capacidade de adaptação

As medidas que o governo brasileiro prepara para enfrentar as tarifas impostas pelos Estados Unidos devem ser anunciadas após a conclusão do diagnóstico dos impactos sobre os setores produtivos. Segundo o ministro Márcio Elias Rosa, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o governo ainda está reunindo informações junto às empresas antes de definir as ações. Entre as alternativas em análise estão mecanismos de crédito, apoio às exportações e medidas para preservar a competitividade da indústria brasileira.

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No caso do etanol, especialistas avaliam que a sobretaxa de 25% tende a reduzir a competitividade do produto brasileiro no mercado norte-americano, mas não deve comprometer toda a cadeia sucroenergética. Eles destacam que a diversificação de mercados e o fortalecimento da demanda interna podem amenizar os efeitos da medida.

Além dos impactos econômicos, a discussão ocorre em um momento de expansão do etanol de milho no Brasil, que vem ganhando espaço ao lado do tradicional etanol produzido a partir da cana-de-açúcar.

Cana mantém vantagem ambiental; milho amplia oferta

Para o economista Lucas Borges, especialista em análise financeira, o etanol de cana continua apresentando vantagens estruturais em relação ao produzido a partir do milho.

“O etanol de cana tem vantagem estrutural em eficiência energética e menor intensidade de carbono. O milho ganha competitividade pela disponibilidade de matéria-prima, escala e geração de coprodutos, como o DDG. No Brasil, os dois modelos têm estruturas de custos diferentes, mas a cana ainda apresenta uma vantagem competitiva importante”, afirma.

Apesar do avanço do milho, Borges avalia que as duas cadeias são complementares.

“Na safra 2025/26, o Brasil produziu cerca de 10,2 bilhões de litros de etanol de milho, contra 27,3 bilhões de litros de etanol de cana. O milho cresce rapidamente, mas amplia a capacidade brasileira de produzir biocombustíveis e aproveitar a disponibilidade de grãos, enquanto a cana mantém sua eficiência e escala.”

Na mesma linha, o advogado tributarista Leonardo Roesler, afirma que o etanol de cana possui vantagens históricas tanto em eficiência energética quanto em sustentabilidade ambiental.

Segundo ele, enquanto a cana já contém açúcares diretamente fermentáveis e ainda utiliza o bagaço para gerar energia, o milho exige uma etapa adicional de processamento. Em contrapartida, o cereal oferece maior flexibilidade operacional por poder ser armazenado durante todo o ano, além de gerar receitas adicionais com óleo de milho e DDGS – Dried Distillers Grains with Solubles, ou grãos secos de destilaria com solúveis – utilizado na alimentação animal.

Para Roesler, a expansão do etanol de milho fortalece o setor ao reduzir a dependência de uma única matéria-prima.

Tarifa reduz competitividade, mas não deve provocar choque sistêmico

Na avaliação dos especialistas, o principal efeito da tarifa norte-americana será a perda de competitividade do etanol brasileiro nos Estados Unidos.

Borges lembra que, em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 253 milhões de litros de etanol para o mercado americano, movimentando cerca de US$ 163 milhões.

“O impacto é relevante para empresas mais expostas, mas não representa, isoladamente, um choque sistêmico para toda a cadeia brasileira”, afirma.

Roesler também considera que a medida tende a pressionar margens, estoques e fluxo de caixa das usinas, mas observa que o mercado interno continua sendo o principal destino da produção nacional.

Segundo ele, o efeito mais provável será a redução das exportações para os Estados Unidos, acompanhada pelo redirecionamento de parte da produção para outros mercados.

Diversificação de mercados é apontada como alternativa

Os especialistas defendem que o Brasil intensifique a abertura de novos mercados para reduzir a dependência dos Estados Unidos.

Para Borges, Ásia, Europa e América Latina despontam como alternativas, embora ressalte que não existe substituição imediata para um mercado do porte dos Estados Unidos.

“A estratégia deve combinar diversificação de destinos com o fortalecimento do mercado interno”, afirma.

Roesler acrescenta que mercados como Coreia do Sul, Japão, União Europeia, Singapura, China e países africanos apresentam potencial para ampliar as compras de etanol brasileiro. No entanto, destaca que essa expansão dependerá de negociações comerciais, certificações ambientais e investimentos logísticos.

Os dois especialistas também avaliam que uma eventual redução das exportações pode influenciar o planejamento das usinas de cana-de-açúcar. Caso o açúcar apresente maior rentabilidade, parte da matéria-prima poderá ser direcionada para sua produção. Ainda assim, eles ressaltam que essa decisão dependerá de fatores como câmbio, preços internacionais, mercado doméstico de combustíveis e políticas públicas para o setor.

Na avaliação dos especialistas, a estratégia mais adequada para o Brasil é manter as negociações com os Estados Unidos, ampliar a abertura de novos mercados e fortalecer a competitividade do etanol brasileiro, evitando que a disputa comercial comprometa uma das principais vantagens do país na transição energética.

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