Em meio à escalada do conflito no Oriente Médio, o Brasil atravessa um dos momentos mais delicados na relação com Israel. O governo brasileiro ensaia medidas de distanciamento da situação, como a saída do país da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA), em julho deste ano.
À época, o assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para assuntos internacionais, o embaixador Celso Amorim, explicou no programa Roda Vida o que motivou a decisão de saída do Brasil.
Segundo ele, a decisão seria uma reação àquilo que considerava uma “manipulação” da aliança.
Para Amorim, o país não poderia aceitar que a definição de antissemitismo adotada pela organização fosse utilizada para enfraquecer os esforços internacionais em favor da criação de um Estado palestino.
Já em agosto, o Ministério das Relações Exteriores de Israel anunciou que iria “rebaixar” as relações com o Brasil após o Itamaraty ter ignorado a indicação de um novo embaixador. As informações foram compartilhadas pelo G1.
Com isso, acendeu-se o debate sobre uma possível ruptura do Brasil com Israel, levantando dúvidas sobre os impactos diplomáticos, econômicos e simbólicos dessa guinada, e tensionando tanto a balança comercial quanto o diálogo com a comunidade judaica. Para se ter ideia, o país reúne entre 120 mil e 148 mil judeus em território nacional.
Os dois lados da balança comercialEsse distanciamento do Brasil com Israel representa, além de questões morais e religiosas, impactos diretos na relação comercial.
Em 2024, o comércio entre os países apresentou uma dinâmica marcada pela exportação de produtos estratégicos do agronegócio e a importação de insumos essenciais para a produção interna.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), no ano passado, o Brasil exportou US$ 725 milhões para Israel e importou US$ 1,2 bilhão.
Dentre os principais produtos vendidos, destacam-se a carne bovina, soja, milho e café. Os brasileiros compraram fertilizantes, com mais da metade das operações. As informações foram compartilhadas pelo jornal O Globo.
Tecnologia e segurança
No ano passado, a fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia adicionado um dos primeiros capítulos para a tensão entre os país.
No início de 2024, Lula fez uma comparação da operação militar de Israel na Faixa de Gaza com o extermínio de judeus realizado por Adolf Hitler na Alemanha nazista.
O portal especializado AeroIn avaliou que a fala do presidente poderia ter impacto direto na aquisição dos caças Saab Gripen e o cargueiro KC-390, um dos principais sistemas de defesa da FAB (Força Aérea Brasileira.
A continuidade do programa depende de tecnologia desenvolvida e fornecida por empresas israelenses, entre elas a AEL Sistemas, subsidiária da Elbit Systems (Israel), que detém 25% da Embraer.
Vale a pena romper com Israel?
Em uma escalada de conflitos diplomáticos, a possível ruptura entre Brasil e Israel traria impactos diretos em diversos setores de ambos os países.
Do ponto de vista econômico e estratégico, os riscos são importantes. Por exemplo, o agronegócio brasileiro depende de fertilizantes e agrotóxicos importados de Israel e uma quebra nas relações poderia impactar a produção e implicar em alteração de preço final dos produtos.
Na estratégia de defesa, a infraestrutura e a capacidade tecnológica da Força Aérea Brasileira estão fortemente atreladas a sistemas desenvolvidos por empresas israelenses e poderiam ser enfraquecidas por um rompimento nas relações.
Já no campo social e simbólico, o afastamento de Israel seria sentido na convivência multicultural do Brasil, já que o país abriga a segunda maior comunidade de judeus da América Latina.
Para a comunidade, a saída recente do Brasil da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA) já representou um golpe, descrito como um “retrocesso moral” na luta contra o antissemitismo.
Em nota, a CONIB afirmou que a decisão do país, ao recusar de fato a nomeação de um novo embaixador de Israel em Brasília e manter a embaixada do Brasil em Israel sem embaixador, reduz o alcance da diplomacia brasileira num momento fundamental na história da região.
Por outro lado, há quem defenda o distanciamento de Israel, especialmente em movimentos pró-Palestina, que condenam as ações de Israel em Gaza. Dessa forma, a saída da IHRA foi vista como um gesto legítimo.
O assessor especial Celso Amorim sustentou que o Brasil não é contra Israel, mas contra a política atual.
“Nós queremos ter uma boa relação com Israel. Mas não podemos aceitar um genocídio, que é o que está acontecendo. É uma barbaridade. Nós não somos contra Israel. Somos contra o que o governo Netanyahu (primeiro-ministro de Israel) está fazendo”, disse ao G1.
Seguindo a linha, o dilema é complexo e extenso: riscos envolvem defesa, tecnologia, agricultura e relações comunitárias e, por outro lado, movimentos civis pressionam o país a se posicionar diante de um conflito que mobiliza a opinião pública global.

