Em um movimento pouco comum na política brasileira recente, o Gilberto Kassab decidiu estimular publicamente uma disputa interna no Partido Social Democrático (PSD) ao colocar três governadores como pré-candidatos à Presidência da República em 2026. A estratégia foi reforçada nesta sexta-feira (6), com o início de uma série de encontros organizados pela fundação do partido para dar visibilidade nacional aos nomes da legenda e construir diretrizes de um eventual programa de governo.
Os protagonistas desse movimento são três governadores com perfis políticos distintos: Ratinho Júnior, do Paraná; Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul; e Ronaldo Caiado, de Goiás. Ao invés de antecipar uma escolha ou tentar unificar a sigla em torno de um único nome, Kassab optou por incentivar uma espécie de “prévia informal”, permitindo que os três disputem espaço político, apresentem ideias e se testem nacionalmente.
Lógica tradicional
A decisão chama atenção porque rompe com a lógica tradicional dos partidos brasileiros, que geralmente evitam disputas internas abertas para não expor divisões. No caso do PSD, a avaliação de dirigentes é que a pluralidade pode ser uma vantagem. Com três governadores em evidência, o partido amplia sua presença no debate nacional e mantém mais de uma porta aberta para 2026.
Pacto federativo
Durante o evento, os três pré-candidatos começaram a marcar posições. Ratinho Jr., por exemplo, defendeu uma mudança estrutural no pacto federativo. O governador propôs a apresentação de uma emenda constitucional que permitiria aos estados legislar sobre direito penal em crimes contra a vida, competência que hoje é exclusiva da União. Segundo ele, a descentralização permitiria respostas mais rápidas e duras contra crimes graves.
6X1
Já Eduardo Leite adotou um tom voltado à economia e às relações com o setor produtivo. O governador gaúcho criticou a discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1 sem um acordo prévio com empresários e trabalhadores. Para ele, mudanças bruscas nas regras do mercado de trabalho poderiam afetar a capacidade produtiva do país.
Segurança Pública
Enquanto isso, Caiado, que também disputa espaço dentro da sigla, representa uma linha mais ligada ao discurso de segurança pública e ao eleitorado conservador, ampliando o espectro ideológico do partido.
Por trás desse arranjo, há um cálculo político claro. O PSD tenta se consolidar como uma alternativa de centro em um cenário que tende novamente à polarização. Ao manter três nomes competitivos, o partido ganha tempo para observar o cenário nacional, medir a viabilidade eleitoral de cada governador e negociar alianças com maior margem de manobra.
Outro fator importante é o calendário eleitoral. Pela legislação, governadores que pretendem disputar a Presidência precisam deixar o cargo até abril do ano da eleição. Até lá, a estratégia do PSD é justamente testar seus nomes em debates nacionais, seminários e agendas temáticas.
Vitrine
No fundo, o partido parece apostar em uma lógica diferente: em vez de lançar um candidato prematuramente, prefere transformar a disputa interna em vitrine política. Se funcionar, o PSD chega a 2026 com um nome mais competitivo. Se não, ainda mantém o poder de negociação de uma das maiores bancadas e de vários governos estaduais.

