A prisão de 11 policiais no Rio de Janeiro em três dias pela Polícia Federal mostra o tamanho do problema da União ao enfrentar a corrupção e a crise da Segurança Pública no estado. Entre 9 e 11 de março, foram presos um policial federal, três policiais civis e sete policiais militares — dois dos detidos são delegados (um federal e outro civil).
Os policiais civis são suspeitos de extorquir traficantes, o delegado federal é acusado de vazar informações os policiais militares estão sob investigação por ligação com o crime organizado. As prisões resultaram da nova etapa da Missão Redentor II, que investiga conexões de milícias e traficantes com agentes públicos e advogados.
Relatório da PF citado na decisão que autorizou as prisões mostrou que os agentes públicos ajudavam criminosos organizados, como o Comando Vermelho (CV). Um dos citados pela Polícia Federal é o ex-deputado estadual Tiego Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Joias e acusado de falicitar crimes como tráfico internacional de armas, contrabando e lavagem de dinheiro.
A PF também identificou menções aos policiais em diálogos entre lideranças do CV, como Fhillip da Silva Gregório, chamado de Professor e conhecido por chefiar os crimes da organização criminosa no Complexo do Alemão, e Gabriel Dias de Oliveira, apelidado de Índio. Eles negociavam a compra de fuzis do Paraguai. Pagariam usando contas de empresas ligadas ao traficante Angel Antonio Flecha Barrios.
O monitoramento de Estações de Rádio Base (ERBs) e extratos telemáticos confirmou que os policiais presos falavam frequentemente com operadores do esquema de TH Joias e com lideranças do Comando Vermelho. A PF ressaltou que tal simbiose permitiu que o crime atingisse “dimensões institucionais” que desafiam o Estado.
Um exemplo disso foi a prisão de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do RJ, no fim de 2025, por ordem do STF. O deputado estadual foi detido sob suspeita de vazar informações sobre a operação da PF que mirou TH Joias.
Bacellar foi solto dias depois porque a Alerj anulou sua detenção, mas mensagens encontradas pela PF no celular do deputado estadual motivaram a prisão do desembargador Macário Judice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2). O magistrado, também detido no fim de 2025, foi acusado de vazar informações sobre a operação que mirou TH Joias.
Corrupção estatal

(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
A decisão que autorizou a prisão dos 11 policiais e outros três investigados partiu de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). A ordem, assim como outras expedidas nos últimos anos pela Corte, são uma tentativa de enfrentar a criminalidade organizada que se instalou no Poder Público do Rio de Janeiro.
A profundidade com que a corrupção penetrou no funcionalismo público do Rio de Janeiro foi melhor medida durante as investigações do assassinato da ex-vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, em março de 2018.
O assassinato e sua tentativa de acobertamento mostrou o ápice de uma engrenagem corrupta que uniu o crime organizado, agentes de segurança e o alto escalão da política fluminense. As investigações revelraam que a morte da parlamentar foi planejada e protegida por uma rede de influência que transformou órgãos públicos em extensões de interesses criminosos.
O crime foi cometido, segundo a PF, porque Marielle Franco foi contra os interesses fundiários dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão e a exploração de áreas dominadas por milícias. Os Brazão, com uma trajetória marcada pelo domínio eleitoral e político em na Zona Oeste do Rio de Janeiro, utilizaram seus cargos na Câmara dos Deputados, na Assembleia Legislativa do RJ e no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) para blindar suas atividades.
A corrupção estatal para atrapalhar as investigações contou com o envolvimento de delegados e agentes, que tentaram sistematicamente desviar o foco dos verdadeiros mandantes, utilizando a estrutura da PF e da Polícia Civil para plantar pistas falsas e proteger os aliados do grupo Brazão. Rivaldo Barbosa, então chefe da Polícia Civil, garantiu, antes mesmo do crime, que a investigação não teria resultados.
Operações nas favelas

Outra ação do STF que pode ser relacionada a esse esforço é a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635. Conhecida como a ADPF das Favelas, a ação judicial consolidou-se nos últimos anos como um dos principais marcos do controle judicial sobre a segurança pública.
Entre 2024 e o início de 2026, o Supremo Tribunal Federal (STF) intensificou a cobrança por resultados concretos, transformando medidas liminares em determinações definitivas para reduzir a violência nas comunidades fluminenses.
Em abril de 2025, o STF homologou parcialmente o Plano de Redução de Letalidade Policial apresentado pelo Governo do Rio de Janeiro. Embora a Corte tenha reconhecido avanços, como o início do uso de câmeras corporais, os ministros foram enfáticos ao exigir que o estado apresentasse metas objetivas e cronogramas detalhados.
Mais recentemente, o STF determinou a obrigatoriedade de ambulâncias em operações planejadas e a prioridade absoluta na investigação de mortes de crianças e adolescentes. Também impôs prazo de 180 dias para o estado comprovar a instalação de câmeras não apenas nos uniformes, mas também em todas as viaturas policiais.
Outro ponto relevante decidido no fim de 2025 foi a exigência de autópsias detalhadas em todas as mortes por intervenção policial. O Supremo determinou ainda que o Ministério Público do Rio de Janeiro seja mais rigoroso ao fiscalizar a atividade policial.
No início de 2026, as discussões se voltaram para a eficácia do sistema de georreferenciamento e para o compartilhamento de dados desagregados com o Ministério da Justiça. A Corte também manteve a proibição do uso de escolas e hospitais como bases operacionais, reafirmando que o direito à segurança não pode anular direitos fundamentais básicos dos moradores das favelas.

