A atividade empresarial na Ásia apresenta sinais de desaceleração em a um cenário marcado pela perda de dinamismo da demanda, avanço dos custos operacionais e impactos crescentes da guerra no Oriente Médio sobre cadeias de suprimentos e preços de energia. O ambiente de negócios tem se tornado mais desafiador para empresas, que enfrentam expansão mais lenta, compressão de margens e deterioração das expectativas.
De acordo com o S&P Global, no Japão, a atividade empresarial se manteve em expansão em março, mas com perda de fôlego em relação aos meses anteriores, refletindo um enfraquecimento mais amplo das condições operacionais. O crescimento mais moderado foi acompanhado por desaceleração nos novos pedidos, no ritmo de contratações e na produção, indicando menor tração tanto na indústria quanto no setor de serviços.
Ao mesmo tempo, empresas enfrentaram forte elevação dos custos de insumos, impulsionada pelo aumento dos preços de energia e por disrupções nas cadeias de suprimentos. Annabel Fiddes, da S&P Global Market Intelligence, afirma que o crescimento da atividade, dos novos pedidos e do emprego perdeu força, com dados apontando desaceleração tanto na indústria quanto nos serviços.
“A guerra no Oriente Médio levou a interrupções nas cadeias de suprimentos e à alta dos preços de combustíveis, elevando rapidamente os custos de compra”, enfatiza
A combinação entre custos mais altos e menor expansão da demanda tem pressionado a rentabilidade das empresas, enquanto a incerteza sobre o conflito reduziu a confiança em relação à produção futura. Ainda assim, empresas seguem contratando, embora em ritmo mais moderado, e o setor manufatureiro sustenta expectativas mais positivas, apoiadas pela demanda global por segmentos estratégicos.
Menor dinamismo da atividade na Índia
Na Índia, a atividade empresarial também perdeu intensidade, com crescimento mais fraco do setor privado em mais de três anos. O desempenho reflete a desaceleração da demanda doméstica, que reduziu o volume de novos negócios, mesmo diante do avanço das encomendas externas.
As empresas relataram que a guerra no Oriente Médio, a instabilidade dos mercados e as pressões inflacionárias afetaram diretamente o ambiente operacional, elevando custos e limitando a expansão da produção.
Segundo Pranjul Bhandari, economista-chefe do HSBC para a Índia, os custos de insumos avançaram no ritmo mais forte em quase quatro anos, enquanto os preços cobrados subiram em menor intensidade, indicando absorção parcial desses aumentos e consequente redução das margens.
“O crescimento da produção perdeu força na indústria e nos serviços, com a demanda doméstica mais fraca pesando sobre os novos pedidos, enquanto as pressões de custos se intensificaram e as empresas absorveram parte desse impacto ao reduzir margens”, explica.
Ainda assim, as empresas mantêm a expansão do emprego, sustentadas por expectativas positivas quanto à atividade futura e à carteira de pedidos.
Ambiente global adverso para empresas
O Brasilianista já destacou que a crise evidencia fragilidades profundas no sistema energético asiático. Taiwan, peça central na cadeia global de semicondutores, depende fortemente de energia importada, sendo particularmente sensível a choques externos. A busca por novos acordos energéticos reflete uma tentativa de mitigar riscos estratégicos, ainda que implique custos mais elevados.
Outros países do Sudeste Asiático enfrentaram dificuldades ainda mais imediatas. Em economias como Camboja, Laos, Filipinas e Tailândia, o aumento dos preços e a limitação de oferta levaram a medidas emergenciais, como racionamento e interrupções no abastecimento.
A China conseguiu amortecer parte dos impactos ao ampliar sua produção interna e reforçar importações por vias alternativas, demonstrando maior resiliência energética em comparação aos seus vizinhos. Ao mesmo tempo, a questão energética se entrelaça com disputas geopolíticas regionais, especialmente no entorno de Taiwan.
Novas rotas
Nas rotas tradicionais, países asiáticos passaram a considerar trajetos alternativos para o transporte de GNL, especialmente pelo Pacífico, evitando tanto o Estreito de Ormuz quanto áreas de tensão no Mar do Sul da China.
Esse reposicionamento aponta para uma transformação mais ampla: a segurança energética passou a ocupar um papel central nas estratégias nacionais, influenciando decisões econômicas, diplomáticas e até militares.
A atual crise acelera uma tendência já em curso: a fragmentação do mercado global de energia e a regionalização das cadeias de abastecimento. Na Ásia, isso se traduz em maior competição por recursos, aumento de custos e aprofundamento das alianças estratégicas.
Japão, Coreia do Sul e Taiwan intensificaram esforços para diversificar fornecedores de gás natural liquefeito (GNL), reduzindo a dependência de rotas e produtores concentrados no Oriente Médio. Essa transição não ocorre apenas por razões imediatas de segurança, mas também reflete pressões econômicas e comerciais acumuladas nos últimos anos.
O gás, antes considerado menos competitivo por questões de logística e custo, passou a ganhar espaço nas matrizes energéticas desses países, impulsionado pela necessidade de estabilidade no fornecimento.

