As eleições presidenciais de 2026 no Brasil podem sofrer efeitos indiretos da guerra no Oriente Médio, mesmo que os efeitos diretos sobre votos sejam de forma limitada. Historicamente, os debates eleitorais ficam concentrados nas questões domésticas, como preços de alimentos, combustíveis e segurança pública. Mas a percepção de que eventos globais interferem na economia e nos temas que mobilizam o eleitor, é crescente.
Em entrevista ao O Brasilianista, Luiz Renato Ribeiro Ferreira, sociólogo, mestre em Ciência Política pela UNICAMP e especialista em Gestão e Avaliação de Políticas Públicas, explicou que as questões internacionais já são significativas nas discussões eleitorais, mesmo que ainda sejam marginais.
Ferreira faz uma distinção entre mundo digital e o mundo real. Ele explica que embora as redes sociais transmitam essa sensação de que o assunto é apenas esse, na prática, os brasileiros comentam sobre a guerra de forma superficial.
“Eu sempre falo sobre isso, pois as redes sociais, com seus debates acalorados e radicalizados, podem transmitir uma sensação de que ‘todo mundo só fala disso’, quando, na verdade, as pessoas comentam sobre o assunto no almoço com a mesma preocupação com que jogam sal na salada”, comenta o sociólogo.
O especialista destaca que a atenção da população só aumenta se houver impacto real no dia a dia, como preços de alimentos, café da manhã ou combustível, citando inclusive a possibilidade de “mísseis em Teerã” afetarem a economia local.
Percepção do eleitor
O cientista político observa que a polarização eleitoral no Brasil é intensa e que eleição pode ser decidida por uma margem estreita de votos. Eleitores de Flávio Bolsonaro já tendem a ter posição pró-americana, enquanto os de Lula se dividem entre aqueles que defendem alinhamentos multipolares, adeptos dos BRICS e os que pouco se interessam por temas internacionais.
Mudanças nas intenções de voto só seriam possíveis se crises internacionais tivessem efeitos concretos na economia do país, como ocorreu com a taxação norte-americana de 50% articulada por Eduardo Bolsonaro.
A percepção sobre o alinhamento externo do Brasil pode influenciar a avaliação dos candidatos. A popularidade de Lula, segundo o especialista, teve um impulso quando os eleitores perceberam que aproximações externas podem afetar diretamente a economia doméstica, colocando a importância das questões econômicas sobre os debates geopolíticos.
“O último bom momento de Lula foi justamente quando os eleitores perceberam que o alinhamento aos EUA geraria efeitos negativos para o emprego e a renda dos brasileiros”, enfatiza Ferreira.
Campanha política em 2026
Entre os assuntos que devem aparecer no debate eleitoral estão o papel do Brasil em blocos de poder, como BRICS, com atenção especial a China e Índia, além de acordos comerciais, como Mercosul e União Europeia. A disputa regional na América Latina também será tema relevante, já que existe uma polarização entre esquerda e direita no continente. Alinhamento ou não com Estados Unidos e Israel também entram em pauta.
O cientista político ainda ressaltou que esses temas refletem a forma como cada candidato apresenta suas credenciais internacionais e mantém o Brasil como destaque mundial, mais do que decisões imediatas de política externa. Para conquistar eleitores independentes e moderados, o especialista recomenda uma postura de pragmatismo e moderação.
“Lula vai querer provar que não é um inimigo dos EUA e que pode se relacionar com o mundo todo de forma pragmática, enquanto Bolsonaro irá querer provar que não é inimigo da China e que se relacionará com ela também de forma pragmática e levando em conta os interesses nacionais”, indica o sociólogo.

