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Economia

Crise no agro muda perfil do produtor; especialistas explicam como driblar desafios

Alta de custos, juros elevados e clima adverso pressionam rentabilidade e ampliam risco no campo

Crise no agro muda perfil do produtor; especialistas explicam como driblar desafios

A combinação de custos elevados, juros altos e instabilidade climática tem provocado uma mudança profunda no agronegócio brasileiro, afetando diretamente a rentabilidade dos produtores e o preço dos alimentos.

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Especialistas apontam que a crise atual não está ligada à capacidade de produção, mas ao desequilíbrio financeiro dentro da atividade rural.

Custos elevados e clima pressionam o campo

Segundo o especialista em comércio exterior e sócio da Saygo Comex, Ronaldo Félix, a crise no agronegócio é resultado de múltiplos fatores que se acumulam ao longo da cadeia produtiva.

Ele destaca, “o aumento nos preços de insumos, como fertilizantes e combustíveis, somado à elevação das taxas de juros e às variações cambiais, tem reduzido as margens dos produtores”.

Félix explica que eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e períodos de chuva excessiva, agravam ainda mais o cenário, dificultando o planejamento e aumentando os riscos da atividade.

Além disso, oscilações nos preços internacionais das commodities impactam diretamente a receita dos produtores.

Esse conjunto de fatores afeta não apenas quem produz, mas também o consumidor final, já que os custos mais altos tendem a ser repassados ao preço dos alimentos, pressionando a inflação.

Produção cresce, mas lucro diminui

O empreendedor e estrategista do agronegócio Luiz Burei afirma que o problema central está na redução da rentabilidade, mesmo com aumento da produção. “O produtor rural está produzindo mais, mas está lucrando menos”, destaca.

Ele explica que esse desequilíbrio financeiro cria uma situação de pressão constante sobre o caixa das propriedades.

“Em muitos casos, o produtor consegue vender a produção, quitar dívidas e pagar fornecedores, mas não mantém margem suficiente para sustentar o negócio no longo prazo”, afirma.

Burei ressalta que esse cenário tem levado ao aumento da inadimplência e de pedidos de recuperação judicial em diversas regiões do país, indicando um processo de fragilidade financeira no setor.

Crise vai além da produção

Para Burei, a situação atual não pode ser explicada apenas por fatores externos, como preços ou clima. Ele avalia que há um problema estrutural na forma como o agronegócio foi conduzido ao longo dos anos. “Isso não é uma crise de produção. É uma crise de gestão”, explica.

Ele argumenta que muitos produtores foram preparados para ampliar a produção, mas não desenvolveram ferramentas adequadas de gestão financeira. Esse modelo, segundo ele, deixa o setor mais vulnerável em momentos de instabilidade econômica.

A necessidade de tratar a propriedade rural como uma empresa passa a ser um ponto central para enfrentar o novo cenário, especialmente diante de margens mais apertadas.

Estratégias para enfrentar a instabilidade

Ronaldo Félix aponta que pequenos e médios produtores podem adotar medidas para reduzir riscos e aumentar a resiliência.

Entre as principais estratégias estão a diversificação de culturas, o uso de tecnologias para melhorar produtividade e a adoção de seguros agrícolas.

Ele também destaca a importância de instrumentos financeiros, como hedge de preços, que permitem proteger a renda contra oscilações de mercado. A formação de cooperativas é outra alternativa para ganhar escala e melhorar o poder de negociação”, finaliza.

O controle rigoroso de custos e o planejamento financeiro são apontados como essenciais para atravessar períodos de maior instabilidade.

Mudança no perfil do produtor rural

A transformação do setor exige uma mudança no perfil de quem atua no campo. Segundo Burei, a tomada de decisão baseada em dados passa a ser um diferencial competitivo. “Não é mais o que produz mais. É o que melhor decide”, afirma.

Ele destaca que o uso de tecnologia e a gestão financeira estruturada se tornam fundamentais para garantir sustentabilidade econômica.

O produtor precisa acompanhar indicadores, analisar custos e planejar investimentos de forma estratégica.

Essa mudança reflete um novo momento do agronegócio, em que eficiência e gestão passam a ter peso semelhante à produção.

Papel das políticas públicas no setor

Ronaldo Félix avalia que políticas públicas são fundamentais para reduzir riscos e fortalecer o agronegócio.

Ele destaca a necessidade de ampliar o acesso ao crédito rural com taxas mais acessíveis e incentivar o seguro agrícola com maior cobertura.

Outro ponto relevante é o investimento em infraestrutura logística, que pode reduzir custos de transporte e melhorar a competitividade do setor.

Programas voltados à inovação tecnológica e à adaptação climática também são considerados estratégicos.

Félix lembra que o agronegócio representa cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o que evidencia sua importância para a economia e a necessidade de políticas estruturantes.

Pressões externas elevam incertezas

O avanço de fatores internacionais e mudanças econômicas amplia o grau de complexidade na definição de custos empresariais, incluindo a folha salarial.

André Ricardo Passos, sócio-fundador do Passos e Sticca Advogados Associados, afirma que o cenário atual exige atenção redobrada das empresas.

“O cenário atual de aumento dos custos fiscais da Reforma Tributária, somado à elevação expressiva dos preços de fertilizantes e à pressão sobre o diesel causados pelo conflito EUA/Israel x Irã, acende um novo sinal de alerta e aumenta volatilidade do mercado em geral”, destaca.

Segundo ele, esse ambiente impacta diretamente decisões financeiras e exige maior rigor na gestão de contratos e investimentos.

Oscilações nos custos de insumos e energia já refletem no planejamento das empresas ligadas ao agronegócio e à cadeia produtiva mais ampla, o que pode afetar desde contratações até reajustes salariais.

Passos avalia que esse movimento tende a se prolongar. “A tendência é que esses impactos perdurem para a safra 26/27 que ainda está sendo semeada”, afirma.

Ele também aponta que mudanças geopolíticas e comerciais globais reforçam esse cenário de incerteza, exigindo das empresas maior previsibilidade financeira e estratégias mais conservadoras na definição de despesas fixas.

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