Produzir e investir no Brasil envolve custos que ultrapassam despesas com funcionários, matérias-primas e manutenção das empresas.
Juros elevados, complexidade tributária, problemas de infraestrutura, burocracia e mudanças regulatórias formam parte do chamado “Custo Brasil”, conjunto de obstáculos que afeta a competitividade das companhias nacionais diante de concorrentes de outras economias emergentes.
Para Marcelo Simonato, pós-graduado em Finanças pela Fundação Getulio Vargas (FGV), sócio e vice-presidente da Board Academy, a dificuldade para as empresas está relacionada à combinação de diferentes entraves acumulados ao longo de décadas.
Além dos custos financeiros e operacionais, as condições para planejar novos projetos também influenciam as decisões de empresários e investidores.
“O chamado ‘Custo Brasil’ é a soma de diversas ineficiências estruturais que, ao longo de décadas, tornaram produzir e empreender no país significativamente mais caro do que em outras economias emergentes”, contextualiza Simonato.
Mudanças nas regras dificultam planejamento empresarial
A carga tributária aparece entre os principais componentes associados ao custo de manter uma empresa no país, mas o volume de impostos não é o único problema enfrentado pelos negócios.
A complexidade das normas e as mudanças no ambiente regulatório dificultam a elaboração de estratégias de longo prazo.
Na avaliação de Simonato, empresas conseguem se organizar diante de custos conhecidos, mas encontram dificuldades quando não há segurança sobre as condições futuras para produzir e investir.
“Vejo que o maior obstáculo não é necessariamente o tamanho da carga tributária, mas a imprevisibilidade. O empresário consegue planejar quando conhece o cenário em que está envolvido, mas tudo se torna mais imprevisível e complicado quando é obrigado a conviver com alterações frequentes na legislação, interpretações divergentes entre órgãos públicos, judicialização constante e baixa previsibilidade regulatória”, avalia.
O Brasilianista mostrou que uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) identificou os principais obstáculos apontados por empresários industriais.
O pagamento de tributos foi citado por sete em cada dez entrevistados, enquanto 62% mencionaram dificuldades para contratar trabalhadores qualificados e 27% apontaram problemas relacionados ao financiamento dos negócios.
Crédito caro limita expansão dos negócios
O custo do capital representa outro obstáculo para companhias que precisam financiar máquinas, ampliar unidades ou desenvolver novos projetos.
Taxas de juros elevadas aumentam as despesas financeiras e podem levar empresas a adiar investimentos previstos.
O problema afeta principalmente negócios que dependem de recursos de terceiros para crescer. Companhias brasileiras também enfrentam concorrentes instalados em países onde as condições de financiamento permitem captar dinheiro a custos menores.
“Mesmo com o início do ciclo de redução da Selic, o Brasil continua convivendo com uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Isso encarece investimentos produtivos, restringe o acesso ao crédito e reduz a competitividade das empresas nacionais frente a concorrentes internacionais que captam recursos a custos muito inferiores”, detalha Simonato.
A diferença nas condições de financiamento se soma aos gastos necessários para cumprir obrigações tributárias, transportar mercadorias, obter licenças e solucionar disputas judiciais.
Para empresas que avaliam diferentes países para instalar operações, esses componentes fazem parte do cálculo sobre riscos e retorno do investimento.
Ambiente de negócios pesa na disputa por investimentos
O Brasil possui um mercado consumidor de grandes proporções, recursos naturais e setores com capacidade de competir internacionalmente.
O agronegócio e o sistema financeiro estão entre as áreas apontadas pelo especialista como vantagens do país diante de outras economias.
A disputa por investimentos internacionais, no entanto, também envolve a facilidade para abrir e operar empresas.
“Quando dois países oferecem oportunidades semelhantes, normalmente vence aquele que apresenta menor risco institucional, maior segurança jurídica e menor custo operacional”, considera Simonato.
Entre os efeitos dessa diferença estão a redução dos investimentos produtivos, menor expansão da indústria e dificuldades para ampliar as exportações de produtos com maior valor agregado.
O especialista também relaciona os entraves à geração de postos de trabalho qualificados e ao crescimento da economia abaixo de sua capacidade.
Indústria acumula custos de diferentes áreas
Os efeitos do “Custo Brasil” variam de acordo com a atividade econômica. Setores que precisam de grandes investimentos, infraestrutura logística e maior número de trabalhadores ficam mais expostos às dificuldades estruturais.
“Ela enfrenta simultaneamente custos elevados de financiamento, energia, transporte, tributação e complexidade regulatória, tornando difícil competir com produtos importados de países que operam em ambientes mais eficientes”, observa Simonato.
A construção civil também é afetada pelos juros e pelas exigências para aprovação e licenciamento de projetos. No varejo, o crédito mais caro limita a capacidade de consumo das famílias, principalmente na compra de bens duráveis.
Outras atividades conseguem reduzir parte dessas dificuldades por meio de ganhos de produtividade e escala. O agronegócio ampliou sua competitividade com investimentos em pesquisa e tecnologia, enquanto empresas exportadoras podem obter vantagens em períodos de desvalorização da moeda brasileira.
Gestão pode reduzir impacto sobre pequenas empresas
Parte dos problemas associados ao custo de produzir depende de mudanças estruturais e de decisões do poder público. Dentro das empresas, porém, medidas relacionadas à produtividade e à administração dos recursos podem reduzir a exposição aos custos elevados.
Simonato cita automação, digitalização, uso de inteligência artificial e acompanhamento de indicadores de desempenho entre as medidas disponíveis para melhorar a eficiência operacional.
A revisão de despesas e o controle financeiro também podem ajudar a preservar margens em períodos de maior instabilidade econômica.
“A boa governança reduz desperdícios, melhora a qualidade das decisões e aumenta a confiança de bancos, investidores e parceiros comerciais”, ressalta o especialista.
A diversificação de clientes, fornecedores e mercados representa outra forma de diminuir a dependência de determinadas fontes de receita ou abastecimento. O controle do capital de giro e do endividamento também ganha importância em períodos de crédito mais caro.

