O agronegócio brasileiro ampliou sua dependência da China nos últimos anos, com o país asiático absorvendo 29,3% das exportações totais do Brasil e liderando com folga como principal destino dos produtos agrícolas. As informações são do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC)
Entre janeiro e setembro de 2025, as vendas ao mercado chinês somaram US$ 75,5 bilhões, mesmo com queda de 1,3% em relação ao ano anterior, influenciada principalmente por recuos nos preços de commodities como minério de ferro e petróleo.
China sustenta exportações agrícolas
A China consolidou-se como principal destino das exportações agropecuárias brasileiras, absorvendo cerca de metade de todas as vendas externas do setor.
A diferença em relação ao segundo colocado é expressiva, com vantagem de dezenas de pontos percentuais, o que evidencia o grau de concentração desse mercado.
O produto mais relevante nessa relação é a soja, que atingiu volume recorde de 72,7 milhões de toneladas entre janeiro e setembro de 2025, com crescimento de 11% no período.
A oleaginosa respondeu por 38% de toda a pauta exportadora brasileira para a China, que absorveu 78% das exportações totais do produto.
Além da soja, a carne bovina também ganhou espaço, com faturamento de US$ 6 bilhões e crescimento de 46% no valor exportado.
O país asiático concentrou 53% das exportações brasileiras desse produto, reforçando sua posição como principal mercado para proteínas animais.
Mudanças na demanda afetam setores específicos
Apesar da liderança chinesa, houve alterações importantes na composição das exportações agrícolas. As vendas de carne de frango para a China caíram 41% em valor e 44% em volume, enquanto a carne suína registrou queda de 29% no faturamento.
Essas mudanças reposicionaram o país asiático no ranking de destinos, fazendo com que outros mercados, como Arábia Saudita e Japão, assumissem posições mais relevantes nas exportações de proteína animal.
O movimento altera a dinâmica de dependência e diversifica parcialmente os destinos das vendas brasileiras.
Ao mesmo tempo, produtos como celulose mantiveram crescimento, com aumento de 13,5% no valor exportado e participação de 47% da China como destino.
Esse padrão indica que, embora haja oscilações em segmentos específicos, o peso chinês permanece dominante na pauta exportadora.
Dependência de insumos reforça influência produtiva
A influência chinesa no agronegócio brasileiro não se limita ao destino das exportações, mas também se estende à base produtiva.
O Brasil importa 43% dos defensivos agrícolas utilizados no país da China, enquanto os Estados Unidos respondem por 18%.
No segmento de fertilizantes e químicos, essa dependência também é significativa. As importações de produtos químicos chineses cresceram 28%, atingindo US$ 10,4 bilhões, com destaque para herbicidas, que somaram US$ 1,17 bilhão.
A China respondeu por 69% dessas compras, segundo o CEBC. Essa estrutura evidencia que a produção agrícola brasileira depende diretamente de insumos chineses, o que cria uma relação de interdependência entre oferta e demanda.
Ao mesmo tempo, há espaço para competição com outros fornecedores, especialmente em áreas como maquinário agrícola, onde os Estados Unidos têm maior participação.
Investimentos chineses ampliam presença no setor
A atuação da China no agronegócio brasileiro também ocorre por meio de investimentos diretos em infraestrutura e produção. Entre 2023 e 2024, os investimentos chineses no Brasil somaram US$ 6,5 bilhões, o maior volume na América Latina.
Empresas chinesas atuam em diferentes etapas da cadeia produtiva, incluindo originação, armazenagem, processamento e exportação de grãos.
Um dos exemplos é a presença em terminais portuários estratégicos, como o Porto de Santos, que ampliam a capacidade logística para escoamento da produção agrícola.
Além disso, acordos bilaterais preveem investimentos de até R$ 27 bilhões entre 2025 e 2030 para mecanização da agricultura familiar, com foco em tecnologia, irrigação e energia renovável.
Esses projetos buscam aumentar a produtividade e integrar pequenos produtores às cadeias modernas de produção.
Pressão geopolítica pode afetar comércio agrícola
A crescente presença chinesa no agronegócio brasileiro ocorre em meio à disputa geopolítica com os Estados Unidos, que pode impactar diretamente o setor.
A aprovação da Seção 6705 pelo Congresso americano determina uma investigação sobre investimentos chineses no agro brasileiro.
O relatório avaliará aspectos como uso de terras, infraestrutura e cadeias produtivas, podendo servir de base para futuras restrições comerciais.
A medida cria incerteza sobre o acesso de produtos brasileiros ao mercado americano, especialmente aqueles ligados a capital chinês.
Esse cenário ocorre paralelamente à queda de 20% nas exportações brasileiras para os Estados Unidos em setembro de 2025, influenciada por tarifas aplicadas a produtos nacionais.
Integração global amplia efeitos sobre o setor
A escalada de tensões entre Irã e Estados Unidos voltou a gerar preocupação global, especialmente pelos impactos nas cadeias produtivas e no comércio internacional.
A instabilidade no Golfo Pérsico, região estratégica para o fornecimento de petróleo, aumenta a sensibilidade dos mercados a eventuais bloqueios logísticos e ações militares.
Segundo o especialista em negócios internacionais Beny Fard, a atuação iraniana combina negociação com pressão indireta, estratégia que se mantém desde a Revolução Islâmica de 1979 e se apoia no uso de aliados para ampliar influência sem confronto direto, como informou O Brasilianista.
Esse cenário amplia os riscos econômicos ao afetar o fluxo de insumos essenciais e pressionar custos globais.
Interrupções no fornecimento de petróleo tendem a elevar preços e impactar a inflação, enquanto a possível escassez de fertilizantes pode atingir diretamente o agronegócio em diferentes países.
Fard afirma que a continuidade de ações militares indiretas, como uso de drones e restrições ao escoamento de produção, pode intensificar o conflito e gerar efeitos em cascata nas cadeias produtivas, que hoje operam de forma altamente integrada em escala global.

