A insistência de Donald Trump em assumir o controle da Groenlândia está no centro das discussões internacionais desde que o presidente dos Estados Unidos afirmar que quer abrir “negociações imediatas” sobre a ilha localizada no Ártico. O território pertence ao Reino da Dinamarca, mas possui governo autônomo e tem rejeitado qualquer possibilidade de venda ou anexação.
O tema ganhou força depois de declarações feitas por Trump durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. O republicano afirmou que a Groenlândia é estratégica para a segurança americana e disse que os Estados Unidos teriam condições de “proteger, desenvolver e melhorar” a região. Apesar do discurso agressivo, ele declarou que não pretende recorrer à força militar.
Segundo a BBC, Trump também chegou a ameaçar países europeus com novas tarifas comerciais caso continuassem se opondo aos planos americanos para a Groenlândia. Dias depois, ele recuou após reuniões com integrantes da Otan e afirmou que houve avanço em um possível entendimento sobre os interesses dos EUA na ilha.
Por que a Groenlândia desperta interesse mundial?
A Groenlândia é a maior ilha do planeta e ocupa uma posição considerada estratégica entre a América do Norte e o Oceano Ártico. O território fica em uma rota importante para monitoramento militar e vigilância aérea, principalmente em um momento de aumento das tensões envolvendo Rússia e China no Ártico.
Os Estados Unidos mantêm presença militar na região desde a Segunda Guerra Mundial. Atualmente, o país opera a Base Espacial de Pituffik, antiga Base Aérea de Thule, utilizada para monitoramento de mísseis e sistemas de defesa.
A localização também ganhou importância com o derretimento do gelo no Ártico, que abre novas rotas marítimas e facilita o acesso a áreas antes isoladas. Especialistas avaliam que isso pode mudar o comércio internacional e ampliar disputas geopolíticas pela região.
Além da posição estratégica, a Groenlândia possui reservas minerais consideradas valiosas para a indústria de tecnologia e defesa. O território concentra minerais raros, urânio, ferro e possíveis reservas de petróleo e gás natural.
A corrida pelos minerais raros
O interesse americano na Groenlândia também está ligado à disputa internacional por minerais estratégicos. Esses materiais são usados na fabricação de baterias, carros elétricos, celulares, turbinas e equipamentos militares.
De acordo com a Euronews, a Groenlândia pode concentrar quase 20% das reservas mundiais de terras raras. O depósito de Kvanefjeld, um dos principais da ilha, reúne bilhões de toneladas de óxidos minerais considerados fundamentais para a indústria tecnológica.
Hoje, a China domina grande parte do processamento e exportação desses minerais no mundo. Estados Unidos e países europeus tentam reduzir essa dependência e buscam novas fontes de abastecimento.
Trump nega que o interesse americano esteja relacionado apenas aos recursos naturais, mas frequentemente cita a presença crescente da Rússia e da China no Ártico como motivo de preocupação para Washington.
Em uma publicação na rede Truth Social, o republicano afirmou: “A Otan vem dizendo à Dinamarca, há 20 anos, que ‘vocês precisam afastar a ameaça russa da Groenlândia’. Infelizmente, a Dinamarca não conseguiu fazer nada sobre isso. Agora é a hora, e isso será feito!!!”.
Tentativas antigas dos Estados Unidos
O interesse dos EUA pela Groenlândia não começou agora. Desde o século XIX, governos americanos estudam maneiras de ampliar influência sobre o território.
Conforme informações do National Geographic mostra que, ainda em 1868, autoridades americanas analisavam o potencial econômico da ilha por causa da pesca, da vida animal e das riquezas minerais. Na época, o então secretário de Estado William Seward chegou a cogitar a compra da Groenlândia após adquirir o Alasca da Rússia.
Durante a Guerra Fria, o território passou a ser visto como peça importante na defesa militar americana contra a União Soviética. Em 1946, os Estados Unidos chegaram a oferecer 100 milhões de dólares em ouro à Dinamarca pela Groenlândia, mas o governo dinamarquês recusou a proposta.
Anos depois, Washington manteve presença militar na região por meio de acordos firmados com a Dinamarca e com a Otan.
A reação da Dinamarca e dos moradores da ilha
As declarações de Trump provocaram reações negativas entre líderes europeus. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, afirmou que “A Europa não será chantageada” ao comentar as ameaças comerciais feitas pelos Estados Unidos.
Outros países europeus também criticaram a pressão americana. França, Alemanha, Reino Unido e integrantes da União Europeia defenderam que apenas a Dinamarca e a Groenlândia podem decidir o futuro do território.
O governo local também rejeita qualquer possibilidade de controle americano. O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens Frederik Nielsen, já classificou a ideia como uma “fantasia”.
Pesquisas indicam que parte dos moradores apoia uma futura independência em relação à Dinamarca, mas a maioria também rejeita virar território dos Estados Unidos.
Nos últimos meses, protestos foram registrados tanto na Groenlândia quanto em cidades dinamarquesas contra os planos defendidos por Trump.

