Mais de 4 mil produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos podem ficar sujeitos a uma tarifa acumulada de 37,5% caso o governo norte-americano adote duas novas medidas comerciais em discussão.
Segundo projeção da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 4.187 itens, equivalentes a US$ 14,9 bilhões em vendas brasileiras, estão expostos ao aumento da tributação.
Os produtos já estão submetidos à tarifa adicional temporária de 10%, prevista na Seção 122 da legislação comercial dos Estados Unidos e válida até 24 de julho.
Duas propostas podem acrescentar 27,5 pontos percentuais à cobrança: uma sobretaxa de 25% decorrente de uma investigação específica sobre o Brasil e outra de 12,5% relacionada ao combate ao trabalho forçado.
Caso as duas medidas sejam adotadas simultaneamente, a cobrança sobre os bens alcançados chegará a 37,5%.
Do total de produtos atingidos, 62% são bens intermediários utilizados como matérias-primas e insumos por diferentes segmentos produtivos.
Ferro-gusa, açúcar e madeira estão entre os itens atingidos
A relação apresentada pela CNI inclui ferro-gusa não ligado, açúcar de cana bruto, sebo não comestível, álcool etílico não desnaturado, molduras de madeira de pinho, tabaco processado, peptonas e seus derivados, compensado de pinus, granito, estacas e postes de madeira e hidróxido de alumínio.
Em 11 categorias incluídas no levantamento, o Brasil ocupa a posição de principal fornecedor do mercado norte-americano. A maior participação aparece no compensado de pinus, produto para o qual o país responde por 99,6% das importações realizadas pelos Estados Unidos.
A dependência norte-americana também é elevada em outros segmentos. Os produtos brasileiros representam 73,3% das importações de ferro-gusa não ligado, 72,3% das compras de álcool etílico não desnaturado e 72% das aquisições de tabaco curado por fumaça ou processado.
O Brasil ainda fornece 59,4% das molduras de madeira de pinho compradas pelos norte-americanos, 57,8% das estacas, paliças, postes e trilhos de madeira, 52,9% do açúcar de cana bruto em forma sólida e 48,9% do granito monumental ou utilizado na construção.
Empresas dos EUA pedem exclusão de mercadorias brasileiras
Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay enviaram manifestações ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) contra a aplicação das tarifas adicionais a determinados produtos brasileiros.
As companhias argumentam que as medidas podem afetar cadeias produtivas, elevar custos e atingir consumidores norte-americanos.
A Tesla pediu a exclusão de insumos industriais brasileiros. A montadora afirmou que determinados materiais necessários aos setores de veículos elétricos, baterias e robótica ainda não podem ser produzidos nos Estados Unidos na quantidade e com as características exigidas pelas empresas.
A Nestlé solicitou a inclusão do café solúvel não aromatizado e do colágeno bovino entre os produtos isentos.
A empresa argumentou que o café não pode ser cultivado comercialmente em larga escala na parte continental dos Estados Unidos e que a produção norte-americana de colágeno não atende à demanda.
A Coca-Cola pediu a manutenção da isenção do suco de laranja brasileiro e a inclusão do limão e de seus derivados.
Já o eBay defendeu uma exceção para produtos usados e seminovos, sob o argumento de que a cobrança atingiria revendedores e consumidores sem produzir efeitos sobre os fabricantes originais.
Café, carnes e itens aeronáuticos estão entre as exceções
Como explicou O Brasilianista, as propostas apresentadas pelos Estados Unidos não alcançam todos os produtos vendidos pelo Brasil.
Café, algumas carnes, frutas, cereais, fertilizantes, medicamentos, minerais estratégicos e parte dos itens relacionados ao setor aeroespacial estão entre as mercadorias excluídas das medidas.
A tarifa de 12,5% está relacionada a uma investigação sobre mecanismos de combate à importação de produtos fabricados com trabalho forçado. O Brasil foi incluído em um grupo de 53 países alcançados pela proposta norte-americana.
A segunda medida prevê uma cobrança adicional de 25% especificamente sobre mercadorias brasileiras.
A investigação foi iniciada em julho de 2025 e envolve temas como comércio digital, propriedade intelectual, tarifas preferenciais, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e políticas ambientais.
Entre os produtos alcançados pela proposta de 25% estão máquinas e equipamentos, madeira e manufaturados e itens elétricos. A investigação também fez referência ao Pix, sob o argumento de que o sistema brasileiro de pagamentos poderia afetar empresas norte-americanas que atuam no mesmo segmento.
Tarifas podem alcançar mais da metade das vendas aos EUA
Segundo O Brasilianista, uma projeção anterior da CNI calculou que 54,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos poderiam ficar submetidas a alguma medida tarifária caso as propostas sejam confirmadas.
A simulação considerou que 31,6% das vendas poderiam enfrentar a tarifa acumulada de 37,5%, enquanto 3,6% ficariam sujeitas à cobrança de 12,5%.
Outros 18,9% dos produtos já são alcançados por medidas setoriais relacionadas à Seção 232 da legislação comercial norte-americana.
O economista e CEO da A&S Partners, Wagner Moraes, afirmou que os efeitos podem variar conforme a dependência de cada segmento em relação aos compradores norte-americanos. Sobre o ferro-gusa, um dos produtos incluídos na relação, ele declarou:
“Os Estados Unidos são um comprador relevante desse produto e uma tarifa de 37,5% altera substancialmente a competitividade do exportador brasileiro”.
As novas cobranças ainda não estão em vigor. As audiências públicas sobre as propostas ocorrem em Washington, e a expectativa é de uma decisão sobre a investigação específica contra o Brasil até 15 de julho.
A tarifa temporária de 10% atualmente aplicada aos produtos alcançados pela projeção da CNI permanece válida até 24 de julho.
Quais são os principais produtos brasileiros que podem ser taxados em 37,5%
Entre os 4.187 produtos o levantamento destacou 11 categorias nas quais o país ocupa a posição de principal fornecedor do mercado norte-americano:
- Ferro-gusa não ligado;
- Açúcar de cana em forma sólida e bruto;
- Sebo não comestível;
- Álcool etílico não desnaturado;
- Molduras de madeira padrão de pinho;
- Tabaco curado por fumaça ou processado;
- Peptonas e seus derivados;
- Compensado de pinus;
- Granito monumental ou utilizado na construção;
- Estacas, paliças, postes e trilhos de madeira;
- Hidróxido de alumínio.

