A discussão sobre o fim da escala 6×1 ultrapassou as redes sociais e começou a ocupar espaço no debate político para as eleições de 2026. O tema, que envolve jornadas de seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso, passou a mobilizar trabalhadores de setores como comércio, serviços e logística, além de entrar na agenda de projetos em tramitação no Congresso Nacional.
Especialistas ouvidos exclusivamente pelo O Brasilianista avaliam que o assunto tem potencial para mobilizar parte do eleitorado, principalmente trabalhadores do comércio, serviços, logística e setores que convivem com jornadas consideradas mais desgastantes.
Para Marcos Poliszezuk, sócio fundador do Poliszezuk Advogados, a discussão cresceu após trabalhadores passarem a compartilhar nas redes sociais relatos semelhantes sobre cansaço físico e emocional.
“A percepção de que o sistema atual compromete a saúde e o tempo de descanso pode tornar o tema um dos elementos de discussão durante a campanha”, declarou.
Ele observa que o debate também acompanha uma mudança de comportamento em relação ao equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Segundo ele, questões ligadas à saúde mental e ao tempo de descanso passaram a ter maior peso principalmente entre trabalhadores mais jovens.
A advogada trabalhista Juliana Augusto Alcantara Castilho avalia que a pandemia ajudou a ampliar essa discussão. Para ela, a experiência do home office e as mudanças na rotina fizeram muitas pessoas repensarem a relação com o trabalho.
“O debate acerca da escala 6×1 ganhou força por atualmente existir uma discussão sobre o esgotamento físico e emocional entre os trabalhadores”, afirmou.
Para Juliana, as redes sociais tiveram papel importante ao aproximar trabalhadores que viviam situações parecidas. Na avaliação dela, o tema deixou de ser apenas uma discussão trabalhista e passou a envolver também aspectos sociais e emocionais.
Tema pode ganhar espaço eleitoral
Embora assuntos como economia e segurança pública tradicionalmente dominem campanhas eleitorais, especialistas apontam que pautas relacionadas às condições de trabalho costumam ganhar relevância quando atingem diretamente a rotina da população.
Poliszezuk lembra que propostas ligadas a emprego, renda e qualidade de vida frequentemente aparecem entre as principais preocupações dos brasileiros. Ele considera que o impacto eleitoral da escala 6×1 dependerá da forma como o tema será apresentado pelos candidatos.
“Não é possível, neste momento, afirmar com segurança se a pauta alcançará centralidade, mas os elementos objetivos sugerem que o tema dificilmente passará despercebido”, comentou.
Juliana Castilho também acredita que o assunto reúne características que costumam ganhar força em períodos eleitorais. Segundo a advogada, trabalhadores que convivem com jornadas intensas tendem a prestar mais atenção em discursos ligados ao tema.
“Jornada de trabalho é um tema que conversa diretamente com a vida pessoal e quanto o trabalhador sente que está exausto e se vê sem tempo para o convívio familiar, estudar ou até descansar, naturalmente passa a prestar atenção em quem fala sobre isso”, pontua.
Os especialistas apontam que jovens entre 18 e 34 anos estão entre os grupos mais envolvidos na discussão. Trabalhadores de supermercados, restaurantes, lojas, telemarketing e logística aparecem entre os mais afetados pela escala 6×1.
Mulheres que acumulam responsabilidades domésticas e profissionais também fazem parte dos grupos mais impactados pelo modelo atual de jornada, segundo os especialistas.
Saúde mental entra no centro da discussão
Além do aspecto político, o debate sobre a escala 6×1 passou a incorporar discussões relacionadas à saúde emocional no ambiente de trabalho. Juliana Castilho cita as atualizações recentes da NR-1, norma voltada à saúde e segurança ocupacional, que passaram a incluir atenção aos chamados riscos psicossociais.
Segundo ela, temas como estresse excessivo, ansiedade e exaustão emocional ganharam maior relevância dentro das empresas: “Muitas pessoas passam a enxergar a rotina profissional como algo que compromete não só a saúde física, mas também a saúde emocional”.
Poliszezuk também menciona estudos que associam jornadas intensas ao aumento de problemas como insônia, transtornos ansiosos e dores crônicas. Para ele, o desgaste contínuo pode alterar a forma como trabalhadores enxergam tanto o mercado de trabalho quanto a própria política.
O debate também provoca preocupação entre empresários e setores produtivos. Os especialistas observam que mudanças amplas na jornada poderiam elevar custos operacionais, principalmente em áreas que dependem diretamente de mão de obra.
Juliana Castilho cita possíveis impactos como aumento da informalidade, dificuldades para pequenas empresas e avanço de processos de automação. Já Poliszezuk destaca que experiências internacionais mostram resultados diferentes dependendo da forma como as mudanças são implementadas.
Atualmente, propostas sobre redução da jornada já estão em discussão no Congresso Nacional. Entre elas estão projetos que tratam da diminuição da carga horária semanal e da ampliação dos períodos de descanso sem redução salarial.

