Cuba está disposta a conversar e negociar mudanças em sua economia e governo, no contexto de aumento das tensões entre o país e Estados Unidos. Porém, acredita que os americanos não estão participando das conversas de boa fé, informou o embaixador de Cuba ma ONU, Ernesto Soberón Guzmán ao The New Tork Times.
“Cuba está disposta a conversar sobre tudo com os Estados Unidos. Não há assuntos tabus em nossa conversa. Baseada, como eu disse, na reciprocidade e na igualdade”, disse Guzmán.
Contudo, reiterou que declarações constantes do presidente Donald Trump indicando que os EUA estão “prontos para tomar Cuba” não incentiva um diálogo e confiança. Em sua percepção, os americanos estariam criando diferentes pretextos para uma agressão militar contra a ilha.
Na última quarta-feira (20), procuradores dos EUA acusaram formalmente o ex-presidente cubano Raúl Castro, irmão de Fidel Castro e talvez ainda a figura mais poderosa do país, de assassinato e conspiração para matar cidadãos americanos em conexão com a queda de dois aviões operados por um grupo de ajuda humanitária em 1996.
Relacionamento difícil entre EUA e Cuba
Estados Unidos e Cuba estão em conflito há séculos, desde o fim da Guerra Hispano-Americana, em que EUA derrotaram a Espanha e ocuparam militarmente o território da ilha. Na ocasião, impuseram a Emenda Platt à primeira constituição de Cuba, o que dava o direito dos americanos intervirem militarmente na ilha a qualquer momento.
Mesmo após revogação dessa emenda, os EUA seguiram controlando indiretamente Cuba, em especial pelo uso da Base Naval da Baía de Guantánamo, onde os americanos possuem até hoje uma prisão de segurança máxima, para deter suspeitos de terrorismo.
Desde 1959, com a Revolução Cubana e adoção do socialismo pelo governo de Fidel Castro, Cuba rompeu com os EUA, que aplica há quase 70 anos um embargo econômico. Washington aumentou a intensidade da pressão econômica e bloqueou o fornecimento de hidrocarbonetos para a ilha.
A região também se tornou alvo de Trump desde seu primeiro mandato, entre 2017 e 2021, visto que Cuba já teve a política de abertura aplicada por Barack Obama e revertida pelo republicano. Recentemente, conforme mostrou O Brasilianista, o presidente norte-americano disse que “teria a honra de tomar Cuba”.
Após a queda de Nicolás Maduro na Venezuela, o país ainda passa por uma grave crise energética e de alimentos, depois de um decreto assinado por Trump autorizar tarifas contra todos os países que forneçam ou vendam petróleo para a ilha.
Sem petróleo, o país não consegue suprir a demanda de energia e combustível necessária para a população. O país ainda luta contra a escassez de alimentos e medicamentos.
Posição histórica do Brasil no conflito
A Revolução Cubana coincidiu com o governo de João Goulart no Brasil, conhecido como Jango. Na época, ele prometia grandes reformas sociais e econômicas que causavam medo aos conservadores, especialmente no contexto da Guerra Fria.
Para os EUA, o medo era de que o Brasil, um dos países de maior importância estratégica dos norte-americanos na América Latina, se tornasse um regime comunista. O presidente estadunidense John F. Kennedy chegou a implementar, na época, um projeto de expansão capitalista e do desenvolvimento da democracia liberal. Chamado de Aliança para o Progresso, o plano previa, concessão de empréstimos, impulso à industrialização e crescimento dos investimentos sociais.
Mesmo com um arrefecimento desse plano após o assassinato de Kennedy, em 1963, o medo de que o Brasil tivesse regime similar à Cuba se assolava pelo país. Jango apoiava a reforma agrária e trabalhista, além do regime e revolução de Cuba. Essa crise política em meio à Guerra Fria e oposição dos EUA a uma nova proposta de governo culminou no golpe militar de 1964, iniciando a Ditadura Militar no Brasil.
Após a redemocratização, os primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mostraram maior proximidade do presidente e Fidel Castro, que afirmavam ser amigos. Os mandatos de Dilma Roussef (PT) também apresentaram inclinação favorável a uma abertura do embargo dos EUA sobre Cuba.
Neste ano, após o aumento das tensões novamente, o presidente Lula afirmou que o país é contra qualquer ataque dos Estados Unidos contra Cuba, considerando uma “vergonha mundial” o posicionamento dos americanos.
“Eu serei contra a invasão de Cuba como fui contra a da Venezuela, a da Ucrânia, a de Gaza, a do Irã. Sou contra a falta de respeito à integridade territorial das nações. Sou contra qualquer país do mundo se meter a ter ingerência política de como a sociedade de um país deve se organizar ou não. Cadê a autodeterminação dos povos?”, disse em evento na Alemanha.
México e Venezuela impedidos de ajudar
O México, um dos principais fornecedores de petróleo de Cuba, foi ameaçado de sanções dos EUA caso não interrompesse o envio da commodity.
A Venezuela, desde a tomada por Washington, também está impedida de negociar com a ilha. Para Trump, seu secretário de Estado, Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos e favorável ao embargo, deveria se tornar presidente do país.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, já afirmou que estaria disponível para ajudar na comunicação e negociação dos países, se necessário.
Pressão dos EUA no Irã e Groenlândia
Os EUA não pressionam somente Cuba. A guerra no Oriente Médio, contra o Irã, inclusive tira o foco de uma intervenção militar na ilha.
No entanto, Teerã tem respondido firmemente às negociações de paz ao afirmar que não deve parar seu desenvolvimento nuclear. A demora em firmar um acordo com o Irã tem custado caro à Trump, visto que os estadunidenses estão cada vez mais insatisfeitos com o aumento do preço dos combustíveis e gastos públicos com armamentos.
Ainda, o republicano está perdendo espaço entre o próprio eleitorado conservador. Como mostrou O Brasilianista, as eleições de meio mandato dos EUA podem ser prejudicadas se a guerra persistir. O México pode se tornar um alvo novamente do discurso trumpista para reconquistar seus apoiadores.
Outra região que enfrenta pressões americanas é a Groenlândia. Essa é a maior ilha do planeta e ocupa uma posição considerada estratégica entre a América do Norte e o Oceano Ártico, especialmente na perspectiva militar e de defesa. Trump alega que deseja obter controle total do território, ao mesmo tempo em que as tensões aumentam com a Rússia e China no Ártico.
Além da posição estratégica, a Groenlândia possui reservas minerais consideradas valiosas para a indústria de tecnologia e defesa. A posse dessa área garantiria poder relevante e estratégico ao governo americano.

