O iFood reconheceu nesta quarta-feira (03) um vazamento de dados de cerca de 2% da sua base de dados, o equivalente a aproximadamente 1,2 milhão de pessoas.
O evento envolveu dados cadastrais, como nome e CPF, sem qualquer comprometimento de senhas ou credenciais de acesso às contas.
A empresa negou a informação de que 43 milhões de dados de usuários teriam sido vazados. Em nota, o iFood alega que, após sucessivas análises, foi identificado que o material disponibilizado na internet se refere a um incidente isolado, ocorrido em dezembro de 2025, e que foi “rapidamente neutralizado pelos protocolos de segurança”.
“O iFood lamenta o ocorrido e reforça para os usuários que todas as comunicações são feitas somente pelos canais oficiais da plataforma. A segurança da nossa comunidade é prioridade e seguimos atuando em estrita conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) para aprimorar constantemente nossos sistemas”, alegou em nota.
O Brasilianista questionou a empresa o motivo da demora no anúncio do vazamento de dados. Em resposta, a companhia afirmou que o incidente foi tratado e avaliado em “estrita conformidade com a legislação, que dispensa o reporte e comunicação quando o evento não acarreta risco ou dano relevante aos titulares, de acordo com os critérios regulatórios definidos pela ANPD”.
Quais os impactos para usuários?
Ricardo Maffeis advogado especialista em Proteção de Dados e Direito Digital, sócio do escritório Maffeis Advocacia, explicou em entrevista exclusiva à O Brasilianista, alivia as preocupações ao indicar que o cenário seria pior se as credenciais fossem vazadas. Isso porque muitas pessoas utilizam praticamente o mesmo login e senha em várias plataformas.
“Eu coloco o meu e-mail e aquela senha padrão. Ou, às vezes, até uma senha difícil, mas eu repito ela no iFood, na Amazon, no Mercado Livre, na Shopee, na Casas Bahia, na Sky, na Claro, etc. Então, quando há vazamento, uma quebra de credencial, as pessoas conseguem acessar mais coisas. Elas acessam os dados do iFood, porque elas podem entrar lá e ver, já que eles teriam o credencial, ver tudo que tem no site do iFood, mas poderia arriscar essa mesma senha em outros e o prejuízo ser muito maior”, afirma.
Segundo ele, é menos problemático para os usuários o vazamento apenas do nome e CPF, visto que são informações muito mais abertas e divulgadas do que informações de credenciais, por exemplo.
No entanto, mesmo outros dados como número de telefone, e-mails e histórico de entrega — considerados mais simples do que senhas —, poderia gerar um impacto preocupante. Com essas informações, uma pessoa com os dados poderia saber onde o usuário mora, como ele se comunica, os principais dados de comunicação, e isso facilita os golpes de engenharia social.
Ou seja, aquele golpe em que o usuário afirma ser do banco, corretora, plano de saúde, operadora de telefone, entre outros, “confirmando” informações pessoais.
“Isso dá muita segurança para as pessoas, porque quando a pessoa que está entrando em contato, ela tem todos esses dados, isso leva muitas pessoas a acreditarem que é algo sério, e passar informações novas, clicar em links suspeitos, aceitar fazer a operação que vai, em tese, salvar a conta, recuperar o acesso, etc., e acaba, na verdade, dando acesso, instalando algum vírus no computador da pessoa”, explica Maffeis.
Empresas dentro do app podem se prejudicar?
Para os restaurantes cadastrados no aplicativo de delivery, o maior risco é um abalo na reputação dessa empresa. Contudo, em geral, esse não é um problema que deve agravar nas vendas, comenta o especialista.
“O que pode impactar, credibilidade principalmente, é se nesses golpes de engenharia social, alguém ligar e falar assim: ‘Você pediu uma paella no dia 2 de junho no restaurante X, certo?’ A pessoa vai confirmar que pediu e, na verdade, o golpista teve acesso a isso não por culpa do restaurante, das empresas cadastradas no iFood, do mercado que fez a entrega, etc. Mas ela teve acesso a isso pelo vazamento do próprio iFood”, afirma.
Ainda que raro, a maior possibilidade desse caso é de um usuário se revoltar contra uma empresa que tenha sido mencionada nesse possível golpe.
Medidas cabíveis para o iFood
Para o iFood, o advogado menciona que é importante buscar as autoridades policiais. Sendo invasão ou somente um problema no sistema, a empresa precisa indicar que foi vítima do vazamento e buscar os responsáveis pelos danos. Afinal, o prejuízo não acontece somente na base de dados, mas para a marca e sua reputação.
Já em relação aos usuários que se sentirem prejudicados, é possível processar o iFood pelo vazamento de seus dados.
“A grande questão é, o usuário consegue provar que seu dado vazou graças ao vazamento do AirFood? Ou será que esses dados que vazaram daquela pessoa não podem ter sido dos inúmeros vazamentos que a gente já teve no Brasil? Fica nessa questão, se o prejudicado conseguir provar que teve prejuízo, primeira coisa, e segunda coisa, que o prejuízo foi devido àquele vazamento, pode sim processar e pedir reparação de danos morais e materiais que eventualmente ela consiga provar”, afirma o especialista.

