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Entrevistas

Brasil ainda não está pronto para uma guerra cibernética, aponta especialista

Diferenças na capacidade de proteção entre setores, ampliam riscos contra serviços públicos e empresas

Brasil ainda não está pronto para uma guerra cibernética, aponta especialista

O Brasil ampliou sua capacidade de proteção contra ataques digitais nos últimos anos, principalmente nos setores financeiro, de telecomunicações e em parte da área de energia.

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A diferença entre o nível de segurança de empresas, órgãos públicos e fornecedores, no entanto, mantém vulnerabilidades que podem ser exploradas em uma ofensiva coordenada contra serviços essenciais do país.

Para Ataíde Júnior, diretor de Segurança da Informação (CISO) da IPV7, ecossistema de empresas de tecnologia com foco em cibersegurança, o avanço das estruturas de proteção não ocorreu de maneira uniforme.

“No entanto, afirmar que o país está preparado para enfrentar um grande ataque coordenado contra infraestruturas críticas seria um exagero. Existe uma diferença muito grande entre o nível de maturidade dos diversos setores”, avalia Ataíde.

Fornecedores podem abrir caminho para invasões

A dependência crescente de sistemas digitais ampliou os pontos que podem ser explorados por criminosos ou grupos ligados a governos estrangeiros.

Serviços em nuvem, acessos remotos, dispositivos conectados e programas antigos passaram a integrar redes responsáveis por atividades essenciais.

Nesse ambiente, o alvo inicial de uma ofensiva nem sempre é a organização responsável pelo serviço que os invasores pretendem atingir.

Empresas menores, prestadores terceirizados e instituições com sistemas menos protegidos podem ser usados para chegar a estruturas com maior relevância.

“Essa diferença de maturidade cria um efeito dominó: muitas vezes o invasor não busca atacar diretamente a infraestrutura principal, mas sim um fornecedor ou um ambiente menos protegido para alcançar o alvo final”, contextualiza Ataíde.

Levantamento publicado pela Convergência Digital mostrou que organizações governamentais foram os principais alvos de campanhas cibernéticas no mundo em 2025.

Foram identificadas 274 operações contra instituições das esferas federal, estadual e municipal, diante de 211 no setor financeiro e 179 na área de tecnologia.

Ataques podem interromper serviços essenciais

Uma guerra cibernética envolve operações destinadas a comprometer a capacidade de funcionamento de um país.

Diferentemente de invasões realizadas exclusivamente para obter dinheiro ou roubar informações, essas ações podem atingir estruturas ligadas ao cotidiano da população e à atividade econômica.

Entre os possíveis alvos estão redes elétricas, hospitais, bancos, aeroportos, portos, sistemas de telecomunicações, órgãos governamentais e estruturas de abastecimento de água.

“Quando falamos em guerra cibernética, muitas pessoas imaginam apenas ataques contra computadores. Na prática, trata-se de operações altamente planejadas cujo objetivo é comprometer a capacidade operacional de um país, afetando serviços essenciais, infraestrutura crítica, economia e até a confiança da população nas instituições”, detalha o especialista.

Casos internacionais mostram alcance das ofensivas

Ataques registrados nas últimas décadas demonstraram que invasões digitais podem ultrapassar os computadores e provocar consequências sobre serviços utilizados pela população.

Redes de energia, hospitais, empresas e instituições governamentais já estiveram entre os alvos.

Conteúdo da Fortinet registra que o ataque WannaCry atingiu mais de 200 mil computadores em 150 países em 2017.

No mesmo ano, o NotPetya começou na Ucrânia, espalhou-se para empresas de outros países e provocou mais de US$ 10 bilhões em prejuízos.

A digitalização crescente aumenta a quantidade de sistemas que podem ser explorados em uma ofensiva. Para Ataíde, a dependência tecnológica permite que interrupções relativamente curtas produzam efeitos sobre diferentes atividades.

“Em muitos casos basta interromper serviços essenciais por algumas horas para provocar enormes prejuízos financeiros, atrasar cadeias logísticas, dificultar pagamentos, comprometer comunicações e afetar diretamente a rotina da população”, observa.

Falhas básicas ainda facilitam ataques no país

A sofisticação das ameaças não significa que todas as invasões dependam de técnicas avançadas. Problemas relacionados a senhas, atualizações de programas e controle de acessos continuam entre as principais vulnerabilidades encontradas nas organizações.

45,2% dos ataques registrados no país começam com falhas de software, configurações inadequadas ou problemas de identidade. Outros 26,2% envolvem credenciais válidas, o que faz com que os dois mecanismos estejam presentes em mais de 70% das invasões.

O problema também aparece na capacidade de recuperação após um incidente. Apenas 23% das organizações analisadas possuem processos estruturados para manter as operações depois de um ataque, enquanto parte dos planos existentes está desatualizada ou não considera os riscos enfrentados pelas empresas.

“Hoje nenhuma organização deve partir do princípio de que nunca será atacada. O cenário mais realista é assumir que tentativas ocorrerão diariamente. O diferencial está na capacidade de detectar rapidamente, conter o incidente, responder de forma organizada e recuperar a operação com o menor impacto possível”, ressalta Ataíde.

Prefeituras e hospitais expõem efeitos das invasões

Ataques contra instituições públicas podem comprometer recursos financeiros e afetar a prestação de serviços.

Municípios, hospitais e outras organizações que armazenam informações pessoais passaram a enfrentar episódios com impactos sobre operações e dados.

Pelo menos sete prefeituras de Goiás foram vítimas de ataques entre 2024 e 2026, com prejuízos que somaram quase R$ 8 milhões.

Em alguns episódios, os criminosos acessaram contas bancárias durante a noite e transferiram recursos por meio de Pix em poucos minutos.

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu um processo contra uma organização social após um ataque do tipo ransomware comprometer informações de aproximadamente 500 mil pacientes.

Entre os registros estavam nomes, datas de nascimento, históricos de exames, prontuários e diagnósticos. O episódio atingiu dados de 78.772 crianças e adolescentes e de 47.921 idosos, enquanto a investigação apura as medidas de segurança adotadas pela instituição.

Empresas menores também entram na mira

A ideia de que apenas grandes companhias despertam o interesse dos criminosos pode levar organizações menores a investir menos em proteção.

Além de possuírem dados e recursos financeiros, esses negócios podem manter relações comerciais e acessos a sistemas de empresas de maior porte.

Para reduzir os riscos, Ataíde cita medidas como manter programas atualizados, utilizar autenticação multifator, realizar cópias de segurança testadas e limitar o acesso dos funcionários aos recursos necessários para suas atividades.

“Existe uma percepção equivocada de que apenas grandes empresas são alvo de criminosos. Pequenas e médias empresas costumam ser atacadas justamente porque, em muitos casos, possuem estruturas de segurança mais limitadas e acabam funcionando como porta de entrada para ataques contra organizações maiores”, alerta.

A preparação também envolve definir previamente como a empresa deverá agir durante uma invasão. Sem um plano de resposta, decisões sobre sistemas prioritários, comunicação com clientes e contato com órgãos reguladores precisam ser tomadas durante a crise.

Inteligência artificial torna golpes mais convincentes

Para os usuários, os ataques exploram cada vez mais o comportamento humano. Mensagens falsas, pedidos urgentes e contatos que simulam empresas ou pessoas conhecidas podem ser usados para obter senhas, informações bancárias e acesso a dispositivos.

O especialista recomenda senhas diferentes para cada serviço, autenticação em dois fatores e atualização dos aparelhos.

Solicitações financeiras devem ser confirmadas por outro canal, enquanto a exposição de informações pessoais nas redes sociais pode fornecer elementos para a elaboração de golpes.

“Além disso, a inteligência artificial já está tornando golpes mais sofisticados. Hoje criminosos conseguem produzir e-mails, mensagens, ligações, imagens, vídeos e até simulações de voz extremamente convincentes, dificultando ainda mais a identificação das fraudes”, alerta o especialista.

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