O possível retorno do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026 acende um alerta para o agronegócio brasileiro em um momento de desafios adicionais no cenário internacional.
A probabilidade de ocorrência do fenômeno entre junho e julho é de 62%, chegando a 80% a partir de agosto. Além dos impactos sobre a produção agrícola, especialista avalia que os efeitos podem atingir exportações, preços e o desempenho da economia brasileira, especialmente diante das novas estratégias comerciais da China e das mudanças nas relações comerciais com os Estados Unidos.
Para Carlos Eduardo Freitas Viana, professor do Departamento de Economia, Sociologia e Administração da Esalq-USP, delegado do Corecon em Piracicaba e membro do Fórum de Agronegócio do Corecon-SP, o setor vem convivendo com uma sucessão de adversidades climáticas nos últimos anos.
Alterações climáticas preocupam produtores rurais
Como mostrou O Brasilianista, o El Niño tende a provocar mudanças significativas nos regimes de chuva em diferentes regiões do país.
No Sul, a expectativa é de aumento das precipitações justamente durante períodos importantes para o desenvolvimento de culturas de inverno, enquanto áreas do Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste podem enfrentar redução das chuvas e estiagens mais prolongadas.
“Se a gente pegar de 2020 para cá, nós tivemos períodos de geada, tivemos períodos de calor mais intenso, períodos de seca mais fortes em algumas regiões, tivemos o evento de chuvas extremas também em alguns lugares. Então, sim, o agronegócio teve o seu risco econômico aumentado nos últimos anos por conta dessas variações climáticas”, destaca.
O excesso de chuva pode comprometer etapas importantes do ciclo produtivo, como floração, enchimento de grãos e maturação.
Estados como Rio Grande do Sul e Santa Catarina registraram elevada probabilidade de produtividade abaixo da média em culturas como trigo e aveia durante episódios anteriores do fenômeno.
Nas regiões mais sujeitas à seca, a preocupação está relacionada à menor disponibilidade hídrica e ao aumento da frequência de veranicos durante a primavera e o verão.
O cenário pode afetar principalmente o desenvolvimento inicial de lavouras de soja e milho, além de elevar os riscos para sistemas produtivos dependentes exclusivamente das chuvas.
Reflexos podem ultrapassar o campo
Como O Brasilianista informou, os impactos do El Niño não costumam ficar restritos às lavouras. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta que alterações nos calendários agrícolas, redução da umidade do solo, enchentes e aumento do estresse térmico sobre culturas e rebanhos podem gerar efeitos econômicos mais amplos em toda a América Latina.
“O agronegócio é um dos setores mais importantes e nós temos visto nos últimos tempos que os riscos relacionados às questões climáticas têm aumentado. Isso tem um potencial para afetar os preços dos alimentos e afetar também o PIB do país e o PIB do agro propriamente dito”, afirma.
O especialista indica que secas e eventos climáticos extremos respondem por grande parte dos prejuízos registrados no setor agrícola latino-americano.
Em países com forte dependência do agronegócio, oscilações na produção costumam repercutir sobre preços, geração de renda e arrecadação.
No caso brasileiro, a dimensão territorial amplia os desafios. Enquanto algumas regiões podem enfrentar excesso de chuvas e dificuldades logísticas, outras podem sofrer com calor intenso e irregularidade hídrica, criando cenários distintos para produtores e cadeias produtivas.
“A agricultura tem ciclos longos, então quando acontece algo assim os preços demoram às vezes um pouco mais para se restabelecerem em patamares um pouco mais baixos”, explica.
Estratégia chinesa muda perspectivas para exportadores
Os efeitos climáticos acontecem em um momento de mudanças relevantes no principal mercado comprador de produtos agropecuários brasileiros.
A China aprovou o 15º Plano Quinquenal para o período entre 2026 e 2030, estabelecendo a segurança alimentar como prioridade estratégica de Estado.
O plano prevê investimentos em biotecnologia, inteligência artificial, automação agrícola, melhoramento genético e modernização da produção rural.
O objetivo é ampliar a capacidade produtiva doméstica e reduzir gradualmente a dependência de importações de alimentos e matérias-primas agrícolas.
“A China tem adotado uma política mais eficiente para incentivo da produção agrícola interna, tem também investido em algumas outras regiões. Houve nos últimos anos um investimento importante por parte da China em algumas regiões da África, com vistas à produção de alguns alimentos para exportação para a China”, observa.
A China absorve cerca de 71% da soja exportada pelo Brasil e mais da metade das exportações brasileiras de carne bovina. Diante dessa dependência, qualquer mudança estrutural na política agrícola chinesa é acompanhada com atenção pelo setor.
A adoção de metas de autossuficiência pode reduzir significativamente a necessidade de importação de soja ao longo da próxima década.
Além disso, Pequim tem ampliado investimentos em proteínas alternativas e novas tecnologias voltadas à produção de alimentos.
“Eu acredito que a China não vá conseguir ser totalmente independente, mas talvez os volumes e a participação possam se reduzir no futuro. Então isso hoje já é um aspecto importante que já começa a entrar na agenda estratégica dos setores do agronegócio”, pondera.
Concorrência internacional entra na equação
Outro fator observado pelo mercado envolve o reposicionamento comercial da China em relação aos Estados Unidos. Nos últimos meses, acordos entre as duas maiores economias do mundo incluíram reduções tarifárias e compromissos de compras de determinados produtos norte-americanos.
Para exportadores brasileiros, esse movimento representa uma variável adicional em um cenário já marcado por incertezas climáticas.
A combinação entre uma possível desaceleração da demanda chinesa, aumento da concorrência internacional e oscilações na produção agrícola pode alterar estratégias de investimento e comercialização nos próximos anos.
“As tarifas americanas são um grande complicador nessas idas e vindas e isso pode ser um problema para o Brasil, afetando as nossas exportações. Algumas cadeias produtivas têm os Estados Unidos como um destino importante”, alerta.
“O Brasil já mostrou nos dois últimos anos, que conseguiu de alguma maneira compensar em alguns momentos as tarifas com novos destinos. Isso é algo que nós podemos tentar explorar”, acrescenta.
Diversificação ganha espaço nas discussões
Diante desse conjunto de fatores, representantes do setor defendem a ampliação de mercados compradores e o fortalecimento de cadeias produtivas com maior valor agregado.
“Nós precisamos, enquanto país, começar a pensar em novos destinos, em diversificar um pouco a nossa pauta de destinos das nossas exportações”, afirma.
A estratégia é frequentemente apontada como uma forma de reduzir a dependência de poucos destinos comerciais e ampliar a resiliência do agronegócio brasileiro diante de oscilações externas.
“Eu particularmente acho que nós devemos tentar aproveitar um pouco mais o acordo Mercosul-União Europeia e também acho que seria bastante relevante para o Brasil olhar um pouco mais para a América Latina como um destino para as nossas exportações de alimentos”, conclui.

