O escritório Mudrovitsch Advogados assumiu oficialmente a defesa de Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador Ciro Nogueira (PP-PI), no âmbito da Operação Compliance Zero.
Documentos obtidos pelo BNews mostram que a banca apresentou recurso ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar reverter medidas cautelares impostas ao empresário, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica e restrições de contato com outros investigados.
A movimentação ocorre em meio ao avanço das investigações sobre o Banco Master e às discussões travadas na Segunda Turma do STF sobre os métodos utilizados na operação.
A defesa é conduzida pelo escritório fundado por Rodrigo Mudrovitsch, atual presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos para o biênio 2026-2027.
O advogado é apontado como um dos nomes mais próximos do ministro Gilmar Mendes no meio jurídico. O recurso foi direcionado ao ministro André Mendonça, relator do caso, e também poderá ser analisado pela Segunda Turma da Corte.
O elo entre Raimundo Neto e as investigações
O nome de Raimundo Neto ganhou relevância após a Polícia Federal apontá-lo como administrador formal da empresa CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda. A companhia é citada pelos investigadores como uma das estruturas utilizadas em operações analisadas na Compliance Zero.
Como mostrou O Brasilianista, a Polícia Federal afirma que a CNLF foi utilizada em uma operação societária envolvendo participação na Green Investimentos S.A., empresa ligada ao grupo de Daniel Vorcaro.
Segundo o relatório policial reproduzido pela publicação, a transação teria ocorrido com valor muito abaixo da avaliação de mercado atribuída ao ativo.
Investigadores também identificaram mensagens sobre repasses mensais associados a uma parceria envolvendo a CNLF. A Polícia Federal estima que os pagamentos monitorados tenham alcançado ao menos R$ 6 milhões durante o período analisado.
A defesa de Raimundo Neto sustenta que as medidas cautelares não possuem contemporaneidade e argumenta que os fatos citados pelos investigadores remontam a operações realizadas em 2024. Os advogados afirmam ainda que o empresário não representa risco à instrução processual.
Projetos legislativos ampliaram a apuração
Outra frente da investigação envolve a atuação de Daniel Vorcaro junto a parlamentares em propostas discutidas no Congresso Nacional.
O Brasilianista informou, que a Polícia Federal afirma ter encontrado evidências de que uma proposta apresentada pelo senador teria sido elaborada a partir de documentos produzidos por integrantes do Banco Master.
A emenda pretendia ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.
Mensagens apreendidas pela PF mostram trocas de informações entre integrantes do banco e pessoas ligadas ao gabinete do senador durante a tramitação da proposta. A investigação tenta esclarecer se houve interferência privada na elaboração do texto legislativo.
A PF considera o tema relevante porque o modelo de negócios do Banco Master dependia diretamente da estrutura de proteção oferecida pelo FGC. A proposta acabou ficando conhecida nos bastidores do mercado financeiro como “Emenda Master”.
Relação entre Vorcaro e senador é alvo de outras linhas de investigação
O Brasilianista destacou que a Polícia Federal identificou diálogos sobre projetos relacionados ao Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten) e ao Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE).
Documentos relacionados às propostas teriam circulado entre pessoas ligadas ao empresário e integrantes do gabinete do senador. Os investigadores analisam se houve influência privada na construção de iniciativas que poderiam beneficiar investimentos ligados ao grupo econômico de Vorcaro.
A PF investiga supostas vantagens financeiras e benefícios concedidos ao senador durante o período em que os projetos tramitavam no Congresso Nacional. As acusações são contestadas pelos envolvidos.
Julgamento no STF elevou tensão no caso
A ofensiva da defesa de Raimundo Neto ocorre no mesmo dia em que a Segunda Turma do STF decidiu manter as prisões de Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, e de Felipe Vorcaro, primo do ex-banqueiro.
Durante o julgamento, Gilmar Mendes abriu divergência e votou pela substituição das prisões por medidas cautelares alternativas. O ministro também criticou a condução da Operação Compliance Zero e demonstrou preocupação com o uso de prisões preventivas em investigações complexas.
A maioria formada por André Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques manteve as detenções. Com isso, o entendimento do relator prevaleceu no colegiado.

