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Economia

Exportar é privilégio de grandes empresas?

Falta de planejamento, estrutura e conhecimento sobre comércio exterior costuma pesar mais do que o tamanho da empresa

Exportar é privilégio de grandes empresas?

A ideia de exportar costuma ser associada a grandes indústrias, multinacionais e empresas com operações estruturadas em diversos países.

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Porém, o comércio exterior também está ao alcance dos pequenos negócios. O desafio, segundo especialistas, não está necessariamente no porte da empresa, mas na capacidade de organização para atender às exigências dos mercados internacionais.

Dados divulgados pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), com base em levantamento do Sebrae, mostram que em 2022 mais de 40% das empresas exportadoras brasileiras são de micro ou pequeno porte.

O número revela que o acesso ao mercado externo não está restrito às grandes corporações, embora ainda existam obstáculos importantes para ampliar essa participação.

Para Marcelo Simonato, conselheiro empresarial, sócio e vice-presidente da Board Academy, um dos principais equívocos é acreditar que a qualidade do produto seja a principal barreira para quem deseja vender para outros países.

“O principal obstáculo não é a qualidade do produto, mas sim a falta de estrutura, planejamento e conhecimento sobre o comércio internacional”, explica.

A avaliação ocorre em um cenário no qual muitos empreendedores permanecem concentrados na operação diária do negócio e acabam adiando iniciativas ligadas à expansão internacional.

Segundo Simonato, exportar exige preparação em áreas que vão muito além da produção.

Entre os fatores citados pelo especialista estão adequação de processos, certificações, logística, gestão cambial, precificação em moeda estrangeira e capacidade financeira para suportar ciclos mais longos entre a venda e o recebimento dos recursos.

Mercado externo exige preparação

O primeiro passo para qualquer empresa interessada em exportar é realizar uma análise detalhada da própria operação.

O objetivo é entender se o negócio possui capacidade produtiva, estrutura financeira e condições operacionais para atender novos mercados sem comprometer as atividades já desenvolvidas no Brasil.

O planejamento também envolve conhecer regras tributárias, barreiras comerciais e exigências técnicas dos países de destino. Além disso, é necessário avaliar se o preço praticado será competitivo diante dos concorrentes internacionais.

Na visão de Simonato, ainda existe uma cultura empresarial excessivamente concentrada no mercado doméstico.

Muitos empresários desconhecem oportunidades de internacionalização ou não sabem como acessar programas de apoio disponíveis para exportadores.

“Portanto, o desafio é menos relacionado à capacidade empreendedora e mais à preparação empresarial. Exportar exige profissionalização, governança e visão estratégica”, ressalta.

Crédito ajuda, mas não resolve sozinho

O acesso ao crédito costuma aparecer entre as principais reclamações de pequenos empresários quando o assunto é crescimento.

No caso das exportações, a necessidade de capital pode ser ainda maior devido aos investimentos em adaptação de produtos, certificações e logística.

Simonato reconhece a importância do financiamento, mas avalia que o problema não pode ser reduzido apenas à falta de recursos.

“Antes de faltar crédito, muitas vezes falta preparação para acessar esse crédito”, observa.

Segundo ele, diversas empresas não possuem controles gerenciais adequados, demonstrações financeiras organizadas ou indicadores capazes de transmitir segurança a bancos e investidores.

Sem essa estrutura mínima, o acesso a linhas de financiamento tende a se tornar mais difícil.

O especialista também lembra que muitos empreendedores desconhecem os mecanismos existentes ou consideram excessivas as exigências para obtenção dos recursos.

Por esse motivo, ele defende que políticas de incentivo sejam acompanhadas por ações voltadas à capacitação empresarial e ao fortalecimento da gestão financeira.

Alimentos continuam entre os destaques

Quando o assunto é potencial exportador, o agronegócio segue ocupando posição de destaque. Entretanto, a exportação não se limita às grandes commodities tradicionalmente associadas ao setor.

Simonato avalia que existe espaço para pequenos produtores que atuam em nichos de maior valor agregado.

“O agronegócio continua sendo um dos grandes destaques, especialmente em produtos com maior valor agregado, como cafés especiais, mel, frutas, castanhas e alimentos processados”, detalha.

A observação ajuda a relativizar uma percepção comum de que apenas grandes grupos exportam enquanto os pequenos ficam restritos ao abastecimento do mercado interno.

Em diversos segmentos alimentícios, negócios de menor porte vêm encontrando oportunidades em mercados especializados e consumidores dispostos a pagar mais por produtos diferenciados.

A análise da demanda é uma etapa indispensável nesse processo. Além da qualidade, o produto precisa atender normas técnicas, sanitárias e regulatórias específicas de cada país.

Tecnologia amplia oportunidades

Além dos alimentos, outros setores vêm ampliando presença internacional sem depender de estruturas industriais de grande porte.

Simonato aponta que tecnologia, serviços digitais, consultoria, educação e soluções de inteligência artificial passaram a ocupar espaço relevante no comércio internacional.

“Hoje, graças à digitalização, uma pequena empresa brasileira pode alcançar clientes em qualquer parte do mundo, desde que tenha estratégia, posicionamento e capacidade de execução”, afirma.

O especialista também cita oportunidades em cosméticos, moda, móveis, calçados, produtos artesanais, economia criativa e negócios ligados à sustentabilidade e à bioeconomia.

Fundo garantidor pode abrir portas

Nos últimos meses, propostas para ampliar o acesso ao crédito de empresas exportadoras passaram a incluir mecanismos de garantia para facilitar financiamentos.

Para Simonato, medidas desse tipo podem facilitar a entrada de novos participantes no comércio exterior.

“A iniciativa é positiva e representa um avanço importante, porque reduz uma das principais barreiras enfrentadas pelos pequenos empresários: a dificuldade em oferecer garantias para obtenção de crédito”, avalia.

Ainda assim, o executivo destaca que a ampliação da presença dos pequenos negócios brasileiros no mercado internacional depende de um conjunto mais amplo de fatores, incluindo infraestrutura, simplificação tributária, acesso à informação, apoio institucional e qualificação da gestão.

“O Brasil ainda possui uma participação relativamente pequena de micro e pequenas empresas nas exportações quando comparado a economias mais desenvolvidas”, acrescenta.

Para ele, existe potencial de crescimento significativo, mas a transformação desse cenário exige políticas permanentes e uma estratégia de longo prazo voltada à competitividade empresarial.

Agricultura familiar alimenta o Brasil

A agricultura familiar ocupa posição central no abastecimento alimentar do país. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que cerca de 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros, incluindo produtos como feijão, arroz, milho, leite, mandioca e batata, são provenientes de propriedades administradas por famílias.

O setor também está presente em 67% das áreas rurais brasileiras, distribuídas em quase 4 milhões de estabelecimentos.

Além da produção de alimentos, a atividade possui forte impacto econômico. Os cerca de 10,1 milhões de agricultores familiares respondem por 23% do Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) nacional e movimentam a economia de 90% dos municípios com até 20 mil habitantes.

O levantamento ainda destaca que a agricultura familiar brasileira é considerada a oitava maior produtora de alimentos do mundo, reforçando seu papel estratégico para a segurança alimentar e o desenvolvimento regional.

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