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Economia

Dependência externa: de quais países o Brasil mais precisa e como reduzir a vulnerabilidade?

China, Estados Unidos e Argentina concentram quase metade da corrente de comércio brasileira

Dependência externa: de quais países o Brasil mais precisa e como reduzir a vulnerabilidade?

O Brasil mantém relações comerciais com centenas de países, mas parte significativa de sua economia depende de poucos parceiros em setores considerados estratégicos.

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Dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostram que China, Estados Unidos e Argentina responderam por 44% da corrente de comércio brasileira em 2024, enquanto produtos essenciais para o funcionamento da economia continuam sendo importados de mercados específicos.

Para o especialista em comércio exterior e sócio da Saygo Comex, Ronaldo Felix, o principal risco não está apenas na concentração por país, mas na dependência de determinadas cadeias produtivas, que podem sofrer impactos em caso de guerras, sanções econômicas ou interrupções logísticas.

Dependência vai além dos principais parceiros comerciais

A corrente de comércio brasileira alcançou cerca de US$ 600 bilhões em 2024. A China permaneceu como principal parceiro comercial do país, respondendo por 28% das exportações e 24% das importações.

Os Estados Unidos vieram em seguida, com participação de 12% das exportações e 15% das importações, enquanto a Argentina respondeu por 4% e 5%, respectivamente.

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a China compra principalmente soja, minério de ferro e carne bovina do Brasil e fornece eletrônicos, peças industriais e fertilizantes.

Já os Estados Unidos são importantes fornecedores de combustíveis, máquinas e tecnologia, além de adquirirem produtos industrializados brasileiros, como aeronaves e derivados de aço.

A Argentina mantém forte integração com a indústria automotiva e também fornece trigo, derivados de petróleo e produtos químicos.

Para Felix, observar apenas o volume comercial pode levar a uma conclusão incompleta.

“Na minha avaliação, a dependência do Brasil não deve ser analisada apenas por país, mas principalmente por cadeia produtiva. Quando olhamos o comércio exterior de forma agregada, China e Estados Unidos são os dois parceiros mais relevantes. Mas, quando analisamos produtos estratégicos, a dependência muda de perfil”, destaca.

Cinco cadeias concentram as maiores vulnerabilidades

“Eu entendo que as principais vulnerabilidades brasileiras estão em cinco cadeias: fertilizantes, medicamentos/IFAs, semicondutores, combustíveis derivados e máquinas/equipamentos industriais”, afirma Felix.

Entre elas, o agronegócio aparece como um dos setores mais sensíveis. O Brasil importa aproximadamente 90% dos fertilizantes consumidos, chegando a índices próximos de 98% no potássio. Rússia, China, Canadá, Marrocos e Egito figuram entre os principais fornecedores, o que torna o país vulnerável a conflitos geopolíticos e restrições comerciais.

Na área da saúde, a dependência também é elevada. Grande parte dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs) utilizados na fabricação de medicamentos e vacinas vem principalmente da China e da Índia.

Em uma eventual interrupção dessas cadeias, hospitais, farmácias e programas públicos poderiam enfrentar dificuldades de abastecimento.

Outro ponto sensível envolve semicondutores. O Brasil depende de componentes produzidos principalmente por China, Taiwan e Coreia do Sul, utilizados em automóveis, equipamentos médicos, telecomunicações, energia e eletroeletrônicos.

Uma ruptura afetaria diversos setores da economia

Ronaldo explica que um choque de oferta elevaria os custos de produção agrícola, pressionando preços de alimentos, carnes e grãos e afetando também as exportações brasileiras.

“Na minha avaliação, o setor mais imediatamente afetado seria o agronegócio, por causa da dependência de fertilizantes.”, explica.

Felix destaca ainda que o transporte rodoviário sentiria rapidamente os efeitos de uma eventual escassez de diesel importado, enquanto a indústria poderia enfrentar paralisações pela falta de semicondutores, sensores e componentes eletrônicos. Já a saúde dependeria da manutenção das cadeias asiáticas para garantir o fornecimento de medicamentos e vacinas.

Produção nacional e diversificação caminham juntas

Apesar das vulnerabilidades, o especialista avalia que o Brasil possui condições de reduzir parte dessa dependência.

“Eu diria que o Brasil tem capacidade para substituir parte dessas importações, mas não de forma ampla, rápida ou integral. O país precisa separar o que é viável no curto, médio e longo prazo”, destaca.

Segundo ele, fertilizantes organominerais, bioinsumos, parte dos medicamentos, equipamentos médicos e nichos da indústria de semicondutores podem ganhar espaço com investimentos, políticas industriais e inovação tecnológica. No entanto, segmentos de alta complexidade continuarão exigindo integração às cadeias globais.

Para Felix, a estratégia mais eficiente combina fortalecimento da produção nacional em setores estratégicos.

“Na minha avaliação, não é uma escolha entre uma coisa ou outra. A melhor estratégia é combinar produção nacional seletiva com diversificação de fornecedores internacionais.”, finaliza.

Ele defende ainda políticas voltadas à formação de estoques estratégicos, melhoria da infraestrutura logística, incentivo à inovação, acordos comerciais e criação de uma matriz permanente de monitoramento das cadeias críticas.

Segundo o especialista, a segurança econômica depende menos da autossuficiência e mais da capacidade de resposta diante de crises internacionais.

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