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Economia

Especialistas explicam por que o agronegócio pode colocar o Brasil na corrida global da IA

Brasil reúne vantagens competitivas para se destacar em soluções voltadas à agricultura tropical

Especialistas explicam por que o agronegócio pode colocar o Brasil na corrida global da IA

O Brasil dificilmente disputará a liderança mundial na produção de chips ou de grandes modelos de inteligência artificial com Estados Unidos e China.

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Ainda assim, especialistas avaliam que o país pode ocupar uma posição estratégica em outro segmento da economia digital: o desenvolvimento de soluções de IA voltadas ao agronegócio.

A combinação entre a força da produção agrícola nacional, a diversidade climática e biológica e o crescimento do ecossistema de inovação no campo pode transformar o país em referência internacional em tecnologias para agricultura tropical.

Enquanto economias asiáticas concentram investimentos bilionários em semicondutores e infraestrutura para inteligência artificial, o Brasil encontra no agronegócio uma oportunidade para participar dessa corrida tecnológica.

O levantamento destaca que o país encerrou 2025 com 2.075 agtechs, alta de 5% em relação ao ano anterior, e que 83% dessas empresas já utilizam inteligência artificial em seus produtos ou processos, enquanto 35% têm a tecnologia como núcleo da proposta de valor.

Interesse do produtor cresce com foco em resultados

Para o pesquisador Jayme Barbedo, da Embrapa Agricultura Digital, existe um interesse crescente dos produtores rurais em utilizar inteligência artificial.

“Há um grande interesse por parte dos produtores, tanto pequenos quanto grandes. Quando saem notícias sobre avanços na área, sempre somos procurados por produtores interessados tanto em adotar as soluções, quanto para ajudar no desenvolvimento e validação dessas tecnologias.”

As demandas aparecem em praticamente todas as etapas da produção agropecuária.

Segundo Barbedo, produtores buscam ferramentas capazes de monitorar pragas e doenças, otimizar a aplicação de insumos, melhorar a logística de distribuição, antecipar impactos climáticos e tornar a gestão mais eficiente tanto dentro quanto fora da propriedade.

O pesquisador observa, porém, que a expansão dessas soluções depende de um processo cuidadoso de validação tecnológica.

“Se não se tem esse cuidado e a tecnologia é lançada antes de estar de fato validada, pode-se ter uma situação em que os resultados práticos acabam sendo ruins e o mercado para essa tecnologia acaba sendo muito prejudicado.”

Além do desenvolvimento tecnológico, Barbedo considera que ampliar o letramento digital dos produtores e incentivar a atuação dos primeiros usuários das novas ferramentas são etapas importantes para acelerar a disseminação da inteligência artificial no campo.

IA avança onde entrega redução de custos e aumento da produtividade

Para Marcelo Pagoti, diretor de Agronegócios da BIP Brasil, o interesse pela inteligência artificial existe, mas a adoção ocorre de maneira bastante pragmática.

“O produtor não compra inteligência artificial pela tecnologia em si; ele compra aumento de margem, redução de risco, economia de insumos e maior previsibilidade.”

Na avaliação do executivo, grandes grupos agrícolas, cooperativas e agroindústrias já possuem infraestrutura para incorporar novas tecnologias com maior velocidade.

Em contrapartida, muitos médios e pequenos produtores ainda enfrentam dificuldades relacionadas à conectividade, integração entre sistemas, acesso ao crédito e capacitação técnica.

Entre as aplicações com maior potencial de crescimento estão a previsão de produtividade, o monitoramento precoce de pragas e doenças, o planejamento operacional das máquinas, a manutenção preditiva e a gestão de custos.

Pagoti cita como exemplo as soluções de pulverização seletiva, que utilizam visão computacional, sensores e inteligência artificial para identificar apenas as áreas que realmente necessitam da aplicação de defensivos agrícolas, reduzindo desperdícios e aumentando a eficiência operacional.

“As soluções que demonstrarem retorno em condições reais dentro de poucas safras tendem a ganhar escala mais rapidamente.”

Quais empresas podem capturar esse crescimento

O avanço da inteligência artificial tende a beneficiar um conjunto amplo de empresas ligadas ao agronegócio, especialmente aquelas capazes de integrar dados, tecnologia e serviços em uma única plataforma.

Segundo Pagoti, fabricantes de máquinas agrícolas partem de uma posição privilegiada porque já possuem equipamentos conectados, canais de relacionamento consolidados e grande volume de informações geradas durante as operações no campo.

“Os vencedores desse mercado não serão necessariamente aqueles com o melhor algoritmo isolado, mas aqueles que conseguirem organizar um ecossistema confiável, integrado e útil para o produtor.”

Além das fabricantes de máquinas, especialistas apontam oportunidades para segmentos como agricultura de precisão, softwares de gestão rural, conectividade, drones, sensores, bioinsumos e análise de dados.

Na avaliação de Elaine Coimbra, professora, palestrante e vice-presidente de Comunicação da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (ABRIA), o diferencial brasileiro está justamente na diversidade de dados disponíveis para desenvolver soluções adaptadas às condições da agricultura tropical.

“O Brasil é o país no mundo que tem a maior diversidade genética humana, plantas e animais. Essa riqueza poderia ser usada para treinar os modelos que precisam de uma enorme quantidade de dados diversos.”

Ela explica que o país dificilmente assumirá protagonismo na criação dos grandes modelos globais de inteligência artificial.

“O Brasil não tem como ultrapassar os EUA e a China na criação de plataformas e modelos, e o que poderíamos fazer é ser um líder internacional de treinamento de modelos no agro devido à nossa diversidade e riqueza genética.”

Pesquisa pública pode acelerar a transformação

Os especialistas também atribuem à pesquisa pública um papel decisivo para consolidar esse ecossistema de inovação.

Para Barbedo, o Brasil já é reconhecido internacionalmente pelos avanços na digitalização da agricultura e possui instituições capazes de desenvolver tecnologias adequadas às características locais.

O pesquisador destaca que muitas soluções desenvolvidas pela pesquisa nacional apresentam custos mais acessíveis e foram concebidas para atender à realidade enfrentada pela maior parte dos produtores brasileiros.

Na visão de Pagoti, a Embrapa pode atuar como uma articuladora do ecossistema, acelerando a validação científica das tecnologias e estabelecendo padrões para compartilhamento e governança de dados agrícolas.

“A Embrapa pode ser um dos grandes diferenciais do Brasil nessa agenda, porque reúne ativos muito difíceis de replicar.”

Elaine Coimbra acrescenta que a integração entre instituições de pesquisa, universidades, startups, cooperativas e empresas privadas pode ampliar a competitividade brasileira e criar condições para exportar tecnologia, e não apenas commodities.

“O Brasil tem a oportunidade de deixar de ser reconhecido apenas como grande exportador de commodities e passar a ser também um exportador de tecnologia e dados para agricultura tropical.”

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