As empresas brasileiras que exportam para mercados sujeitos a regras climáticas mais rígidas terão de ampliar o controle sobre suas emissões de gases de efeito estufa e comprovar a pegada de carbono dos produtos comercializados.
A adaptação envolve a elaboração de inventários, o monitoramento da cadeia de fornecedores e investimentos em processos produtivos menos intensivos em carbono.
Para Livia Ribeiro, sócia-fundadora da Reconectta e engenheira ambiental, a adequação das empresas precisa considerar as particularidades das emissões brasileiras.
“O Brasil, ele concentra suas emissões principalmente em mudança de uso da terra, que é desmatamento, e na agropecuária, diferente de um cenário mundial onde a energia lidera as principais emissões. Isso, principalmente no Brasil, é puxada pela pecuária, pela fermentação entérica do gado”, contextualiza.
A diferença no perfil das emissões exige que as estratégias empresariais não sejam limitadas à substituição de fontes de energia.
Dependendo da atividade econômica, as companhias também precisam acompanhar a origem das matérias-primas, os fornecedores e os impactos ambientais associados às diferentes etapas da produção.
Empresas precisam começar pelo mapeamento das emissões
O primeiro passo para a adaptação é identificar quanto a empresa emite e quais atividades concentram a maior parcela dos gases de efeito estufa.
O levantamento permite estabelecer uma base para definir metas, acompanhar resultados e identificar processos que precisam de mudanças.
A elaboração de um inventário de emissões reúne informações sobre fontes poluentes presentes nas operações empresariais.
O processo pode considerar o consumo de energia e combustíveis, as atividades industriais e, dependendo da metodologia adotada, os impactos relacionados aos fornecedores e ao uso dos produtos comercializados.
A Lei nº 15.042/2024 estabeleceu as bases para a comercialização de emissões de gases de efeito estufa no Brasil.
Embora o mercado regulado ainda não esteja totalmente implementado, as empresas podem antecipar o levantamento das fontes emissoras e avaliar investimentos necessários para reduzir a pegada de carbono.
Livia ressalta que o país já avançou na criação de mecanismos regulatórios, mas diferentes aspectos necessários ao funcionamento do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) ainda precisam ser definidos.
Exportadores terão de comprovar a pegada de carbono
A adaptação também passa pela capacidade das empresas de produzir informações verificáveis sobre as emissões associadas às mercadorias.
O avanço das regras internacionais aumenta a necessidade de reunir dados sobre processos produtivos e comprovar como os cálculos foram realizados.
Um dos principais mecanismos de pressão sobre os exportadores é o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM, na sigla em inglês), adotado pela União Europeia.
A medida alcança inicialmente produtos dos setores de ferro e aço, alumínio, cimento, fertilizantes, eletricidade e hidrogênio.
Estudo elaborado pela WayCarbon em parceria com a Câmara de Comércio Internacional (ICC Brasil) estimou que as exigências do mecanismo europeu podem provocar uma perda de renda de até US$ 444,3 milhões nas exportações brasileiras de produtos intensivos em energia, redução de 1,49% em comparação com um cenário sem a aplicação do CBAM.
“Paralelamente, mecanismos internacionais que taxam produtos intensivos em carbono, em emissão de carbono na importação, podem afetar alguns setores exportadores e também criam um incentivo adicional para essa adequação e para esses mecanismos de redução de emissão”, ressalta Livia.
Controle dos fornecedores passa a integrar adaptação
Conhecer apenas as emissões geradas dentro das instalações da companhia pode não ser suficiente para atender às novas exigências.
Dependendo do setor, parte relevante da pegada de carbono está relacionada à origem das matérias-primas, ao transporte e às atividades realizadas pelos fornecedores.
As empresas precisam estabelecer procedimentos para coletar, organizar e verificar essas informações. O acompanhamento permite identificar quais etapas da cadeia concentram emissões e quais mudanças podem ser adotadas para diminuir a intensidade de carbono dos produtos.
As companhias precisam mapear suas fontes emissoras e estruturar dados capazes de passar por auditorias. O processo exige evidências sobre a origem das informações, os métodos utilizados nos cálculos e, gradualmente, maior controle sobre as empresas fornecedoras.
A rastreabilidade também pode atingir setores que não estão diretamente incluídos nas primeiras etapas das regras internacionais.
Produtores de biocombustíveis, carvão vegetal e outros insumos podem precisar comprovar a origem e as características ambientais das mercadorias fornecidas às indústrias exportadoras.
Metas precisam sair do compromisso e chegar à execução
Além de medir as emissões, as empresas precisam transformar compromissos ambientais em medidas capazes de produzir resultados verificáveis.
A adaptação pode envolver metas intermediárias, mudanças tecnológicas e investimentos direcionados aos processos que concentram maior impacto climático.
“E quanto às metas de descarbonização, o cenário, ele é misto. Parte dos compromissos corporativos, ela é voluntária, sem mecanismo de cobrança formal, e as projeções indicam que talvez o país não cumpra sua meta climática de 2025. Mas, ao mesmo tempo, há avanços regulatórios que podem mudar esse quadro nos próximos anos”, pondera Livia.
Para as empresas, a transformação dos compromissos em medidas concretas passa pela identificação das principais fontes emissoras.
A partir desse levantamento, as companhias podem estabelecer prioridades e avaliar quais mudanças apresentam maior capacidade de reduzir a pegada de carbono.
A adaptação também exige acompanhamento dos resultados. Dados organizados e verificáveis permitem comparar a evolução das emissões, identificar dificuldades no cumprimento das metas e apresentar informações a compradores e parceiros comerciais.
Setores de baixo carbono podem abrir novas oportunidades
A pressão para reduzir emissões não significa necessariamente limitar o crescimento das empresas. A adoção de tecnologias menos poluentes, o uso de fontes renováveis e o aumento da eficiência podem contribuir para diminuir a intensidade de carbono das atividades econômicas.
“Sobre conciliar o crescimento e a descarbonização, os principais especialistas, e eu concordo com isso, apontam que é super possível, que dá para conciliar crescimento e descarbonização, mas depende de um mix, do mix de setores”, analisa Livia.
Entre as áreas com capacidade de ampliar a participação brasileira na economia de baixo carbono estão atividades relacionadas às características ambientais e produtivas do país.
“Então, segmentos como energia renovável, bioeconomia, principalmente olhando para o cenário brasileiro, recuperação de áreas degradadas, indústria de baixo carbono, costumam ser citados como o maior potencial brasileiro para liderar essa transição, embora esse ritmo dependa tanto de políticas públicas quanto de decisões das próprias empresas”, observa.

