A investigação que revelou o desvio de R$ 6,1 milhões em emendas parlamentares levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a suspender recursos destinados ao ex-deputado federal Eduardo Cunha, que não exerce mandato parlamentar.
A Operação Transparência, revelou, em dezembro do ano passado, que a primeira fase teve como foco apurar as decisões e as rotinas relacionadas às emendas de comissão, provenientes, em especial, da Câmara dos Deputados.
Em 2024, não havia critérios de rastreabilidade das emendas, conforme apontava o STF, o que levou ao questionamento sobre a transparência dos repasses desses recursos.
Após as primeiras fases da operação, revela-se agora a influência de Eduardo Cunha como operador de um esquema de desvio de emendas. Segundo a investigação, ele atuava como um líder, mesmo sem exercer mandato parlamentar na Câmara dos Deputados.
Primeira fase
O ponto de partida ocorreu no final de 2025, quando a primeira fase da operação revelou o envolvimento da ex-assessora do então presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, que operava o esquema de desvios e favorecimento de aliados políticos, conforme o Brasilianista noticiou neste domingo (12).
O esquema ficou conhecido como Orçamento Secreto. Mariângela, que era servidora e assessora na Câmara dos Deputados, era responsável pelo encaminhamento desses recursos. A Polícia Federal realizou as primeiras buscas e apreensões em sua residência e em gabinetes da Câmara para obter mais informações sobre suas atividades.
O resultado preliminar da análise, que ainda está em andamento, permitiu identificar condutas classificadas como “graves”.
Conversas de Tuca por telefone e recursos despejados
A decisão explica que as mensagens trocadas por Tuca revelam que a servidora favoreceu o pré-candidato Eduardo Cunha ao destinar recursos de acordo com o interesse do político, o que configura, segundo a investigação, crimes de peculato. Tuca definia e remanejava emendas, contando com o apoio de outros parlamentares.
Foram, ao menos, 29 emendas da Comissão de Saúde, no valor de R$ 6 milhões, desviadas. Além disso, Cunha contava com recursos informais da Câmara, que seguiam conforme seus interesses políticos em Minas Gerais.
Cunha indicava os municípios para os quais Tuca deveria destinar os recursos. A PF afirmou que Eduardo Cunha nunca teve relação com Minas Gerais. Pelo contrário, “em algumas passagens simboliza manter pouco apreço pelo Estado e pelos prefeitos com quem mantinha interlocução”. Ainda assim, ele chegou a reclamar com Tuca e comunicar que faria trocas nas emendas em razão desses favorecimentos.
“Boa tarde, desculpa, mas eu não aguento mais esses mineiros enrolados. Troca a de Governador Valadares por essa, pois lá também criaram caso pedindo ofício etc. É mais fácil trocar”, disse Cunha a Tuca.
Detalhes das trocas de mensagens
A ex-assessora, em seus depoimentos, afirmava que não tinha diálogo com deputados sobre a destinação dos recursos, uma vez que essa atribuição caberia às lideranças partidárias. Isso, no entanto, segundo a investigação, não é verdade e configura desvio de finalidade, já que Tuca mantinha interações e interlocuções intensas identificadas no âmbito da apuração.
Nas primeiras conversas entre Tuca e Cunha, em setembro de 2025, o ex-deputado cobrava da assessora “boas notícias”. Embora as mensagens estivessem aparentemente apagadas ou com visualizações cínicas, Tuca sinalizava que levava essas demandas a outros líderes partidários.
“Tive ontem com Arthur. Hugo me ligou à noite. Enfim, tentando ajudar. Mas Arthur tem razão”, encaminhou para Cunha.
No dia 12 do mesmo mês, Cunha orientava Tuca sobre qual deputado deveria subscrever determinada emenda, direcionando o repasse para um município do interior de Minas Gerais. No mesmo dia, cobrou de Tuca um ofício do deputado federal Gilberto Abramo (Republicanos-MG) para resolver o problema.
Fala com o Nikolas e o Gilberto Abramo
“Oi. Se puder. Tou com um problema lá em uma das emendas de Manhuaçu, que o pessoal lá é inimigo e estão dizendo que é do Nikolas. Como pôs no Gilberto Abramo, preciso de um ofício dele dizendo que essa emenda é de autoria dele, a pedido do deputado estadual João Magalhães, senão vamos ter de trocar e não mandar para lá.”
Tuca, então, consultava e organizava a relação dos parlamentares e das emendas e verificava se conseguiria enquadrá-las como de bancada ou individuais, uma vez que os parlamentares citados não eram titulares de comissão.
Cunha, insistindo, citou o senador Cleitinho (Republicanos-MG) sobre o envio de uma emenda no valor de R$ 200 mil destinada a Minas Gerais, o que o incomodava. Em seguida, pediu a troca do município:
“Bom dia. Trocar Manhuaçu por essas para acabar com a confusão.”
Por fim, há outros diálogos nos quais Cunha definia repasses para Matias Barbosa, Pedrinópolis, Varjão de Minas e estabelecia a prioridade na destinação dos recursos.
Análise da PF
A Polícia Federal realizou análises no Portal da Transparência e nas planilhas de Tuca para verificar se houve a destinação das emendas.
Os investigadores cruzaram os dados indicados por Eduardo Cunha com as informações do Portal da Transparência para comprovar as indicações atribuídas ao ex-presidente da Câmara dos Deputados.
O que se conseguiu comprovar foram 25 emendas parlamentares, no valor de R$ 6,15 milhões, pagas, mas forjadas para ocultar o verdadeiro autor das indicações — no caso, Eduardo Cunha. Segundo a análise da PF, Tuca desviou pelo menos 29 emendas em benefício de Cunha.

Cunha apresentou uma tabela de municípios e as orientações para o envio das emendas a Tuca, orientando como ela deveria empenhar os recursos
O que mais chamou a atenção da PF foi a capacidade de Cunha de “influenciar concretamente a atuação de servidores e lideranças, sendo essa ascendência, quando convertida em comando sobre a aplicação de verbas públicas, juridicamente relevante para a configuração de concurso de pessoas no peculato-desvio”.
A PF concluiu que a ex-assessora de Arthur Lira, apelidada de Tuca, executava as ações sob a condução de Eduardo Cunha, que se valia de sua influência política e partidária. Segundo os investigadores, ele atuava como um “agente privado com poderes políticos iguais ou até superiores aos de parlamentares em exercício, interferindo no direcionamento de recursos federais, sem qualquer autorização institucional”, o que, na avaliação da corporação, configura peculato-desvio.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todos os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

