O Brasil emitiu cerca de 2,145 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2024, com a maior parcela relacionada à mudança de uso da terra e à agropecuária.
A concentração das emissões nesses setores ajuda a explicar por que empresas ligadas à proteína animal, petróleo, mineração e siderurgia aparecem com frequência entre as companhias mais expostas aos impactos climáticos e à pressão por metas de descarbonização.
Para a professora e consultora em sustentabilidade, estratégia e ESG Denise Curi, criadora do curso “Inventário de GEE: decisões sem medo”, identificar as empresas que mais poluem exige analisar as características da economia brasileira e diferenciar as emissões geradas diretamente pelas operações daquelas presentes nas cadeias de fornecedores e no uso dos produtos.
“O Brasil não tem apenas um problema de emissões. Tem um problema de uso da terra, logística e produtividade. Diferentemente de economias mais industrializadas, em que energia, indústria e transporte costumam liderar as emissões, no Brasil o maior peso ainda está ligado à mudança de uso da terra e à agropecuária”, contextualiza.
Uso da terra e agropecuária concentram emissões
Dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) apontam que a mudança de uso da terra respondeu por 42% das emissões brasileiras em 2024.
A agropecuária representou outros 29%, seguida pelos setores de energia, com 20%, resíduos, com 5%, e processos industriais, com 4%.
A concentração está relacionada, entre outros fatores, à conversão da vegetação nativa em pastagens e lavouras. A retirada de florestas e de áreas do Cerrado libera parte do carbono armazenado na vegetação e no solo, enquanto a atividade agropecuária acrescenta emissões provenientes do rebanho, do manejo das áreas produtivas, dos fertilizantes e dos dejetos animais.
Curi explica que essa composição diferencia o Brasil de países nos quais a indústria e a geração de energia ocupam as primeiras posições nos inventários nacionais.
“Mais de dois terços das emissões nacionais estão relacionados, direta ou indiretamente, ao uso da terra, à conversão de vegetação nativa e à produção agropecuária”, detalha.
JBS e Marfrig aparecem em levantamento internacional
Levantamento do Instituto de Política Agrícola e Comercial e da fundação Changing Markets colocou JBS e Marfrig nas primeiras posições entre 15 grandes produtoras mundiais de carnes e laticínios analisadas pelo volume estimado de emissões.
De acordo com o documento divulgado em 2022, a JBS teria emissões estimadas em 287,9 milhões de toneladas de gases de efeito estufa, enquanto a Marfrig alcançaria 102,6 milhões. Juntas, as duas companhias somariam 390 milhões de toneladas, além de 6,7 milhões de toneladas de metano.
A especialista pondera, porém, que listas empresariais precisam ser interpretadas a partir da metodologia adotada e da abrangência das emissões contabilizadas.
“Quando falamos em empresas, é preciso ter cuidado com rankings simplificados. Empresas como Petrobras, Vale, JBS, Marfrig, Gerdau, CSN e grandes grupos de energia, mineração, siderurgia, cimento e proteína animal aparecem com frequência porque operam em setores intensivos em carbono ou em cadeias produtivas com alta exposição climática. Mas uma comparação séria precisa separar emissões diretas, emissões indiretas e emissões de cadeia, especialmente o chamado Escopo 3.”
Cadeias de fornecedores ampliam a pegada climática
A dificuldade de comparar companhias aumenta porque parte relevante das emissões pode ocorrer fora das instalações industriais.
No setor de proteína animal, por exemplo, a pegada climática envolve o metano emitido pelo rebanho, a procedência do gado e possíveis mudanças no uso da terra ao longo da cadeia produtiva.
Situação semelhante ocorre em outros segmentos. Empresas de petróleo precisam considerar tanto as emissões de suas operações quanto aquelas associadas ao uso dos combustíveis comercializados, enquanto mineradoras estão expostas aos impactos provocados pela utilização do minério em atividades como a produção de aço.
Para Curi, as características das cadeias produtivas ajudam a compreender por que a identificação dos maiores emissores não pode considerar apenas as instalações de cada companhia.
“Um frigorífico pode emitir relativamente pouco dentro da planta industrial, mas ter grande parte de sua pegada climática ligada ao campo, ao rebanho, ao metano, à origem do gado e ao risco de desmatamento na cadeia.”
Petrobras integra lista histórica de grandes emissoras
A Petrobras integra a lista das 20 empresas que, juntas, respondem por mais de um terço das emissões de gases de efeito estufa associadas aos combustíveis fósseis e à produção de cimento desde 1965.
O cálculo considerou a produção anual de petróleo, gás natural e carvão e incluiu as emissões desde a extração até a utilização final dos combustíveis.
A abrangência utilizada em estudos desse tipo também influencia a posição ocupada pelas empresas.
“Uma petroleira tem emissões operacionais relevantes, mas também carrega o impacto do uso futuro dos combustíveis que comercializa. Uma mineradora pode ter emissões diretas menores do que as emissões associadas ao uso do minério por seus clientes, especialmente na siderurgia”, esclarece Curi.
Metas climáticas avançam em velocidades diferentes
As principais empresas brasileiras passaram a anunciar compromissos de redução das emissões, ampliar inventários e publicar indicadores climáticos.
A adoção dessas medidas ganhou espaço entre companhias listadas em bolsa, exportadoras e organizações pressionadas por investidores e compradores internacionais.
A Petrobras informa ter reduzido suas emissões operacionais absolutas de gases de efeito estufa em 40% entre 2015 e 2024 e diminuído em 69% as emissões de metano nas atividades de exploração e produção.
A Vale, por sua vez, estabeleceu a meta de reduzir em 33% as emissões absolutas dos Escopos 1 e 2 até 2030 e diminuir em 15% as emissões líquidas do Escopo 3 até 2035.
Apesar dos avanços, Curi avalia que os resultados não podem ser estendidos a todo o setor empresarial.
“O cenário é misto. As metas de descarbonização anunciadas por grandes empresas brasileiras têm produzido alguns resultados concretos, mas de forma desigual. O avanço é mais visível em empresas grandes, listadas em bolsa, exportadoras ou mais pressionadas por investidores, bancos e compradores internacionais.”
Distância entre promessa e resultado ainda desafia empresas
A publicação de metas para 2040 ou 2050 não permite, isoladamente, avaliar se uma companhia está efetivamente reduzindo sua pegada climática.
A análise depende da existência de objetivos intermediários, investimentos, tecnologias definidas, dados auditáveis e responsáveis pela execução da estratégia dentro da governança corporativa.
O principal obstáculo está nas emissões do Escopo 3, que abrangem diferentes etapas da cadeia de valor. Setores como petróleo, mineração, alimentos, proteína animal, varejo, transporte e agronegócio enfrentam dificuldades para monitorar fornecedores indiretos e calcular o impacto do transporte, das práticas produtivas e da utilização dos produtos comercializados.
“A fase dos compromissos genéricos está ficando para trás. A nova fase é a da comprovação”, ressalta Curi. Para a especialista, inventários padronizados, auditoria, rastreabilidade e divulgação consistente serão necessários para diferenciar a redução efetiva de emissões da comunicação institucional das companhias.
Regras internacionais aumentam pressão por transparência
As exigências climáticas também passaram a influenciar o acesso das empresas brasileiras aos mercados internacionais.
O Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da União Europeia (CBAM) entrou em sua fase definitiva em 2026 e alcança inicialmente produtos como ferro, aço, alumínio, cimento, fertilizantes, hidrogênio e eletricidade.
As empresas que exportam produtos abrangidos pelo mecanismo precisarão demonstrar as emissões incorporadas à produção. Companhias com processos menos intensivos em carbono e informações confiáveis poderão enfrentar condições diferentes daquelas que não possuem inventários estruturados e rastreabilidade.
“A agenda climática deixou de ser apenas ambiental. Hoje ela envolve comércio exterior, custo de capital, acesso a mercados, risco regulatório e reputação corporativa”, analisa Curi.
Descarbonização pode influenciar competitividade
O Brasil possui vantagens para avançar na redução da intensidade de carbono da economia, principalmente pela participação das fontes renováveis na geração de eletricidade.
Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apontam que 88,2% da matriz elétrica brasileira era composta por fontes renováveis em 2024.
O transporte permanece entre os principais desafios. O setor respondeu por 221,44 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2024, correspondentes a 52,3% das emissões relacionadas à energia, enquanto a dependência do modal rodoviário mantém elevada a utilização de diesel no transporte de cargas.
Para a especialista, a redução das emissões precisa ser associada a mudanças capazes de elevar a eficiência da economia.
“O caminho mais eficiente é priorizar medidas que reduzam emissões e aumentem produtividade ao mesmo tempo: combate ao desmatamento ilegal, rastreabilidade no agro, recuperação de pastagens, eficiência energética, modernização industrial, logística multimodal, biocombustíveis, energia renovável, saneamento, gestão de resíduos e inovação tecnológica.”
O avanço desse processo dependerá ainda da capacidade das empresas de medir resultados e comprovar a origem de seus produtos. “No comércio internacional dos próximos anos, não bastará dizer que o produto brasileiro é sustentável. Será preciso provar”, conclui Curi.
10 empresas brasileiras de setores com alta exposição às emissões
- Petrobras;
- JBS;
- Marfrig;
- Vale;
- Gerdau;
- Companhia Siderúrgica Nacional (CSN);
- Suzano;
- Votorantim Cimentos;
- Raízen;
- Braskem.

